Pais brilhantes, professores fascinantes




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Da mesma maneira, os pais precisam ensinar suas crianças e adolescentes a criticar suas próprias idéias negativas, a virar a mesa contra seus medos, a enfrentar as suas mágoas e timidez. Na minha opinião, gerenciar os pensamentos é uma das mais importantes descobertas da ciência atual, e com grande aplicabilidade na educação e na psicologia. Mas a educação, as escolas de pedagogia e as faculdades de psicologia ainda dormitam nessa área. Somos especialistas em formar pessoas passivas.

De que adianta aprender a equacionar problemas de matemática se nossos jovens não aprenderem a resolver os problemas da vida, de que adianta aprender línguas se não souberem falar de si mesmos?

Já é tempo de produzirmos autores e não vitimas da própria história. Já é tempo de prevenirmos doenças emocionais entre os jovens, em vez de esperar para tratá-las depois que elas afloram. Os jovens precisam de uma educação surpreendente.


10
Participar de projetos sociais

Objetivos desta técnica: desenvolver a responsabilidade social, promover a cidadania, cultivar a solidariedade, expandir a capacidade de trabalhar em equipe, trabalhar os temas transversais: a educação para a saúde, para a paz, para os direitos humanos.

Levar os jovens a se comprometer com projetos sociais é a décima técnica pedagógica que proponho. O compromisso social deve ser a grande meta da educação. Sem ele, o individualismo, o egoísmo e o controle de uns sobre os outros crescerão.

Participar de campanhas de prevenção contra a AIDS, drogas, violência, combate à fome pode contribuir para que os jovens sejam saudáveis psíquica e socialmente. Como vimos, eles amam o veneno do consumismo e do prazer imediato. Muitos só se importam consigo mesmos. Mas, reitero, eles não são culpados. Há milhões de imagens gravadas na sua memória consciente e inconsciente que os controlam sem que percebam.

Na realidade todos somos vítimas do sistema que criamos. Estamos cada vez mais perdendo nossa identidade, nos tornando uma conta bancária, um número de cartão de crédito, um consumidor em potencial. A minha crítica tem fundamento. O sistema social infiltra-se na caixa de segredos da personalidade, escasseando a produção de pensamentos singelos, tranqüilos, serenos.

Em pesquisa que realizei com cerca de mil educadores sobre a opinião deles relativa à qualidade de vida dos jovens, os resultados foram espantosos. Eles consideram que 94% dos jovens estão agressivos e 6%, tranqüilos; 95% estão alienados e 4% se preocupam com seu futuro. Para onde caminha a educação?

Jovens que fazem a diferença

Os jovens que são determinados, criativos e empreendedores sobreviverão no sistema competitivo. Os que não têm metas nem ousadia para materializar seus projetos poderão viver à sombra dos pais e engrossar a massa de desempregados. Jovens desqualificados intelectualmente prejudicam o futuro de uma nação. Por que a riqueza das nações sobe e desce? Por que as riquezas familiares não duram até a terceira geração? Por causa do material humano.

Precisamos qualificar nossos filhos e alunos. Eles devem sentir-se importantes na escola, precisam participar de certas decisões. Devem também participar das decisões familiares, como a compra do carro, o roteiro das viagens, a ida a restaurantes, e até no orçamento familiar. Precisam aprender a fazer escolhas. Assim aprenderão uma dura lição: toda escolha implica perdas e ganhos.

A síndrome SPA deixa nossos filhos agitados. Elas detestam rotina, e por isso reclamam que "não têm nada para fazer". Eles têm muito para fazer, mas a rotina exaspera a ansiedade. Se os engajarmos em projetos sociais, suas vidas darão uma guinada. A emoção deles será estruturada, o pensamento, aquietado, e de quebra aprenderão a importância de servir.

Como poderão subir no pódio se desprezam o treinamento? Como brilharão na sociedade se não têm conexão com ela? Considerar nossos filhos e alunos apenas como receptores de informações e consumidores de bens materiais é uma afronta à inteligência deles.

Precisamos formar jovens que façam a diferença no mundo, que proponham mudanças, que resgatem seu sentido existencial e o sentido das coisas (Ricoeur, 1960). Uma das causas que levam milhões de jovens a usar drogas, a ter depressão e a ser alienados é que eles não têm sentido de vida, nem engajamento social.

O tédio os consome. Por isso, numa atitude insana, eles partem para o uso de drogas, como tentativa de aliviar sua ansiedade e tristeza, e não apenas para saciar sua curiosidade. Muitos jovens usam drogas como antidepressivos e tranqüilizantes. Infelizmente, esta atitude os levam a viver na mais dramática prisão: o cárcere da emoção.

Aplicação das técnicas do projeto escola da vida

Não podemos nos esquecer que os professores do mundo todo estão adoecendo coletivamente. Os professores são cozinheiros do conhecimento, mas preparam o alimento para uma platéia sem apetite. Qualquer mãe fica um pouco paranóica quando seus filhos não se alimentam. Como exigir saúde dos professores se seus alunos têm anorexia intelectual? É por causa da saúde deles e de seus alunos que a educação tem de ser reconstruída.

As escolas que já aplicam as técnicas psicossociais do projeto escola da vida estão assistindo a algo maravilhoso. O estresse dos professores e os gritos implorando silêncio diminuíram. Os níveis de ansiedade, as conversas paralelas e os atritos entre os alunos atenuaram-se. Cresceram a concentração, o prazer de aprender e a participação.

Uma diretora de uma escola pública me pediu ansiosamente ajuda. Ela chamava com freqüência o policiamento para conter a agressividade entre os alunos. Comovido, treinei os professores. Eles aplicaram todas essas técnicas durante um ano. O resultado? Além de todos os ganhos intelectuais que já citei, não foi mais necessário chamar a polícia. Os gritos cessaram, os alunos se acalmaram, o respeito surgiu.

Nessa escola pública só há o ensino fundamental. Quando os alunos entraram em outra escola para cursar o ensino médio, os professores ficaram impressionados com a tranqüilidade deles. Tornaram-se poetas da vida.

Diante de mudanças tão grandes, a diretora me disse: "Não acredito no que aconteceu na minha escola." Não fiz muito, os professores é que merecem todos os aplausos. Talvez esta seja uma das raríssimas experiências mundiais de mudanças significativas na dinâmica da personalidade e no processo educacional com a aplicação de técnicas psicopedagógicas. O melhor de tudo é que a aplicação dessas técnicas não envolve dinheiro. Ela gera a escola dos nossos sonhos.

Qual é a escola dos seus sonhos? Para mim, é a escola que educa os jovens para extraírem força da fragilidade, segurança da terra do medo, esperança da desolação, sorriso das lágrimas e sabedoria dos fracassos.

A escola dos meus sonhos une a seriedade de um executivo à alegria de um palhaço, a força da lógica à singeleza do amor. Na escola dos meus sonhos cada criança é uma jóia única no teatro da existência, mais importante que todo o dinheiro do mundo. Nela, os professores e os alunos escrevem uma belíssima história, são jardineiros que fazem da sala de aula um canteiro de sonhos.

Qual é a família dos seus sonhos? A família dos meus sonhos não é perfeita. Não tem pais infalíveis, nem filhos que não causam frustrações. É aquela em que pais e filhos têm coragem de dizer um para o outro: "Eu te amo", "Eu exagerei", "Desculpem-me", "Vocês são importantes para mim".

Na família dos meus sonhos não há heróis nem gigantes, mas amigos. Amigos que sonham, amam e choram juntos. Nela, os pais dão risadas quando perdem a paciência e os filhos debocham da própria teimosia. A família dos meus sonhos é uma festa. Um lugar simples, mas onde há gente feliz.

PARTE 6
A HISTÓRIA DA GRANDE TORRE

Se o teu sol é verdadeiro, não tenha medo das nuvens que o encobrem, pois um dia elas se dissiparão e o brilho do sol voltará...
Quais são os profissionais mais importantes da sociedade?

Para finalizar este livro, contarei uma história que revela a perigosa direção para onde a sociedade está caminhando, a crise da educação e a importância dos pais e dos professores como construtores de um mundo melhor. Tenho contado essa história em muitas conferências, inclusive em congressos internacionais. Muitos educadores ficam tão sensibilizados que vão às lágrimas.

Num tempo não muito distante do nosso, a humanidade ficou tão caótica que os homens fizeram um grande concurso. Eles queriam saber qual a profissão mais importante da sociedade. Os organizadores do evento construíram uma grande torre dentro de um enorme estádio com degraus de ouro, cravejados de pedras preciosas. A torre era belíssima. Chamaram a imprensa mundial, a TV, os jornais, as revistas e as rádios para realizarem a cobertura.

O mundo estava plugado no evento. No estádio, pessoas de todas as classes sociais se espremiam para ver a disputa de perto. As regras eram as seguintes: cada profissão era representada por um ilustre orador. O orador deveria subir rapidamente num degrau da torre e fazer um discurso eloqüente e convincente sobre os motivos pelos quais sua profissão era a mais importante da sociedade moderna. O orador tinha de permanecer na torre até o final da disputa. A votação era mundial e pela Internet.

Nações e grandes empresas patrocinavam a disputa. A categoria vencedora receberia prestígio social, uma grande soma em dinheiro e subsídios do governo. Estabelecidas as regras, a disputa começou. O mediador do concurso bradou: "O espaço está aberto!"

Sabem quem subiu primeiro na torre? Os educadores? Não! O representante da minha classe, a dos psiquiatras.

Ele subiu na torre e a plenos pulmões proclamou: "As sociedades modernas se tornarão uma fábrica de estresse. A depressão e a ansiedade são as doenças do século. As pessoas perderam o encanto pela existência. Muitas desistem de viver. A indústria dos antidepressivos e dos tranqüilizantes se tornou a mais importante do mundo." Em seguida, o orador fez uma pausa. O público, pasmo, ouvia atentamente seus argumentos contundentes.

O representante dos psiquiatras concluiu: "O normal é ter conflitos, e o anormal é ser saudável. O que seria da humanidade sem os psiquiatras? Um albergue de seres humanos sem qualidade de vida! Por vivermos numa sociedade doentia, declaro que somos, juntamente com os psicólogos clínicos, os profissionais mais importantes da sociedade!"

No estádio reinou um silêncio. Muitos na platéia olharam para si mesmos e perceberam que não eram alegres, estavam estressados, dormiam mal, acordavam cansados, tinham uma mente agitada, dores de cabeça. Milhões de espectadores ficaram com a voz embargada. Os psiquiatras pareciam imbatíveis.

Em seguida, o mediador bradou: "O espaço está aberto!" Sabem quem subiu depois? Os professores? Não! O representante dos magistrados - os juizes de direito.

Ele subiu num degrau mais alto e num gesto de ousadia desferiu palavras que abalaram os ouvintes: "Observem os índices de violência! Eles não param de aumentar. Os seqüestros, assaltos e a violência no trânsito enchem as páginas dos jornais. A agressividade nas escolas, os maus-tratos infantis, a discriminação racial e social fazem parte da nossa rotina. Os homens amam seus direitos e desprezam seus deveres."

Os ouvintes menearam a cabeça, concordando com os argumentos. Em seguida, o representante dos magistrados foi mais contundente: "O tráfico de drogas movimenta tanto o dinheiro como o petróleo. Não há como extirpar o crime organizado. Se vocês querem segurança, aprisionem-se dentro de suas casas, pois a liberdade pertence aos criminosos. Sem os juizes e os promotores, a sociedade se esfacela. Por isso, declaro, com o apoio dos promotores e do aparelho policial, que representamos a classe mais importante da sociedade."

Todos engoliram em seco essas palavras. Elas perturbavam os ouvidos e queimavam na alma. Mas pareciam incontestáveis. Outro momento de silêncio, agora mais prolongado. Em seguida, o mediador, já suando frio, disse: "O espaço está novamente aberto!"

Um outro representante mais intrépido subiu num degrau mais alto da torre. Sabem quem foi desta vez? Os educadores? Não!

Foi o representante das forças armadas. Com uma voz vibrante e sem delongas, ele discursou: "Os homens desprezam o valor da vida. Eles se matam por muito pouco. O terrorismo elimina milhares de pessoas. A guerra comercial mata milhões de fome. A espécie humana se esfacelou em dezenas de tribos. As nações só se respeitam pela economia e pelas armas que possuem. Quem quiser a paz tem de se preparar para a guerra. Os poderes econômico e bélico, e não o diálogo, são os fatores de equilíbrio num mundo espúrio."

Suas palavras chocaram os ouvintes, mas eram inquestionáveis. Em seguida, ele concluiu: "Sem as forças armadas, não haveria segurança. O sono seria um pesadelo. Por isso, declaro, quer se aceite ou não, que os homens das forças armadas não são apenas a classe profissional mais importante, mas também a mais poderosa." A alma dos ouvintes gelou. Todos ficaram atônitos.

Os argumentos dos três oradores eram fortíssimos. A sociedade tinha se tornado um caos. As pessoas do mundo todo, perplexas, não sabiam qual atitude tomar: se aclamavam um orador, ou se choravam pela crise da espécie humana, que não honrou sua capacidade de pensar.

Ninguém mais ousou subir na torre. Em quem votariam?

Quando todos pensavam que a disputa havia se encerrado, ouviu-se uma conversa no sopé da torre. De quem se tratava? Desta vez eram os professores. Havia um grupo deles da pré-escola, do ensino fundamental, do médio e do universitário. Eles estavam encostados na torre dialogando com um grupo de pais. Ninguém sabia o que estavam fazendo. A TV os focalizou e projetou num telão. O mediador gritou para um deles subir na torre. Eles se recusaram.

O mediador os provocou: "Sempre há covardes numa disputa." Houve risos no estádio. Fizeram chacota dos professores e dos pais.

Quando todos pensavam que eles eram frágeis, os professores, com o incentivo dos pais, começaram a debater as idéias, permanecendo no mesmo lugar. Todos se faziam representar.

Um dos professores, olhando para o alto, disse para o representante dos psiquiatras: "Nós não queremos ser mais importantes do que vocês. Apenas queremos ter condições para educar a emoção dos nossos alunos, formar jovens livres e felizes, para que eles não adoeçam e sejam tratados por vocês."

O representante dos psiquiatras recebeu um golpe na alma.

Em seguida, um outro professor que estava no lado direito da torre olhou para o representante dos magistrados e disse: "Jamais tivemos a pretensão de ser mais importantes do que os juizes. Desejamos apenas ter condições para lapidar a inteligência dos nossos jovens, fazendo-os amar a arte de pensar e aprender a grandeza dos direitos e dos deveres humanos. Assim, esperamos que jamais se sentem num banco dos réus." O representante dos magistrados tremeu na torre.

Uma professora do lado esquerdo da torre, aparentemente tímida, encarou o representante das forças armadas e falou poeticamente: "Os professores do mundo todo nunca desejaram ser mais poderosos nem mais importantes do que os membros das forças armadas. Desejamos apenas ser importantes no coração das nossas crianças. Almejamos levá-las a compreender que cada ser humano não é mais um número na multidão, mas um ser insubstituível, um ator único no teatro da existência."

A professora fez uma pausa e completou: "Assim, eles se apaixonarão pela vida, e, quando estiverem no controle da sociedade, jamais farão guerras, sejam guerras físicas que retiram o sangue, sejam as comerciais que retiram o pão. Pois cremos que os fracos usam a força, mas os fortes usam o diálogo para resolver seus conflitos. Cremos ainda que a vida é obra-prima de Deus, um espetáculo que jamais deve ser interrompido pela violência humana."
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