Crescimento, decrescimento sustentável




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Comunicação Congresso Luanda

28-30 Novembro 2006
Jacinto Rodrigues

Professor Catedrático

Universidade do Porto




Jacinto Rodrigues

Crescimento, decrescimento sustentável

e desenvolvimento ecologicamente sustentável.

Introdução
É frequente considerar-se a questão ecológica como uma problemática dos países ricos. Mas é cada vez mais insustentável tal cegueira, pois esta questão é da maior pertinência e diz respeito à humanidade inteira. Há alguns dias, estiveram reunidos em África, no Quénia, na cidade de Nairobi, entre o dia 6 e 17 de Novembro de 2006, mais de 6000 delegados de quase todos os países do mundo que procederam a uma reflexão sobre a mudança climática no planeta. O vice-presidente do Quénia, Moody Awori, declarou que a mudança climática é uma das ameaças mais graves à qual a humanidade foi confrontada.

Há alguns dias, o ex-vice-presidente e ex-candidato à presidência dos E.U.A., Al Gore, apresentou um filme “Uma verdade que incomoda” em que são referenciadas eventuais catástrofes ecológicas, resultantes, nomeadamente, de perturbações climáticas, se não mudarmos, nos próximos 10 anos, o actual modelo de crescimento económico.

Também, há poucas semanas, o Relatório do economista do Banco Mundial, Nicolas Stern, alertava para uma crescente subida de temperatura no planeta, fazendo prever graves consequências se não se proceder a mudanças estruturais.

É dramático constatar-se que a África, embora seja o continente menos responsável por este modelo de civilização tecnológica imposto a partir do ocidente, é hoje a região mais vulnerável do planeta, como afirmaram os congressistas de Nairobi.

Os efeitos da mudança climática conjuntamente com as consequências negativas dos processos agro-industriais e urbanos implantados em África e o saque dos bens naturais, são hoje cada vez mais visíveis:

  1. O lago do Chade (um dos maiores do planeta) tem hoje 1/10 da superfície que tinha em 1963;

  2. As zonas húmidas do Quénia e as neves do Kilimanjaro, estão a desaparecer, prevendo-se perturbações climáticas na zona;

  3. As epidemias como a malária, cólera, desinteria, sida, etc. dizimam largos sectores da população;

  4. Várias catástrofes (inundações diluvianas ao mesmo tempo que desertificações incontroláveis) assolam o continente africano já ferido por guerras e deslocações massivas da população;

É neste contexto que Wansari Muto Maathay, Prémio Nobel da Paz em 2004, criou o movimento cinturão verde plantando, num gesto simbólico e concreto, mais de 30 milhões de árvores, graças, sobretudo, à abnegação e esforço das mulheres africanas.

Esta professora universitária do Quénia, cientista e militante ecológica, declarou que a defesa do meio ambiente é, hoje, o caminho para a Paz. Referiu, no III Forum Internacional de Comunicação, que “precisamos de elevar o nível da nossa consciência moral e ter uma perspectiva ética em relação aos recursos naturais...Os países ricos exploram os recursos naturais dos pobres e os poucos ricos dos países pobres fazem o mesmo. A nossa forma de lutar contra a pobreza é lutar contra esta forma de hiperconsumo, não apenas no mundo industrializado, mas também nos países em desenvolvimento onde lamentavelmente estamos copiando o mundo rico em detrimento do nosso povo. Se seguirmos por este caminho corremos um enorme risco...

É necessário tomar consciência do risco e da gravidade da situação, deixar de pensar apenas nas vantagens a curto prazo para promover políticas de longo prazo.”1

Nos últimos anos o discurso da filosofia, no ocidente, parece ser cada vez mais consensual no sentido de pretender ultrapassar o paradigma mecânico newtoniano, através dum pensamento ecologizado que faça ressaltar a achega sistémica e a abordagem da complexidade. Emerge assim uma nova coerência paradigmática, científica e experimental. Até mesmo na vida quotidiana este pensamento ecologizado ganha cada vez mais pertinência. O que está a mudar?

Tomando Descartes (1596-1650) como pensador paradigmático do mecanicismo, podemos, no Discurso do Método2, revelar a concepção do mundo que vem do séc. XVII até aos nossos dias.

Resumem-se em 5 pontos as linhas essenciais dessa concepção do mundo:

  1. O reducionismo, que pretende separar as partes do todo;

  2. A identidade analítica, que estabelece limites definidos;

  3. A não contradição e o terceiro excluído, que fundamentam o discurso binário da mecanicidade;

  4. O causalismo linear, que tende a explicar pelo passado e duma forma determinística o presente e o futuro, excluindo as forças endógenas no processo evolutivo;

  5. As etapas do progresso social, sempre evoluindo linear e automaticamente, como resultado do progresso técnico-científico assente na miragem de recursos naturais, sem limites.

Volvidos cerca de 350 anos sobre esta referência cartesiana, a obra de Edgar Morin3 publicada na década de 70/80 do séc. XX, revela o paradigma emergente em que vivemos opondo aos 5 pontos cartesianos os seguintes fundamentos do novo pensamento orgânico:

  1. A complexidade explicita um novo olhar onde não é possível compreender os fenómenos sem a relação do uno e do multiplex;

  2. O dialogismo ou a interacção simbiótica revela o fim das fronteiras, mostrando uma realidade dinâmica que não se compadece com o positivismo estático da anterior concepção;

  3. A contradição, a diferença e a biodiversidade constituem um elemento essencial para conhecer a realidade;

  4. O processo circular entre causa e efeito, sistemicamente interactivos, e que se opõe à explicação do determinismo linear;

  5. A crítica reflexiva trazendo o abandono das grandes narrativas metafísicas e exigindo uma pilotagem permanente da consciência sobre os processos fenomenológicos. Em vez de grandes explicações totais prefere-se uma fenomenologia processual e crítica, permanentemente auto-avaliada.


Estas novas preocupações estão ainda longe de serem consensuais.

Gregory Bateson,4um dos pioneiros do pensamento ecológico, refere que esta concepção se desenvolve com a interacção dos interlocutores numa constante e sistémica descodificação mútua entre emissor e receptor. Como o pensamento ecológico é dinâmico vai-se metamorfoseando com o impulso endógeno e a ressonância externa. Não é uma revelação caída do céu. Resulta duma simbiose entre as pessoas e da interacção dessas pessoas com o meio envolvente. Assim, este novo processo morfogenético faz-se numa problemática de complexidade sistémica na medida em que os saberes e competências se vão adaptando e mudando nos processos civilizacionais. A reforma do pensamento5 vai-se assim revelando face à mudança da sociedade e das instituições, ao mesmo tempo que intervém sobre elas. Daqui resulta a criação sucessiva de coerências, ou seja, de formas paradigmáticas. Porém, esses paradigmas voltarão a metamorfosear-se sem contudo desaparecerem as formas de consciência e pilotagem dessas novas metamorfoses. Deste modo é possível um trabalho de reflexão e organização sobre o próprio pensamento. Esta atitude epistemológica desenvolve metodologias e horizontes do saber que permitem uma inteligência colectiva, inteligência simbiótica que, como nos diz Pierre Levy, mutualiza conhecimentos. Refere ainda Levy que a noção de ecosistema é particularmente interessante porque permite pensar, simultaneamente, na interdependência do mesmo espaço unitário, a diversidade, a evolução e a mudança. “Torna-se assim possível seguir integralmente os ciclos de transformação no universo simbólico (cultural) em vez de procurarmos na finalidade imediata do circuito disciplinar.”6

Dito de outro modo, é estabelecer uma forma interactiva do pensar que articule o diacrónico e o sincrónico, o universal e o local, o aqui e agora na metamorfose sequencial dos processos evolutivos.

Esta rede da inteligênca colectiva religa abstracto e concreto, permitindo um olhar macroscópico tal como desenvolveu Joel Rosnay7

Estas são as novas premissas, que dão maior coerência ao paradigma emergente em que vivemos. É preciso, no entanto, desenvolver esta nova maneira de pensar com o religar conhecimentos8, tal como tem vindo a ser propalado pelos filósofos da complexidade e da sistémica, Edgar Morin9, Basarab10, Rosnay e outros. É ainda de referir a necessidade de constituir uma “nova visão do mundo” como assinala Basarab Nicolescu.11

Basarab mostra-nos como a nova visão do mundo terá que se constituir a partir da intersecção de diferentes domínios do saber. Por isso, diz-nos que a disciplinariedade, a pluridisciplinariedade, a interdisciplinariedade e a transdisciplinariedade não são antagónicas: constituem “as quatro flechas dum só e mesmo arco do conhecimento”12.

Este novo paradigma abre-se para o descontínuo da física quântica, mostrando a existência de vários níveis da realidade que funcionam com lógicas diversas. Tal como Bachelard, Habermas e Lupasco admitiram, as ciências ético-normativas, o humanismo estético-expressivo e o pensamento técnico-operativo, possuem lógicas diversas que caracterizam modos diferentes da apreensão da realidade: compreender, descrever e explicar explicitam registos diferenciados sobre fenómenos e vivências da realidade complexa.

Humberto Maturama e Francisco Varela13, no seguimento do trabalho de Prigorgine, mostram-nos como os seres vivos se caracterizam pelo facto de se auto-construirem constantemente. Este facto, a que os dois biólogos chilenos chamaram “autopoïese”, revela-nos que nos sistemas vivos existe “uma rede fechada no plano da organização. No entanto, em relação ao exterior a rede é aberta, assegurando a circulação da matéria e energia necessárias à manutenção da sua própria organização e à regeneração contínua da sua estrutura.”14

Esta abordagem afasta-nos da concepção dum universo totalmente previsível. É uma abertura para a incerteza mas também para a possibilidade duma construção criativa.

Esta forma de pensamento foi concomitante com o desenvolvimento da ecologia. A ecologia, em constante metamorfose, tem vindo a constituir-se como uma teoria científica explicitada do seguinte modo:

a) É uma abordagem sistémica e transdisciplinar;

b) É uma fenomenologia da complexidade;

c) É uma fundamentação dos ecosistemas, baseada na circularidade dos metabolismos e não no determinismo linear, típico das máquinas;

Foi Vernadsky15, com o livro sobre a biosfera - tese que defendeu em França durante os anos 20 - quem conceptualizou a vida do planeta como uma totalidade. Esta concepção abriu a porta para a teoria dos ecosistemas, considerando assim a vida, como um conjunto indivisível – a biocenose – que se insere (em condições específicas) na matéria bio-inerte, o biótopo.

O desenvolvimento da ecologia foi um longo processo. Desde o seu aparecimento formal, atribuído a Haeckel (a 1ª pessoa a utilizar o termo ecologia) desenvolveram-se muitas contribuições para esta teoria científica. A contribuição de Tansley permitiu a melhor compreensão do estudo dos ecosistemas marinhos e lacustres. Os ciclos bioquímicos da ecologia foram objecto de várias contribuições como Odum e outros. Por outro lado, a teoria dos sistemas de Von Bertalanfy, Neumann e Gregory Bateson alargou as perspectivas metodológicas à investigação ecológica.

Abel Wolman foi um dos primeiros cientistas a trabalhar sobre a sistémica dos fluxos urbanos e nos territórios em geral. Muitos são hoje os especialistas desta temática como por exemplo Giorgio Nebia, Virginio Bettini16 e outros.

Por outro lado, as investigações sobre os ecosistemas fechados como a reconstituição artificial de ecosistemas que se automantêm, levaram às experiências de Clair Folsome que, nos anos 60, realizou as ecosferas, miniaturas simplificadas da biosfera. Trata-se de um pequeno aquário (uma bola de vidro com água, um pouco de terra e ar) onde uma pequena alga serve de alimento a camarões minúsculos (crill) cujos dejectos servem de alimento à alga e que, por sua vez, são decompostos por pequenas bactérias no ciclo geral de produtores, consumidores e decompositores.

As modelizações destes ecosistemas fechados permitiram muitos estudos aos cientistas russos e americanos, empenhados nas pesquisas sobre naves espaciais.

A experiência mais conhecida foi a da Biosfera 2. Oito “bionautas” viveram num mundo miniatura (uma estufa gigante com 1,2 hectares e com biomas miniaturizados) onde bactérias, vírus, fungos, plantas e animais viviam interligados em ecosistemas complexos.

Isto permitiu o estudo dos processos retroactivos entre as várias comunidades e o biótopo ali preparado.

A experiência da Biosfera 2, tendo embora falhas, permite ainda hoje o estudo significativo destes modelos e simulações úteis ao conhecimento da natureza e do ecosistema, dos fluxos energéticos e do metabolismo circular, muito embora não se deva confundir tais experiências laboratoriais com a realidade dos ecosistemas abertos.

Foram contudo estas experiências que contribuíram para os trabalhos de John Todd que desenvolveu processos de bioregeneração dos ecosistemas.

John Todd, a partir das experiências iniciadas no New Alchimist Institut, criou conjuntos de ecosistemas para a biodepuração de águas residuais. Estas e outras experiências, resultantes da observação de processos da natureza e do conhecimento botânico de certas espécies filtrantes, levaram à realização de inúmeros modelos. Desde as biotecnologias da chamada “bioremediation” até aos jardins filtrantes e aos jardins úteis e agradáveis, sucedem-se uma longa lista de experiências que têm permitido o tratamento biológico das águas usadas, de uma forma cada vez mais perfeita (permitindo a sua revitalização em água potável) e em contextos paisagísticos com preocupações estéticas.

Trata-se de uma visão cada vez mais clara da problemática ecológica e da especificidade de um funcionamento vivo dos ecosistemas17.


  1. O crescimento económico

A noção de crescimento económico insere-se numa concepção epistemológica assente no antigo paradigma cartesiano.

Socialmente, a mega-máquina urbana reproduz duma forma alargada a força de trabalho, impondo as relações antagónicas entre a privatização dos bens de produção, nas mãos de um grupo cada vez mais reduzido, enquanto aumenta o número de trabalhadores despossuídos dos meios de produção.

Tecnicamente, a produção baseada na energia fóssil deste mundo-máquina funciona segundo um metabolismo linear que vai esgotando os bens naturais, transformando-os em lixos.

Esse funcionamento é predador dos bens da biosfera ao mesmo tempo que segrega a exclusão social, como referem as obras de René Passet18, Jean Marie Pelt19, Pierre Rabhi20, Nicholas Hulot,21 Majid Rahmema22 e outros.
Lewis Mumford 23 analisou a evolução das civilizações e, em particular, o processo de urbanização. Nestas investigações, Mumford revela como os complexos tecno-civilizacionais têm uma morfogénese complexa e são a matriz da mudança histórica das sociedades. Caracterizam-se por uma interacção entre energia, meios técnicos, relações sociais de produção e formas culturais e ideológicas que, num todo mais ou menos coerente ainda que contraditório, formam etapas dinâmicas no processo histórico. São 3 as grandes etapas:

1ª - Civilização Eotécnica – utilizam as forças naturais em tecnologias artesanais e em economia colectora abrindo-se à agro-pecuária, sem grandes pertubações na biosfera.

2ª - Civilização Paleotécnica - desenvolve-se a acumulação primitiva do capital: na europa é destruída a cultura camponesa iniciando-se a proletarização. Realiza-se a dominação dos povos colonizados através do saque. A partir do séc. XVII e até ao séc. XX esta etapa caracteriza-se pelo uso progressivo da máquina a vapor, assente na energia do carvão transformando, através da mercantilização, o valor de uso em valor de troca. A agressão à biosfera faz-se essencialmente pela destruição da floresta e da biodiversidade.

3ª - Civilização Neotécnica – através do processo industrial faz-se o uso progressivo dos motores de combustão aos motores eléctricos, sendo o factor petróleo dominante. Neste processo, para além das exclusões sociais, aumentam as agressões à biosfera através do esgotamento de matérias-primas naturais e da contaminação dos ecosistemas hídricos, biológicos e geológicos. Generaliza-se a agro-indústria, a indústria militar e a farmoquímica.

Lewis Mumford estudou a evolução das cidades neste contexto mostrando, duma forma paradigmática, a passagem da aldeia à cidade carbonífera e mais tarde à cidade-shoping. Este autor, ao analisar criticamente as referidas etapas, encara este modelo ocidental como um agravamento progressivo da sociedade e da biosfera. Propõe, como alternativa, uma mudança baseada na ecotécnica.

O processo de mundialização, que se consolida a partir do séc. XVI até aos nossos dias, sofreu transformações mas não foram estruturais, ao nível do poder político. Ocorreram adaptações do modelo capitalista às inovações introduzidas pelas diversas formas de sistemas governativos dentro do mesmo parâmetro de exploração do homem sobre o homem e do antagonismo crescente entre a tecnosfera e a biosfera. Sobre esta última etapa do capitalismo liberal, Serge Latouche24 analisou-a do seguinte modo:

1.1. Uma desigualdade crescente entre o norte e o sul, entre o centro e as periferias, mesmo no interior de cada país;

1.2. A continuação da pilhagem e a reinvenção da servidão e escravatura mais o trabalho infantil, constituem realidades presentes nos países neo-coloniais armadilhados pela dívida externa e em consequência de governos que servem, muitas vezes, a lógica do imperialismo;

1.3. A destruição dos ecosistemas e as poluições globais constituem o estado permanente do esgotamento e contaminação a que o actual modelo urbano-industrial sujeita a biosfera;

1.4. O fim do estado providência deu lugar à destruição do serviço público;

1.5. A mercantilização ocupou todas as esferas da vida; a troca especulativa hegemonizou o valor de uso;

1.6. O estado-nação desapareceu para dar lugar aos novos patrões do mundo – as multinacionais.

Dentro do “paradigma” do crescimento, a economia reduziu-se a uma mera disciplina analítica. A biosfera, como ecosistema global, está ausente dessa disciplina. A integração da economia na bio ou ecoeconomia só muito recentemente foi considerada pelos economistas. O conceito de bioeconomia aparece com Nicholas Georgesku Röegen25 (1906-1994) que iniciou esta problemática teórica entre a relação da economia com a natureza. Actualmente, são muitos os economistas nesta linha da ecoeconomia. Um dos mais conhecidos é Renné Passet,26 que, com os seus livros “L’economique et le vivant” e “A ilusão neo-liberal”, contribuiu para alargar o olhar não reducionista da economia.

A teoria dos ecosistemas permitiu perceber os metabolismos circulares da natureza e entender também os fluxos económicos integrados no ecosistema em geral - biosfera. Por outro lado Serge Latouche desmistificou a “construção duma economia imaginada” ou seja “a invenção semântica”27 da economia clássica e neoclássica. Com efeito, essa economia tem como pressuposto ideológico uma percepção especificamente ligada à concepção da mundialização. Também Majid Rahnema28 desmistifica o conceito de “pobreza”. Distingue a simplicidade de vida da pobreza fabricada socialmente para impor um “crescimento” gerador de miséria social em nome de miragens quantitativas do PIB. Estas miragens resultam da pior das colonizações: a colonização do imaginário. Majid Rahnema demonstra mesmo, com numerosos exemplos, que só a simplicidade permite uma riqueza de convívio, fraternidade e qualidade de vida. A “simplicidade voluntária” é apanágio dessa cultura de bem estar e de solidariedade desde que fique salvaguardada a resposta às necessidades básicas.

Foi com o triunfo duma física social e duma economização mecanicista da política e duma anti-ética baseada no egoísmo e na predação – darwinismo social - que se consolidou o conceito de crescimento económico, dominante no ocidente. Mas, paradoxalmente, foi também no ocidente que se gerou a crítica ao positivismo mecanicista. É cada vez mais crescente a defesa das relações simbióticas dos ecosistemas e começa-se a querer substituir a concepção “relojoeira do universo”, tal como refere René Passet.29

Sobre o ponto de vista global da eco-economia, o que se passou?

a) A utilização das energias fósseis para a construção duma tecnosfera crescente (cidades/ indústrias/ construções em geral/ pavimentação de estradas, caminhos de ferro, etc.) delapidou os bens naturais da biosfera (água/ metais/ petróleo/ árvores/ animais/...).

b) Uma parte substancial desse capital natural foi transformado em estruturas mecânicas artificiais que constituem a tecnosfera actual, abrindo um fosso crescente entre o homem e a natureza.

c) Por outro lado é cada vez mais problemático dar resposta a uma população em crescimento exponencial, devido ao progressivo esgotamento dos bens naturais e sobretudo porque os bens de consumo disponíveis são acaparados por uma minoria, enquanto que uma larga maioria é obrigada a viver com uma escassa parte do “bolo”.

Os trabalhos de Paul Hawken, Amory Lovins e Hunter Lovins30 sobre o capitalismo natural e ainda as investigações de Andrée Mathiew31 e de Mc Donought32 e Braungarten33, no domínio da construção/ território e design, mostram-nos que o desgaste dos bens naturais – “recursos” – tem esbanjado a reserva-herança do fundo natural criada ao longo de biliões de anos. Também se produzem mais lixos contaminantes do que aqueles que a natureza pode regenerar. O problema em termos eco-económicos é que os serviços eco-sistémicos da regeneração planetária que a natureza possui (florestas, terras húmidas, oceanos, estuários, etc.) que são biofiltros recicladores (autênticos orgãos desta fisiologia planetária) encontram-se obstruídos não dando resposta às necessidades exigidas pela regeneração do capital natural.

Como já dissemos, águas usadas e lixos entopem a biodepuração natural que foi agredida e mutilada pela intervenção antrópica da tecnosfera baseada em energias fósseis e em materiais poluentes. A questão central é:

a) Ecodesenvolver e bioregenerar os ecosistemas de bioregeneração que a natureza possui (reflorestar, melhorar as terras húmidas, renaturalizarcursos de água, etc.);

b) Transformar, no mais breve prazo possível, a tecnosfera e a tecnocivilização em ecotecnosfera e em ecotecnologia. Este foi o sentido das obras dos notáveis investigadores e pensadores desde o pioneiro Patrick Geddes,34 Lewis Mumford,35 Jacques Ellul,36 Ivan Illich,37 a Schumacher38. Uma nova ecocivilização terá de ser construída com essa atitude positiva face à GAIA – a bioregeneração.

Muitos dos ambientalistas ainda não perceberam esta atitude positiva na defesa da bioregeneração dos serviços ecosistémicos, só possível com a mudança desta tecnocivilização fóssil para uma ecocivilização. Têm muitas vezes uma atitude defensiva e malthusiana, assentando mais as suas práticas interventivas na bioremediação. Contudo, para nós, a bioremediação só tem sentido quando os “lixos” deixarem de ser lixos para se tornarem em nutrientes salubres, isto é, recicláveis e sem deixarem sequelas de contaminação.

Como veremos a seguir, o decrescimento sustentável só tem sentido como meio táctico de fazer retroceder a actual tecnosfera para dar lugar a uma eco-tecnosfera, acabando com a utilização das energias fósseis e dos materiais contaminantes e impedindo as injustiças flagrantes criadas pelo fosso entre as sociedades de esbanjamento e dominação sobre as sociedades dominadas e espoliadas.

Bioregenerar os serviços ecosistémicos é reflorestar, criar jardins filtrantes e desenvolver uma agro-ecologia criando metabolismos circulares de maneira a que todos os nutrientes retomem o ciclo natural em que nada se perde e tudo se transforma. A ecocivilização não pode ter “lixos”. Os “lixos” não serão mais “lixos” mas sim nutrientes duma GAIA rejuvenescida.

Neste contexto bio-regenerativo, o problema demográfico não é o pesadelo que os neo-malthusianos nos querem fazer crer, mas sim a mudança estrutural da civilização que se tem de fazer antes de tudo. A regulação equilibrada entre população e disponibilidade da biosfera regenerada faz-se através de processos educativos e culturais, tendo em vista uma procriação consciente.

Concluindo, o capitalismo industrial com a sua tecnosfera está a destruir o capitalismo natural biosférico. Mantendo o sobreconsumo actual, a sociedade consumista endividou-se face ao capital natural, de que se tem servido, duma forma esbanjadora. Assim, o que chamamos “recursos” (petróleo, água potável, minérios, etc.) é uma renda que a humanidade recebeu como herança de 3,8 biliões de anos de vida do planeta. Esta renda, esgotável, está a ser delapidada. Tornou-se hoje, numa dívida que as gerações passadas contrairam. E, se não se mudarem os pressupostos dessa sociedade de colonialismo biosférico e de imperialismo sócioesférico, as gerações futuras serão expostas à penúria ou o que é mais grave ainda, à catástrofe e ao ecocídeo que as gerações de hoje ajudaram a multiplicar. O compromisso intergeracional rompe-se, deste modo duma forma definitiva.

O investimento intelectual ou seja, o capital “imaterial” na época informacional, ganha hoje, uma importância decisiva. Esta noosfera consciencializa e revela as contradições entre o capital natural – biosfera- e o capital material – tecnosfera. E por sua vez é também maior a consciência entre as contradições e desigualdades entre as classes sociais – sociosfera.

Tudo isto afecta de uma maneira crescente a gestão saudável e harmónica entre o homem, a natureza e a técnica. Todavia, essa noosfera permitiu a noção de bem comum, ou seja do interesse público, sobretudo quando nos referimos à crise ecológica em que nos encontramos. Esta crise ecológica planetária gera amplas plataformas unitárias na defesa de um bem comum pela sobrevivência da humanidade que corre graves riscos n actual modelo civilizacional. Assim, começa a ser aceite, transversalmente, como imprescindível, a necessidade da transformação da tecnologia em ecotecnologia, da megamáquina cidade em ecourbanismo e da construção contaminante em ecoconstrução ecologicamente sustentável. O estudo dos metabolismos e a compreensão da pegada ecológica, revelam insustentáveis situações de desigualdade, injustiça e exclusão social.

Porém, não tenhamos ilusões: esta causa comum da sobrevivência da humanidade sofre o olhar interessado e interesseiro daqueles que “ganham” com as desigualdades e injustiças, embora eles ganhem só a curto prazo, no actual sistema de crescimento. Não assistiremos contudo a nenhuma implosão do sistema enquanto essa minoria continuar a ter a capacidade de reproduzir o “modelo” civilizacional e a maioria não for capaz de implementar, progressivamente, um outro mundo possível.

Nesta óptica nasceu o projecto alteromundialista em que é possível assistirmos a várias lógicas diferenciadas de reformistas e radicais que se empenham na mudança da tecnosfera em ecotecnosfera tentando, independentemente dos contextos, implementar experiências exemplares que concorram para revelar um outro mundo possível desde já. Ao mesmo tempo, na socioesfera os direitos sociais e a regulamentação em prol da causa comum planetária tenderá, no futuro, a tornar ilegal todas as práticas egoístas e suicidárias que levam ao ecocídio da espécie humana. Para que se possam isolar essas práticas egoístas e ecosuicidárias vai ser necessário o aparecimento de plataformas reivindicativas, redes de activistas ecológicos e as referidas múltiplas experiências exemplares que possam permitir a visualização concretizada de um outro modelo de civilização possível. Reduzir, reciclar, renovar, reutilizar e repensar tenderão a ser acompanhados pela legislação. Por exemplo, os acordos de Kioto e os movimentos gerados a partir desta causa comum, poderão ser o nascimento de uma tentativa de participação em novos acordos para a regulação, visando uma harmonização entre a tecnosfera e a biosfera. Mas todos têm de estar comprometidos e não podem estar ausentes, como é o caso actual dos Estados Unidos da América que são responsavéis por 1/3 das emissões de gases com incidência nas mudanças climáticas.
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