Programa de uma filosofia da repetição segundo Kierkegaard, Nietzsche e Péguy 13




descargar 1.41 Mb.
títuloPrograma de uma filosofia da repetição segundo Kierkegaard, Nietzsche e Péguy 13
página4/99
fecha de publicación20.02.2016
tamaño1.41 Mb.
tipoPrograma
b.se-todo.com > Derecho > Programa
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   99

Repetição, lei da natureza e lei moral


O erro "estóico" é esperar a repetição da lei da natureza. O sábio deve converter-se em virtuoso; o sonho de encontrar uma lei que torne possível a repetição passa para o lado da lei moral. Sempre uma tarefa a ser recomeçada, uma fidelidade a ser retomada numa vida cotidiana que se confunde com a reafirmação do Dever. Büchner faz Danton dizer: "É muito fastidioso vestir, inicialmente, uma camisa, depois, uma calça, e, à noite, ir para o leito e dele sair pela manhã, e colocar sempre um pé diante do outro. Há muito pouca esperança de que isso venha a mudar. É muito triste que milhões de pessoas tenham feito assim, que outros milhões venham a fazê-lo depois de nós e que, ainda por cima, sejamos constituídos por duas metades que fazem, ambas, a mesma coisa, de modo que tudo se produza duas vezes". Mas de que serviria a lei moral se ela não santificasse a reiteração e, sobretudo, se ela não a tornasse possível, dando-nos um poder legislativo, do qual nos exclui a lei da natureza? Acontece que o moralista apresenta as categorias do Bem e do Mal sob as seguintes espécies: toda vez que tentamos repetir segundo a natureza, como seres da natureza (repetição de um prazer, de um passado, de uma paixão), lançamo-nos numa tentativa demoníaco, desde já maldita, que só tem como saída o desespero ou o tédio. O Bem, ao contrário, nos daria a possibilidade da repetição, do sucesso da repetição e da espiritualidade da repetição, porque dependeria de uma lei que já não seria a da natureza, mas a do dever, da qual só seríamos sujeitos se fossemos legisladores, como seres morais. O que Kant chama de a mais alta prova, o que é senão a prova de pensamento que deve determinar o que pode ser reproduzido de direito, isto é, o que pode ser repetido sem contradição sob a forma da lei moral? O homem do dever inventou uma "prova" da repetição, determinou o que podia ser repetido do ponto de vista do direito. Ele estima, pois, ter vencido o demoníaco e o fastidioso, ao mesmo tempo. Como um eco das preocupações de Danton, como uma resposta a essas preocupações, não há moralismo até neste surpreendente suporte para meias que Kant confeccionou para si, neste aparelho de repetição que seus biógrafos descrevem com tanta precisão, assim como na fixidez de seus passeios cotidianos (moralismo, no sentido em que a negligência na toalete e a falta de exercício fazem parte das condutas cuja máxima não pode, sem contradição, ser pensada como lei universal, nem ser, portanto, objeto de uma repetição de direito)?

Mas é esta a ambigüidade da consciência: ela só pode pensar-se, colocando a lei moral como exterior, superior, indiferente à lei da natureza, mas ela só pode pensar a aplicação da lei moral, restaurando nela própria a imagem e o modelo da lei da natureza. Deste modo, a lei moral, em vez de nos dar uma verdadeira repetição, deixa-nos ainda na generalidade. Desta vez, a generalidade já não é a da natureza, mas a do hábito como segunda natureza. É inútil invocar a existência de hábitos imorais, de maus hábitos; o que é essencialmente moral, o que em a forma do bem, é a forma do hábito ou, como dizia Bergson, o hábito de adquirir hábitos (o todo da obrigação). Ora, neste todo ou nesta generalidade do hábito reencontramos as duas grandes ordens: a ordem das semelhanças, na conformidade variável dos elementos da ação em relação a um modelo suposto, enquanto o hábito não foi adquirido; a ordem das equivalências, com a igualdade de elementos da ação em situações diversas, desde que o hábito tenha sido adquirido. De tal modo que o hábito nunca forma uma verdadeira repetição: ora é a ação que muda e se aperfeiçoa, permanecendo constante uma intenção; ora a ação permanece igual em meio a intenções e contextos diferentes. Ainda aí, se a repetição é possível, ela só aparece entre duas generalidades, sob estas duas generalidades, a de aperfeiçoamento e a de integração, pronta para revertê-las, dando testemunho de outra potência.

Se a repetição é possível, ela o é tanto contra a lei moral quanto contra a lei da natureza. São conhecidas duas maneiras de reverter a lei imoral: seja por uma ascensão aos princípios, contestando-se, então, a ordem da lei como secundária, derivada, emprestada, "geral", denunciando-se na lei um princípio de segunda mão que desvia uma força ou usurpa uma potência originais; seja, ao contrário, e neste caso a lei é ainda melhor revertida, por uma descida às conseqüências e uma submissão minuciosa demais, de modo que, à força de esposar a lei, uma alma falsamente submissa chega a alterá-la e a gozar os prazeres que se julgava proibidos. Vemos bem isto em todas as demonstrações por absurdo, nas abstenções por excesso de zelo, mas também em alguns comportamentos masoquistas de escárnio por submissão. A primeira maneira de reverter a lei é irônica, a ironia aí aparecendo como arte dos princípios, da ascensão aos princípios e da reversão dos princípios. A segunda é o humor, que é uma arte das conseqüências e das descidas, das suspensões e das quedas. Significa isso que a repetição surge tanto nesta suspensão quanto nesta ascensão, como se a existência se retomasse e se "reiterasse" em si mesma desde que já não seja coagida pelas leis? A repetição pertence ao humor e à ironia, sendo por natureza transgressão, exceção, e manifestando sempre uma singularidade contra os particulares submetidos à lei, um universal contra as generalidades que estabelecem a lei.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   99

similar:

Programa de uma filosofia da repetição segundo Kierkegaard, Nietzsche e Péguy 13 iconPrograma o esquema proposto é uma tentativa de sistematização, podendo...

Programa de uma filosofia da repetição segundo Kierkegaard, Nietzsche e Péguy 13 iconNão há talvez outra matéria em que a qualidade do professor importe...

Programa de uma filosofia da repetição segundo Kierkegaard, Nietzsche e Péguy 13 iconPrograma de formación segundo añO

Programa de uma filosofia da repetição segundo Kierkegaard, Nietzsche e Péguy 13 iconPrograma de Biología II segundo semestre

Programa de uma filosofia da repetição segundo Kierkegaard, Nietzsche e Péguy 13 iconPrograma general de filosofíA 11°

Programa de uma filosofia da repetição segundo Kierkegaard, Nietzsche e Péguy 13 iconPrograma general de filosofíA 9°

Programa de uma filosofia da repetição segundo Kierkegaard, Nietzsche e Péguy 13 icon1. Programa: Filosofía de la Educación I / 3

Programa de uma filosofia da repetição segundo Kierkegaard, Nietzsche e Péguy 13 iconPrograma del curso de filosofíA

Programa de uma filosofia da repetição segundo Kierkegaard, Nietzsche e Péguy 13 iconPrograma de Reconocimiento Institucional de Equipos de Investigación...

Programa de uma filosofia da repetição segundo Kierkegaard, Nietzsche e Péguy 13 iconRaus mit Nietzsche! En elaboración 2015-11-05 9,41h




Todos los derechos reservados. Copyright © 2019
contactos
b.se-todo.com