Programa de uma filosofia da repetição segundo Kierkegaard, Nietzsche e Péguy 13




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Programa de uma filosofia da repetição segundo Kierkegaard, Nietzsche e Péguy


Há uma força comum a Kierkegaard e a Nietzsche. (Seria preciso aí incluir Péguy para se formar o tríptico do pastor, do anticristo e do católico. Cada um dos três, a sua maneira, faz da repetição não só uma potência própria da linguagem e do pensamento, um pathos e uma patologia superior, mas também a categoria fundamental da Filosofia do futuro. A cada um deles corresponde um Testamento e também um Teatro, uma concepção de teatro e um personagem eminente nesse teatro, como herói da repetição: Jó-Abraão, Dioniso-Zaratustra, Joana d'Arc-Clio.) O que os separa é considerável, manifesto, bem conhecido. Mas nada apagará este prodigioso encontro em torno de um pensamento da repetição: eles opõem a repetição a todas as formas da generalidade. E eles não tomam a palavra "repetição" de maneira metafórica; ao contrário, têm uma certa maneira de tomá-la ao pé da letra e de introduzi-la no estilo. Pode-se, deve-se, inicialmente, enumerar as principais proposições que marcam a coincidência entre eles:

1ª Fazer da própria repetição algo novo; ligá-la a uma prova, a uma seleção, a uma prova seletiva; colocá-la como objeto supremo da vontade e da liberdade. Kierkegaard precisa: não tirar da repetição algo novo, não lhe transvasar algo novo, pois só a contemplação, o espírito que contempla de fora, "transvasa". Trata-se, ao contrário, de agir, de fazer da repetição como tal uma novidade, isto é, uma liberdade e uma tarefa da liberdade. E Nietzsche: liberar a vontade de tudo o que a encadeia, fazendo da repetição o próprio objeto do querer. Sem dúvida, a repetição é já o que encadeia; mas, se se morre por causa da repetição, é também ela que salva e cura, e cura, primeiramente, da outra repetição. Há, portanto, na repetição, ao mesmo tempo, todo o jogo místico da perdição e da salvação, todo o jogo teatral da morte e da vida, todo o jogo positivo da doença e da saúde (cf. Zaratustra doente e Zaratustra convalescente, graças a uma mesma potência, que é a da repetição no eterno retorno).

2ª Assim sendo, opor a repetição às leis da Natureza. Kierkegaard declara que de modo algum ele fala da repetição na natureza, dos ciclos ou das estações, das trocas e das igualdades. Ainda mais: se a repetição concerne ao mais interior da vontade, é porque tudo muda em torno da vontade, em conformidade com a lei da natureza. Segundo a lei da natureza, a repetição é impossível. Eis por que Kierkegaard condena, sob o nome de repetição estética, todo esforço para obter a repetição das leis da natureza, não só como o epicurista, mas mesmo como o estóico que se identifica com o princípio que legisla. Talvez se diga que a situação não é tão clara em Nietzsche. Todavia, as declarações de Nietzsche são formais. Se ele descobre a repetição na Physis, é porque, na própria Physis, ele descobre algo superior ao reino das leis: uma vontade querendo a si própria através de todas as mudanças, uma potência contra a lei, um interior da terra que se opõe às leis da superfície. Nietzsche opõe "sua" hipótese à hipótese cíclica. Ele concebe a repetição no eterno retorno como Ser, mas opõe este ser a toda forma legal, tanto ao ser-semelhante quanto ao ser-igual. E como poderia o pensador, que levou mais longe a crítica da noção de lei, reintroduzir o eterno retorno como lei da natureza? Em que se fundamentaria Nietzsche, conhecedor dos gregos, ao estimar seu próprio pensamento como prodigioso e novo, se ele se contentasse em formular esta insipidez natural, esta generalidade da natureza, tão conhecida pelos Antigos? Por duas vezes, Zaratustra corrige as más interpretações do eterno retorno: com cólera, contra seu demônio ("Espírito de gravidade... não simplifiques demasiado as coisas!"); com doçura, contra seus animais ("Ò travessos, ó repetidores... já fizestes disto um refrão! "). O refrão é o eterno retorno como ciclo ou circulação, como ser-semelhante e como ser-igual, em suma, como certeza animal natural e como lei sensível da própria natureza.

3ª Opor a repetição à lei moral, fazer dela a suspensão da Ética, o pensamento do para além do bem e do mal. A repetição aparece como o logos do solitário, do singular, o logos do "pensador privado". Em Kierkegaard e em Nietzsche desenvolve-se a oposição entre o pensador privado, o pensador-cometa, portador da repetição, e o professor público, doutor da lei, cujo discurso de segunda mão procede por mediação e tem como fonte moralizante a generalidade dos conceitos (cf. Kierkegaard contra Hegel, Nietzsche contra Kant e Hegel, e, deste ponto de vista, Péguy contra a Sorbonne). Jó é a contestação infinita e Abraão é a resignação infinita, mas os dois são uma mesma coisa. Jó põe em questão a lei, de maneira irônica, recusa todas as explicações de segunda mão, destitui o geral para atingir o mais singular como princípio, como universal. Abraão se submete humoristicamente à lei, mas, nesta submissão, reencontra, precisamente, a singularidade do filho único que a lei ordenava sacrificar. Tal como a entende Kierkegaard, a repetição é o correlato transcendente, comum à contestação e à resignação como intenções psíquicas. (E os dois aspectos podem ser reencontrados no desdobramento de Péguy: Joana d'Arc e Gervaise.) No fulgurante ateísmo de Nietzsche, o ódio à lei e o amor jati, a agressividade e o consentimento são a dupla face de Zaratustra, tirada da Bíblia e contra ela voltada. De uma certa maneira ainda, vê-se Zaratustra rivalizar com Kant, com a prova da repetição na lei moral. O eterno retorno diz: O que quiseres, queira-o de tal maneira que também queiras seu eterno retorno. Há aí um "formalismo" que reverte Kant em seu próprio terreno, uma prova que vai mais longe, pois, em vez de relacionar a repetição com uma suposta lei moral, parece fazer da própria repetição a única forma de uma lei para além da moral. Na realidade, porém, a coisa é mais complicada. A forma da repetição no eterno retorno é a forma brutal do imediato, do universal e do singular reunidos, que destrona toda lei geral, dissolve as mediações, faz perecer os particulares submetidos à lei. Há um além e um aquém da lei que se unem no eterno retorno, como a ironia e o humor negro de Zaratustra.

4ª Opor a repetição não só às generalidades do hábito mas às particularidades da memória. Com efeito, talvez o hábito chegue a "tirar" algo novo de uma repetição contemplada de fora. No hábito, só agimos com a condição de que haja em nós um pequeno Eu que contempla: é ele que extrai o novo, isto é, o geral, da pseudo-repetição dos casos particulares. A memória talvez reencontre os particulares dissolvidos na generalidade. Pouco importam estes movimentos psicológicos; em Nietzsche e Kierkegaard, eles se apagam diante da repetição considerada como a dupla condenação do hábito e da memória. É neste sentido que a repetição é o pensamento do futuro: ela se opõe à antiga categoria da reminiscência e à moderna categoria do habitus. É na repetição, é pela repetição que o Esquecimento se torna uma potência positiva e o inconsciente, um inconsciente superior positivo (por exemplo, o esquecimento, como força, faz parte integrante da experiência vivida do eterno retorno). Tudo se resume à potência. Quando Kierkegaard fala da repetição como segunda potência da consciência, "segunda" não significa uma segunda vez, mas o infinito que se diz de uma só vez, a eternidade que se diz de um instante, o inconsciente que se diz da consciência, a potência "n". E quando Nietzsche apresenta o eterno retorno como a expressão imediata da vontade de potência, de modo algum vontade de potência significa "querer a potência", mas, ao contrário: seja o que se queira, elevar o que se quer à "enésima" potência, isto é, extrair sua forma superior graças à operação seletiva do pensamento no eterno retorno, graças à singularidade da repetição no próprio eterno retorno. Forma superior de tudo o que é, eis a identidade imediata do eterno retorno e do super-homem3.
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