Programa de uma filosofia da repetição segundo Kierkegaard, Nietzsche e Péguy 13




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títuloPrograma de uma filosofia da repetição segundo Kierkegaard, Nietzsche e Péguy 13
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Repetição e generalidade: terceira distinção, do ponto de vista do conceito


Assim, repetição e generalidade opõem-se do ponto de vista da conduta e do ponto de vista da lei. Mas é necessário precisar uma terceira oposição, agora do ponto de vista do conceito ou da representação. Coloquemos uma questão quid juris: de direito, o conceito pode ser o de uma coisa particular existente, tendo, então, uma compreensão infinita. A compreensão infinita é o correlato de uma extensão = 1. Importa muito que este infinito da compreensão seja posto como atual, não como virtual ou simplesmente indefinido. É sob esta condição que os predicados, como momentos do conceito, se conservam e têm um efeito no sujeito a que são atribuídos. Assim, a compreensão infinita torna possível a rememoração e a recognição, a memória e a consciência de si (mesmo quando- estás duas faculdades não são infinitas). Chama-se representação a relação entre o conceito e seu objeto, tal como se encontra efetuada nesta memória e nesta consciência de si. Pode-se tirar daí os princípios de um leibnizianismo vulgarizado. De acordo com um princípio de diferença, toda determinação é conceitual em última instância ou faz atualmente parte da compreensão de um conceito. De acordo com um princípio de razão suficiente, há sempre um conceito por cada coisa particular. De acordo com a recíproca, princípio dos indiscerníveis, há uma coisa e apenas uma por conceito. O conjunto destes princípios forma a exposição da diferença como diferença conceitual ou o desenvolvimento da representação como mediação.

A compreensão do conceito e o fenômeno do "bloqueio"


Mas um conceito pode sempre ser bloqueado ao nível de cada uma de suas determinações, de cada um dos predicados que ele compreende. O próprio do predicado como determinação é permanecer fixo no conceito, ao mesmo tempo em que se torna outro na coisa (animal se torna outro em homem e em cavalo, humanidade se toma outra em Pedro e Paulo). Isto mostra por que a compreensão do conceito é infinita: tomando-se outro na coisa, o predicado é como o objeto de um outro predicado no conceito. Mas isto também mostra por que cada determinação permanece geral ou define uma semelhança, enquanto fixada no conceito e convindo de direito a uma infinidade de coisas. Portanto, o conceito é aqui constituído de tal modo que sua compreensão vai ao infinito em seu uso real, mas é sempre passível, em seu uso lógico, de um bloqueio artificial. Toda limitação lógica da compreensão do conceito dota-o de uma extensão superior a 1, de direito infinita; dota-o, pois, de uma generalidade tal que nenhum indivíduo existente pode corresponder-lhe hic et nunc (regra da relação inversa da compreensão e da extensão). Assim, como diferença no conceito, o princípio de diferença não se opõe à apreensão das semelhanças, mas, ao contrário, deixa-lhe o maior espaço de jogo possível. Já a questão "que diferença há?" pode, do ponto de vista do jogo de adivinhações, transformar-se em: que semelhança há? Mas, sobretudo nas classificações, a determinação das espécies implica e supõe uma avaliação contínua das semelhanças. Sem dúvida, a semelhança não é uma identidade parcial; mas isto é assim somente porque o predicado no conceito, em virtude de seu tornar-se-outro na coisa, não é uma parte desta coisa.

Os três casos de "bloqueio natural" e a repetição: conceitos nominais, conceitos da natureza, conceitos da liberdade


Gostaríamos de marcar a diferença entre este tipo de bloqueio artificial e um tipo totalmente distinto, que se deve chamar de bloqueio natural do conceito. Um remete à simples lógica, mas o outro remete a uma lógica transcendental ou a uma dialética da existência. Suponhamos, com efeito, que um conceito, tomado num momento determinado em que sua compreensão é finita, seja forçado a assinalar um lugar no espaço e no tempo, isto é, uma existência correspondendo normalmente à extensão = 1. Dir-se-ia, então, que um gênero, uma espécie, passa à existência hic et nunc sem aumento de compreensão. Há dilaceração entre esta extensão = 1, imposta ao conceito, e a extensão = ¥, exigida em princípio por sua fraca compreensão. O resultado será uma "extensão discreta", isto é, um pulular de indivíduos absolutamente idênticos quanto ao conceito e participando da mesma singularidade na existência (paradoxo dos duplos ou dos gêmeos)6. Este fenômeno da extensão discreta implica um bloqueio natural do conceito, que, por sua natureza, difere do bloqueio lógico: ele forma uma verdadeira repetição na existência em vez de constituir uma ordem de semelhança no pensamento. Há uma grande diferença entre a generalidade, que sempre designa uma potência lógica do conceito, e a repetição, que testemunha a impotência ou o limite real do conceito. A repetição é o fato puro de um conceito com compreensão finita, forçado a passar como tal à existência: conhecemos exemplos de tal passagem? O átomo epicurista seria um destes exemplos; indivíduo localizado no espaço, ele não deixa de ter uma compreensão pobre que se recupera em extensão discreta, a tal ponto que existe uma infinidade de átomos de mesma forma e mesmo tamanho. Mas pode-se duvidar da existência do átomo epicurista. Em compensação, não se pode duvidar da existência das palavras, que, de certa maneira, são átomos lingüísticos. A palavra possui uma compreensão necessariamente finita, pois, por natureza, ela é objeto de uma definição apenas nominal. Dispomos aí de uma razão pela qual a compreensão do conceito não pode ir ao infinito: só se define uma palavra por meio de um número finito de palavras. Todavia, a fala e a escrita, das quais a palavra é inseparável, dão a esta uma existência hic et nunc; o gênero, portanto, passa à existência enquanto tal; e, ainda aí, a extensão se recobra em dispersão, em discreção, sob o signo de uma repetição que forma a potência real da linguagem na fala e na escrita.

A questão é a seguinte: há outros bloqueios naturais, além da extensão discreta ou da compreensão finita? Suponhamos um conceito com compreensão indefinida (virtualmente infinita). Por mais longe que se vá nessa compreensão, poder-se-á sempre pensar que um tal conceito subsume objetos perfeitamente idênticos. Contrariamente ao que se passa no infinito atual, onde, de direito, o conceito basta para distinguir seu objeto de qualquer outro objeto, encontramo-nos agora diante de um caso em que o conceito pode levar adiante sua compreensão, indefinidamente, subsumindo sempre uma pluralidade de objetos, pluralidade ela própria indefinida. Ainda aí o conceito é o Mesmo - indefinidamente o mesmo - para objetos distintos. Devemos, então, reconhecer a existência de diferenças não conceituais entre estes objetos. Kant foi quem melhor marcou a correlação entre conceitos, dotados de uma especificação somente indefinida, e determinações não conceituais, puramente espaço-temporais ou oposicionais (paradoxo dos objetos simétricos)7. Mas, precisamente, estas determinações são apenas figuras da repetição: o espaço e o tempo são, eles próprios, meios repetitivos; e a oposição real não é um máximo de diferença, mas um mínimo de repetição, uma repetição reduzida a dois, ecoando e retornando sobre si mesma, uma repetição que encontrou o meio de se definir. A repetição aparece, pois, como a diferença sem conceito, a diferença que se subtrai à diferença conceitual indefinidamente continuada. Ela exprime uma potência própria do existente, uma obstinação do existente na intuição, que resiste a toda especificação pelo conceito, por mais longe que se leve esta especificação. Por mais longe que se vá no conceito, diz Kant, poder-se-á sempre repetir, isto é, fazer-lhe corresponder vários objetos, ao menos dois, um à esquerda e um à direita, um para o mais e um para o menos, um para o positivo e um para o negativo.

Compreende-se melhor uma tal situação se se considera que os conceitos com compreensão indefinida são os conceitos da Natureza. Sob este aspecto, eles estão sempre em outra coisa: não estão na natureza, mas no espírito que a contempla ou que a observa e que a representa a si próprio. Eis por que se diz que a Natureza é conceito alienado, espírito alienado, oposto a si mesmo. A tais conceitos, correspondem objetos que são desprovidos de memória, isto é, que não possuem e não recolhem em si seus próprios momentos. Pergunta-se por que a Natureza repete: porque, responde-se, ela é partes extra partes, mens momentanea. A novidade, então, encontra-se do lado do espírito que se representa: é porque o espírito tem uma memória ou porque adquire hábitos que ele é capaz de formar conceitos em geral, de tirar algo de novo, de transvasar algo de novo à repetição que ele contempla.

Os conceitos com compreensão finita são os conceitos nominais; os conceitos com compreensão indefinida, mas sem memória, são os conceitos da Natureza. Ora, estes dois casos ainda não esgotam os exemplos de bloqueio natural. Seja uma noção individual ou uma representação particular com compreensão infinita, dotada de memória, mas sem consciência de si. A representação compreensiva é em si, a lembrança aí está, abarcando toda a particularidade de um ato, de uma cena, de um acontecimento, de um ser. Mas o que falta, para uma razão natural determinada, é o para-si da consciência, é a recognição. O que falta à memória é a rememoração ou, antes, a elaboração. Entre a representação e o Eu¨, a consciência estabelece uma relação muito mais profunda que a que aparece na expressão "tenho uma representação"; ela relaciona a representação ao Eu como a uma livre faculdade que não se deixa encerrar em nenhum de seus produtos, mas para quem cada produto já está pensado e reconhecido como passado, ocasião de uma mudança determinada no sentido íntimo. Quando falta a consciência do saber ou a elaboração da lembrança, o saber, tal como é em si, não vai além da repetição de seu objeto: ele é desempenhado, isto é, repetido, posto em ato, em vez de ser conhecido. A repetição aparece aqui como o inconsciente do livre conceito, do saber ou da lembrança, o inconsciente da representação. Coube a Freud ter assinalado a razão natural de tal bloqueio: o recalque, a resistência, que faz da própria repetição uma verdadeira "coerção", uma "compulsão". Eis aí, por tanto, um terceiro caso de bloqueio que desta vez concerne aos conceitos da liberdade. Pode se destacar também, do ponto de vista de certo freudismo, o princípio da relação inversa entre repetição e consciência, repetição e rememoração, repetição e recognição (paradoxo das "sepulturas" ou dos objetos enterrados): repete-se tanto mais o passado quanto menos é ele recordado, quanto menos consciência se tem de recordá-lo ¾ recorde, elabore a recordação para não repetir8. A consciência de si, na recognição, aparece como a faculdade do futuro ou a função do futuro, a função do novo. Não é verdade que os únicos mortos que retornam são aqueles que foram muito rápido e muito profundamente enterrados, sem que lhes tenham sido prestadas as devidas exéquias, e que o remorso testemunha menos um excesso de memória que uma impotência ou um malogro na elaboração de uma lembrança?

Há um trágico e um cômico na repetição. A repetição aparece sempre duas vezes, uma vez no destino trágico, outra no caráter cômico. No teatro, o herói repete precisamente porque está separado de um saber essencial infinito. Este saber está nele, mergulhado nele, age nele, mas age como coisa oculta, como representação bloqueada. A diferença entre o cômico e o trágico diz respeito a dois elementos: a natureza do saber recalcado, ora saber natural imediato, simples dado do senso comum, ora terrível saber esotérico; por conseguinte, tem-se também a maneira pela qual o personagem é excluído desse saber, a maneira pela qual "ele não sabe que sabe". O problema prático consiste, em geral, no seguinte: o saber não sabido deve ser representado como banhando toda a cena, impregnando todos os elementos da peça, compreendendo em si todas as potências da natureza e do espírito; ao mesmo tempo, porém, o herói não pode representar tal saber para si próprio, devendo, ao contrário, colocá-lo em ato, desempenhá-lo, repeti-lo. Deve fazer isto até o momento agudo que Aristóteles chamava de "reconhecimento", momento em que a repetição e a representação se misturam, se defrontam, sem, contudo, haver confusão entre estes dois níveis, um refletindo-se no outro, nutrindo-se do outro, sendo o saber, então, reconhecido como o mesmo, seja enquanto representado na cena, seja enquanto repetido pelo ator.
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