Indicadores de percepção pública da ciência e da tecnologia no Brasil Estudo comparativo sobre a cobertura da imprensa




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fecha de publicación25.02.2016
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Indicadores de percepção pública da ciência e da tecnologia no Brasil

Estudo comparativo sobre a cobertura da imprensa




Silvia FUJIYOSHI 1 & Maria Conceição da COSTA 2


1 Jornalista e mestranda do Departamento de Política Científica e Tecnológica,

do Instituto de Geociências da UNICAMP – hiromi@ige.unicamp.br

2 Socióloga e professora do Departamento de Política Científica e Tecnológica,

do Instituto de Geociências da UNICAMP – dacosta@ige.unicamp.br
Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP/DPCT/IG

Rua João Pandiá Calógeras, 51. Cidade Universitária.

Campinas – SP – Brasil. CEP.: 13830-970. Tel.: 19-37884566.

Homepage: www.ige.unicamp.br.

RESUMO



Este paper se propõe apresentar um estudo comparativo de três experiências distintas de construção de indicadores de percepção pública da ciência e da tecnologia (C&T) no Brasil.

O primeiro caso é o relatório da pesquisa “O que o brasileiro pensa da ciência e da tecnologia? A imagem da C&T junto à população urbana brasileira”, desenvolvido pelo Instituto Gallup de Opinião Pública, em 1987, como iniciativa pioneira nesta área específica de indicadores no País. O segundo e o terceiro são trabalhos recentes: a perspectiva brasileira apresentada no projeto ibero-americano de “Indicadores de percepção pública, cultura científica e participação dos cidadãos”, desenvolvido em parceria entre a Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI), a Rede Ibero-Americana de Indicadores de Ciência e Tecnologia (Ricyt) e o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp; e os “Indicadores de ciência, tecnologia e inovação em São Paulo – 2001”, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), especialmente o capítulo que trata da presença da C&T na mídia impressa paulista.

Foram objeto de atenção especial a metodologia, a abordagem e os resultados da pesquisa de opinião pública sobre a divulgação científica pela imprensa e o papel da mídia na popularização da C&T e na construção do imaginário da sociedade sobre o tema, considerando o poder de influência nas decisões de políticas públicas em diversos segmentos de interesse.

Na análise comparativa ficou evidente a evolução do tratamento desses indicadores e que os brasileiros deram alguns passos à frente na compreensão sobre a importância da C&T para o País, representando melhoria na relação entre a ciência, a tecnologia e a sociedade.

ÁREA TEMÁTICA: Jornalismo científico.

Indicadores de percepção pública da ciência e da tecnologia no Brasil

Estudo comparativo sobre a cobertura da imprensa

Silvia FUJIYOSHI 1 & Maria Conceição da COSTA 2


1 Jornalista e mestranda do Departamento de Política Científica e Tecnológica,

do Instituto de Geociências da UNICAMP – hiromi@ige.unicamp.br

2 Socióloga e professora do Departamento de Política Científica e Tecnológica,

do Instituto de Geociências da UNICAMP – dacosta@ige.unicamp.br
Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP/DPCT/IG

Rua João Pandiá Calógeras, 51. Cidade Universitária.

Campinas – SP – Brasil. CEP.: 13830-970. Tel.: 19-37884566.

Homepage: www.ige.unicamp.br.

INTRODUÇÃO


Estudos que buscaram sistematizar e construir indicadores de rendimento em C&T surgiram nas décadas de 1950 e 1960 como resposta à demanda do segmento de gestão e planejamento da política científica e tecnológica. O precursor na elaboração de indicadores de output de C&T foi a National Science Foundation (NSF) – principal agência financiadora das pesquisas nos Estados Unidos.

Na Europa, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) foi a primeira a compilar indicadores de output de C&T para instrumentalizar políticas públicas nesta área, com o Manual Frascati. Entretanto, este manual foi criado sob a visão tradicional da produção científica e tecnológica, baseando-se num modelo linear, onde as inovações são, necessariamente, conseqüência do desenvolvimento tecnológico que resultariam da pesquisa básica.

Um dos maiores desafios da mensuração das dimensões das atividades de C&T e seus impactos sociais (cientometria) é a construção de indicadores que superem esta visão linear do sistema de inovação, com uma abordagem que represente melhor a rede de relações entre os diversos atores envolvidos na dinâmica da produção científica e tecnológica. A ciência, hoje, é vista como um produto de realidades múltiplas, das quais apenas uma é geralmente aceita num determinado tempo e entre uma comunidade específica. O conhecimento científico, então, é no fundo um acordo socialmente aceito sobre o que é real, consenso a que se chega através de processos de negociação (Costa, 2004.).

Os indicadores de percepção pública da ciência permitem vislumbrar o posicionamento da sociedade diante da C&T, dando “pistas” de como a população considera e se relaciona com as descobertas científicas e os avanços tecnológicos. Os meios de comunicação de massa ou a grande imprensa são um dos maiores responsáveis pela difusão desses conceitos de C&T na sociedade.

Influenciada em alguma medida pelo discurso propagado pela imprensa, a opinião pública se “molda” e, naturalmente, esse senso comum se reflete na própria condução da política de ciência, tecnologia e inovação do País e nas decisões sobre investimentos públicos e privados. Como num ciclo vicioso, o discurso é produzido e reproduzido, influenciando e definindo os rumos da C&T brasileiras. Nesse sentido, os dados podem indicar tendências para a visão de determinismo tecnológico, mostrando a produção científica como algo que não sofre influências do ambiente social, mas que atua de forma autônoma sobre a sociedade.

Apesar da importância do tema, somente a partir dos anos 1970 é que o Jornalismo Científico tornou-se mais evidente e sistematizado no Brasil, quando todos os grandes jornais criaram editorias de ciência e foram realizados os primeiros congressos da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC). É desta mesma época, a primeira pesquisa sobre o que o brasileiro pensa da C&T, desenvolvida pelo Instituto Gallup de Opinião Pública à pedido do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Assim, os indicadores de percepção pública sobre C&T se mostram cada vez mais fundamentais não somente para subsidiar a elaboração e implementação de políticas públicas relacionadas ao tema ou por ela influenciada. Mas, também, para se ter conhecimento de como a imprensa vem “contribuindo” para a construção do imaginário social sobre a C&T no âmbito da própria atividade científica e seus principais atores, além da compreensão dos conteúdos científicos.

Este paper apresenta um estudo comparativo de três experiências distintas de construção de indicadores de percepção pública da ciência e da tecnologia (C&T) no Brasil.

O primeiro caso é o relatório da pesquisa “O que o brasileiro pensa da ciência e da tecnologia? A imagem da C&T junto à população urbana brasileira”, desenvolvido pelo Instituto Gallup de Opinião Pública, em 1987, como iniciativa pioneira nesta área específica de indicadores no País. O segundo e o terceiro são trabalhos recentes: a perspectiva brasileira apresentada no projeto ibero-americano de “Indicadores de percepção pública, cultura científica e participação dos cidadãos”, desenvolvido por meio de parceria entre a Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI), a Rede Ibero-Americana de Indicadores de Ciência e Tecnologia (Ricyt) e o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp; e os “Indicadores de ciência, tecnologia e inovação em São Paulo – 2001”, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), especialmente o capítulo que trata da presença da C&T na mídia impressa paulista.

Foram objeto de atenção especial a metodologia, a abordagem e os resultados da pesquisa de opinião pública sobre a divulgação científica pela imprensa e o papel da mídia na popularização da C&T e na construção do imaginário da sociedade sobre o tema, considerando o poder de influência nas decisões de políticas públicas em diversos segmentos de interesse.

[experiência 1] – O que o brasileiro pensa da ciência e da tecnologia?

No final da década de 1980, quando o País estava prestes a apresentar sua nova Constituição, o MCT e o CNPq encomendaram a primeira pesquisa de opinião pública sobre a C&T no Brasil – “O que o brasileiro pensa da ciência e da tecnologia? A imagem da C&T junto à população urbana brasileira”. O objetivo foi provocar a reflexão sobre o papel social da C&T no País e subsidiar o direcionamento das ações do MCT e do CNPq na área de divulgação científica “tão necessária à democratização do acesso aos resultados do trabalho de investigação”, entendendo a “necessidade de incorporar a ciência e a tecnologia à cultura nacional”1 (Gallup, 1987).

A pesquisa foi realizada no período de 23 de janeiro a 10 de fevereiro de 1987. Foram levantados dados sobre níveis de informação sobre C&T e de interesse pela ciência e por notícias sobre descobertas nos campos científicos e tecnológicos; imagem da ciência, de cientistas e pesquisadores; o papel social da C&T nas esferas cotidiana, profissional e na vida nacional; conhecimento e apreciação dos órgãos dedicados à pesquisa científica no Brasil; conhecimento e apreciação dos vários campos de atividade científica e seus setores prioritários; expectativas em relação a uma política governamental para a área de C&T; e sugestões para itens de uma política na área de C&T para a Constituição de 1989.

Foram incluídas perguntas no Sistema Omnibus Nacional Gallup, de pesquisa de opinião pública geral. O questionário abrangeu aspectos sobre a imagem da profissão de cientista em comparação com outros profissionais; o nível de conhecimento da população sobre descobertas científicas e cientistas famosos, além de seu interesse pela ciência; opiniões sobre o fomento e o potencial das estruturas da C&T no País; a qualidade e quantidade de informações científicas disponibilizadas pela mídia; e as proporções de investimentos em C&T em relação ao Produto Nacional Bruto (PNB); além de solicitar alguma sugestão aos constituintes.

O relatório de pesquisa foi dividido em quatro partes: 1) níveis de interesse pela ciência; 2) imagem do cientista e da ciência; 3) o papel da ciência na vida nacional; e 4) expectativas com relação ao desenvolvimento de uma política científica e tecnológica. As abordagens sobre a cobertura da imprensa estão inseridas na primeira parte do relatório.

Em suma, os “níveis de interesse pela ciência”, para os brasileiros, é alto. Cerca de 71% da população tem algum ou muito interesse por descobertas científicas. Os dados mostraram que o interesse varia conforme o nível sócio-econômico e a escolaridade. Os mais jovens e as pessoas da classe A têm maior interesse. Os homens se interessam mais do que as mulheres certamente também por reflexo da escolaridade e da estrutura ocupacional ou padrões de socialização.

Quanto ao interesse por notícias sobre C&T, os homens e pessoas de idade intermediária são os mais interessados. O interesse por notícias sobre descobertas científicas é bastante semelhante na comparação entre regiões, mas há uma leve tendência de se acentuar nos grandes centros urbanos (21% a 73%). Mas, também parecem despertar o interesse de moradores de pequenas cidades do interior.

O relatório do Gallup aponta para expectativas da população em obter mais notícias sobre descobertas científicas e tecnológicas. “Os que mais consideram insatisfatórios estes noticiários são as pessoas de instrução superior (71%) e as que têm interesse pela ciência (76%). Mesmo entre os brasileiros de escolaridade primária, a maioria gostaria que os órgãos de comunicação divulgassem mais as notícias sobre C&T (59%)” (Gallup, 1987: 8).

[experiência 2] – Percepção pública, cultura científica e participação dos cidadãos.

Esta pesquisa foi desenvolvida por meio de uma parceria entre a Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI) e a Rede Ibero-Americana de Indicadores de Ciência e Tecnologia (Ricyt), e o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp. Os levantamentos foram realizados na cidade de Buenos Aires e parte do perímetro urbano da Grande Buenos Aires (Argentina), em dezembro de 2002; e, entre fevereiro e março de 2003, em Campinas, no Brasil; Salamanca e Vallodolid, na Espanha; e Montevidéu, no Uruguai.

Na Argentina, a pesquisa abrangeu 300 casos ou entrevistados. No Brasil, foram 162 casos (50% de pessoas com formação superior completa; 7,4% de pós-graduados). E, na Espanha e Uruguai, juntos, foram 150 casos.

A partir de um projeto conjunto revisaram-se os conceitos, bem como as metodologias e indicadores tradicionais, e realizou-se uma série de estudos investigativos de caráter empírico. A proposta foi uma abordagem ampla, a partir do conceito de “cultura científica”, contemplando três níveis de análise com aproximações teóricas e metodológicas diferenciadas (OEI/Ricyt/Unicamp, 2003: 65 e 67): institucional3, processos coletivos4 e apropriação da C&T como atributo individual (cultura científica em sentido estrito)5.

A pesquisa abrangeu os campos temáticos do “imaginário social sobre C&T”, “processos de comunicação social da ciência” e “participação dos cidadãos em questões de C&T”. O questionário aplicado trouxe principalmente afirmações típicas para o entrevistado concordar ou não. Por exemplo: para saber sobre a opinião da população sobre os riscos da C&T foi perguntado se “os benefícios da C&T são maiores que os efeitos negativos”. Neste caso, a média das respostas dos países pesquisados ficou em 74,3% dos entrevistados concordando com a afirmação. Mas, no Brasil e na Argentina, na verdade, as respostas, entre os que concordam e os que não, ficaram bastante equilibradas.

Nesse sentido, apesar da tendência geral da imagem favorável da ciência, a percepção é de que ela não está livre de ter conseqüências negativas. Entre os principais problemas, mencionam-se “os perigos de aplicar alguns conhecimentos” e “a utilização do conhecimento para a guerra”. Do mesmo modo, as controvérsias científicas são percebidas pela grande maioria como um fator que alimenta a incerteza da sociedade e impede que se valorizem as conseqüências do desenvolvimento de certos conhecimentos.

De uma forma geral, no Brasil, o imaginário social sobre C&T é de “avanço tecnológico” e nos quatro países a C&T é vista como algo útil para a “melhoria da qualidade de vida da sociedade”. No entanto, a grande maioria também nega que a C&T possa solucionar todos os problemas. Além disso, há uma tendência geral de ênfase à racionalidade científica, depositando confiança na verdade da ciência, em detrimento da fé religiosa. No entanto, no Brasil a concordância em relação à legitimidade da ciência (70,4%) supera amplamente a discordância (27,2%), enquanto que nos outros países as respostas são equilibradas.

Para se perceber o nível de informação da população de amostra, perguntou-se a freqüência com que cada entrevistado busca se atualizar sobre temas científicos através da TV, jornais e revistas especializadas. Conforme o gráfico 1, observa-se que, em geral, os meios de comunicação são procurados somente ocasionalmente no Brasil.
G

ráfico 1 – Freqüência de consumo de informação científica por meio de comunicação



Fonte: OEI/Ricyt/Unicamp, 2003.


Quanto à compreensão dos conteúdos das informações científicas, no Brasil, a média de respostas corretas foi de 62% - menor do que a da Espanha (77%) e a do Uruguai (75%), e maior que a da Argentina (58%). A maioria dos brasileiros acha que, algumas vezes, a linguagem dos cientistas complicada e de difícil compreensão.

[experiência 3] – Indicadores de ciência, tecnologia e inovação em São Paulo.

A diferença essencial entre essa pesquisa e a do Instituto Gallup e a da Ricyt/OEI/Unicamp é que ela está focada no tratamento da imprensa sobre o tema C&T, enquanto que as outras apresentam a perspectiva da população sobre a cobertura da imprensa. Apesar da disparidade dos dados, a idéia aqui é apresentar as informações para confrontá-las e obter uma perspectiva mais ampla da divulgação científica no País.

Esta pesquisa foi coordenada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o capítulo 11 do relatório aborda “A Presença da Ciência e da Tecnologia na Mídia Impressa Paulista”. Os indicadores foram construídos a partir da análise de amostras de textos sobre ciência e tecnologia publicados nos jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Correio Popular (Campinas) e ValeParaibano (Vale do Paraíba), dos anos de 1989, 1995, 1999 e 2000.

Foram considerados os aspectos 1) da emissão da notícia: fonte, origem da informação, natureza da informação e autoria; e 2) da transmissão: ocupação do espaço no jornal, localização espacial; diagramação, gênero jornalístico e enfoque, protagonistas e natureza da informação.

A análise revela “a consciência da sociedade quanto à importância das atividades científicas”, e mostra que há uma tendência dominante de concentrar as matérias sobre C&T em editorias específicas. Assim, a presença de notícias científicas na primeira página dos jornais é pequena. Geralmente, a cobertura privilegia aspectos curiosos de pesquisas científicas ou questões relacionadas à área da saúde.

A pesquisa mostra que os jornais se interessam por C&T. A ciência nacional ocupa mais espaço que a internacional e os temas de destaque são de natureza mais prática: engenharias, ciências agrárias, questões ambientais e saúde.

Pode-se observar no gráfico 2 que a tendência de 1989 até 1999 foi de queda na cobertura jornalística sobre C&T e, na última década uma recuperação, com exceção da Gazeta Mercantil, que mostra-se totalmente instável.




Gráfico 2 – Percentual de área ocupada por matérias sobre C&T nos jornais selecionados

Fonte: Fapesp, 2001.

Mas, o relatório da Fapesp destaca que esse período de recuperação apontado no gráfico coincide, exatamente, com mudanças gráficas e editorias nos jornais do País. As mudanças consistiram principalmente no aumento do número de páginas nos jornais, indicando que a elevação do percentual de área com notícias científicas não representa, necessariamente, a valorização do tema na imprensa, mas a simples realocação das matérias nas dimensões novas dos jornais.

Outra informação interessante apresentada pelos indicadores da Fapesp é sobre os tipos de fontes utilizados pela mídia para garantir a cobertura de matérias científicas. Em geral, as instituições governamentais são as mais procuradas pelos jornalistas como fontes. A proporção entre cientistas e jornalistas na autoria dos textos científicos publicados pela imprensa mostra, ainda, maioria absoluta de jornalistas.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


O estudo comparativo das três experiências de pesquisa de opinião pública sobre a ciência e a tecnologia permite observar alguma evolução na abordagem da construção e análise dos indicadores. Apesar dos casos serem distintos em sua metodologia, é possível perceber a convergência de esforços pela identificação do imaginário social sobre a C&T e de sua construção pelos meios de comunicação.

Apesar de, no Brasil, não ter havido mais nenhuma iniciativa da abrangência da pesquisa realizada pelo Instituto Gallup, trabalhos localizados, como os da OEI/Ricyt/Unicamp e da Fapesp, apresentam dados valiosos para a avaliação da relação C&T e sociedade.

As pesquisas da OEI/Ricyt/Unicamp têm uma extensão de amostra restrita e menos representativa em relação aos levantamentos realizados pelo Instituto Gallup, mas parecem ter uma fundamentação teórica mais aprofundada, especialmente quando se trata do conceito de cultura científica. Acredito que houve evolução, também, na própria metodologia de aplicação dos questionários. O modelo do Gallup era complexo e certamente demandou muito mais tempo e dedicação do entrevistado.

Mas, pelo fato da amostra de entrevistados da OEI/Ricyt/Unicamp ser tão restrita e ter sido, na maioria, de pessoas com nível superior ou até pós-graduados, pode-se dizer que as respostas da pesquisa não refletem a verdadeira realidade da população brasileira. Lembremo-nos que menos de 2% da população do País tem acesso ao Ensino Superior.

Outra vantagem da pesquisa do Gallup é a sua estratificação social e regional. Com isso, pôde-se confirmar a ligação direta entre a educação e a formação da cultura científica. Certamente, apontando a raiz da questão do “analfabetismo tecnológico”. Na verdade, além da garantia de trabalho e um nível econômico sustentável para ter acesso à educação, é preciso avaliar a qualidade do ensino e pensar um modelo integrado de repasse direto dos novos conhecimentos científicos para as salas de aula da educação fundamental e média.

Quanto às informações veiculadas pela imprensa, os levantamentos do Gallup, OEI/Ricyt/Unicamp e Fapesp parecem se complementar. O Gallup mostra o nível de interesse da população brasileira pela ciência e pelas notícias sobre descobertas científicas. Ou seja, apresenta a demanda por informação de C&T existente. Já a OEI/Ricyt/Unicamp mostra com que freqüência exatamente essa demanda se torna público leitor ou espectador de fato. E a Fapesp mostra as dimensões quantitativas e qualitativas da oferta das informações científicas.

Nas três pesquisas, pôde-se perceber que há um interesse da população brasileira pela divulgação científica e uma tendência, pelo menos nos últimos dez a vinte anos, por notícias que abordam os temas científicos de ordem prática, ligados às áreas de saúde, agricultura, energia, transporte e, mais recentemente, biotecnologia.

O alto índice de concordância com idéias como a C&T traz progresso ou melhoria de vida mostram, também, uma tendência por um imaginário social de determinismo tecnológico. Mas, compreender que nem tudo pode ser resolvido pela C&T é um indício de que há uma certa conscientização dos limites da ciência.

Uma pesquisa ampla, talvez, unindo as abordagens das três experiências apresentadas nesta monografia, faz-se necessária para compreender como realmente se dá a relação entre ciência, tecnologia e sociedade, e respaldar a tomada de decisões políticas nos diversos segmentos relacionados e que sofrem influência da produção científica e tecnológica (e qual não sofre?).


BIBLIOGRAFIA


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1 As frases entre aspas são de Crodowaldo Pavan, presidente do CNPq na época, no texto de apresentação do relatório de pesquisa do Instituto Gallup de Opinião Pública sobre a C&T no Brasil.

3 Instituições da C&T; políticas científicas e tecnológicas; instituições de comunicação social da ciência; valoração social da C&T; instituições de participação; instituições relacionadas com o risco etc.

4 Consumo de comunicação social da ciência (meios de comunicação, visitas a museus e centros de ciência etc.); conflitos socialmente tematizados advindos da pesquisa científica e do desenvolvimento tecnológico; participação social na tomada de decisões; grupos de interesses; discursos sobre riscos; representações sociais etc.

5 Conhecimento, percepção (valoração, atitudes etc.); percepção da relação entre CT&S; participação do indivíduo em processos coletivos etc.


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