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Capítulo 2
Repousava Dona Beatriz no leito bem-posto, patenteando enorme cansaço.

A doença, decerto, consumia-lhe a forma física, desde muito, porqüanto aos quarenta e sete anos de idade mostrava o rosto singularmente engelhado e o corpo leve.

Refletia, ensimesmada, tristonha... Fácil de se lhe ver a preocupação, ante a crise iminente.

Idéias a lhe fluírem, vivas e nobres, indicavam que se habituara à certeza da desencarnação próxima. Notava-se-lhe fixada no pensamento a convicção do viajante que atingira o término de espinhosa trilha, da qual, por fim, lhe competia sair.

Conquanto tranqüila, inquietava-se pelos vín­culos que a prendiam no mundo. Apesar disso, visualizava as portas do Além, plasmando formosos quadros íntimos, como quem sonha à luz da vigília, e recordava Neves, o pai que perdera na infância, qual se visse prestes a recuperá-lo, em definitivo, tal a extensão do amor que os acolchetava um ao outro.

Observávamos, porém, sem dificuldade, que a alma afetuosa da enferma se dividia mais fortemente, na Terra, entre o esposo e o filho, dos quais se reconhecia em gradativo processo de inevitável separação.

No aposento acolhedor, que alguns adereços ataviavam, tudo transparecia limpeza, reconforto, assistência, carinho.

Ante o leito, encontramos sisudo enfermeiro desencarnado que Neves abraçou, demonstrando guardá-lo à conta de imensa estima.

E apresentou-nos:

- Amaro, temos aqui André Luiz, amigo e médico que, doravante, nos partilhará os serviços.

Saudamo-nos cordialmente.

Neves inquiriu, atencioso:

— O irmão Félix veio hoje?

— Sim, como sempre.

Informei-me, então, de que o irmão Félix, des­de muitos anos, era o superintendente de importante casa socorrista, ligada ao Ministério da Rege­neração, em Nosso Lar (2). Famoso pela bondade e paciência, era conhecido como sendo um apóstolo da abnegação e do bom-senso.

Não dispúnhamos, entretanto, de qualquer tem­po para considerações pessoais.

Dona Beatriz experimentava dores agudas e o companheiro mostrou o propósito de aliviá-la, atra­vés do passe confortativo, enquanto a senhora se via aparentemente a sós. Em grande prostração física, revelava profunda sensibilidade mediúnica.

Oh! os sublimes pensamentos do leito de dor!... De olhos cerrados, a doente, embora não assina­lasse a presença paterna, lembrava a ternura do genitor, que lhe parecia distante e inacessível no tempo. Identificava-se, de novo, com a ingenuidade infantil... Na acústica da memória, ouvia as can­ções do lar, voltava, encantada, às horas da me­ninice... Reconstituindo na imaginação as relíquias do berço, sentia-se no regaço paternal, à maneira da ave de regresso à penugem do ninho!

Dona Beatriz chorava. Lágrimas de enterne­cimento inexprimível perolavam-lhe a face. E sem que a boca enunciasse o menor movimento, clama­va intimamente com toda a alma: «pai, meu pai!...”
2) Organizações no Plano dos Espíritos. Nota do Autor Espiritual.

Meditai, vós que, no mundo, admitis para os desencarnados a indiferença da cinza! Para lá dos túmulos, amor e saudade muitas vezes se trans­formam, no vaso do coração, em pranto comburente!

Neves cambaleou, agoniado... Enlacei-o, con­tudo, a pedir-lhe coragem. A ventania da angústia, porém, sobre o ânimo do companheiro atribulado, perdurou apenas alguns momentos.

Refeito, a re­compor o semblante que o sofrimento transfigu­rara, espalmou a destra na fronte da filha e orou, suplicando o amparo da Bondade Divina.

Chispas de luz, quais minúsculas flamas azu­líneas, evolavam-lhe do tórax, a se projetarem naquele corpo fatigado, revestindo-o de energias calmantes.

Emocionado, observei que Dona Beatriz se aco­modava a suave torpor. E antes que pudesse enun­ciar qualquer impressão, uma jovem, figurando-se nas vinte primaveras da experiência física, entrou cautelosamente no quarto. Renteou conosco, sem perceber-nos, de leve, e tomou o pulso da enferma, verificando-lhe as condições.

A recém-chegada esboçou o gesto de quem re­conhecia tudo em ordem. Encaminhou-se, logo após, na direção de pequenino armário próximo e, mu­nindo-se dos recursos necessários, voltou à cabe­ceira da dona da casa, aplicando-lhe injeção anes­tesiante.

Dona Beatriz não mostrou a mínima reação, continuando a descansar, sem dormir.

O concurso magnético de minutos antes insen­sibilizara-lhe os centros nervosos.

Perfeitamente tranqüila, a moça, na qual ob­servávamos a posição da enfermeira improvisada, retirou-se para um dos ângulos do aposento, a lar­gar-se em acolhedora poltrona de vime. Em seguida, descerrou um dos segmentos da janela qua­dripartida, atraindo a corrente de ar fresco que nos bafejou sem alarde.

Respirando à saciedade, a jovem, com grande surpresa para mim, acendeu um cigarro e passou a fumar distraidamente, dando a idéia de quem diligenciava fugir de si mesma.

Neves fitou-a, deitando-lhe significativo olhar em que se mesclavam piedade e revolta e, indican­do-a, discreto, informou-me:

— Trata-se de Marina, contadora de meu gen­ro, que se dedica ao comércio de imóveis...

Agora, a pedido dele, desempenha funções de assistente...

Evidente sarcasmo transparecia-lhe da palavra reticenciosa.

- Imagine! — voltou a dizer — fumar aqui. numa câmara de dor, onde a morte está sendo esperada!...

Contemplei Marina, cujos olhos denotavam re­côndita inquietude.

Manifestando ainda alguns laivos de respeitosa estima para com a nobre senhora estirada no leito, soprava, para além da janela, as baforadas cinzen­tas que lhe escapavam da boca.

Repartindo a própria atenção entre ela e Ama­ro, o nosso amigo da esfera espiritual, Neves, con­quanto mudo e constrangido, parecia querer falar à vontade e desinibir-se.

Tentei, porém, adquirir mais amplo conheci­mento da posição.

Aproximei-me reverentemente da jovem, no propósito de sondá-la em silêncio e colher-lhe as vibrações mais intimas; contudo, recuei assustado.

Estranhas formas-pensamentos, retratando-lhe os hábitos e anseios, em contradição com os nossos propósitos de socorrer a doente, fizeram-me para logo sentir que Marina se achava ali, a contragosto. A sua mente vagueava longe...

Quadros vivos de esfuziante agitação ressuma­vam-lhe na cabeça... De olhar parado, escutava, adentro de si própria, a música brejeira da noite festiva, que atravessara na véspera, e experimentava ainda na garganta a impressão do gim que sorvera, abundante.

Apesar de surgir-nos, superficialmente, à guisa de menina crescida, sob o turbilhão de névoa fu­marenta, exibia telas mentais complexas, a lhe re­lampaguearem na aura imprecisa.

Trazido pelas circunstâncias a colaborar na solução de um processo assistencial, sem qualquer intuito menos digno, passei a estudar-lhe o compor­tamento isolado. A Medicina terrestre, no futuro, para atender com eficácia, ao doente, examinar-lhe-á, com minúcias, a feição espiritual de todas as peças humanas que lhe articulam a equipe.

Respeitoso, iniciei os apontamentos de ampla anamnese psicológica.

Marina apresentou, a princípio, a figura de um homem amadurecido, cunhada por sua própria ima­ginação, a repetir-se-lhe, muitas vezes, acima da fronte.

Ela e ele, juntos... Percebia-se-lhes, de pron­to, a intimidade, adivinhava-se-lhes o romance...

Fisicamente, semelhavam pai e filha; entretanto, pelas atitudes sentimentais, não conseguiam disfar­çar a estuante paixão um pelo outro. Nos painéis sutis que surgiam e se desfaziam, alternadamente, mostravam-se ambos extasiados, ébrios de prazer, fosse aboletados no automóvel de luxo ou enlaçados na areia morna das praias, conchegados sob a pro­teção de arvoredo tranqüilo ou sorridentes em tu­multuados abrigos de encantamento noturno... Des­lumbrantes paisagens de Copacabana ao Leblon desfilavam por admirável fundo pictórico.

A moça entrefechava as pálpebras para senho­rear, com mais segurança, as reminiscências que lhe empolgavam os sentidos, para, logo após, men­talizar, surpreendentemente, outro homem, tão jo­vem quanto ela mesma, evidenciando-se-nos entre­gue às cenas de um filme interior, diferente...

For­mava novo tipo de palco para exibir a lembrança das próprias aventuras, no qual se destacava igualmente ao pé do rapaz, como se estivesse afeiçoada aos mesmos sítios, desfrutando companhias diver­sas... Ela e ele também juntos, no mesmo carro entrevisto ou na condição de pedestres felizes, sa­boreando refrescos ou repousando em animados entendimentos nos jardins públicos, sugerindo o en­contro de crianças enamoradas, a entretecerem as­pirações e sonhos..

Naqueles rápidos minutos de fixação espiritual, em que se exteriorizava tal qual era, Marina reve­lava a personalidade dúplice da mulher dividida entre o carinho de dois homens, jugulada por pen­samentos de medo e inquietude, ansiedade e arre­pendimento.

Neves, que de algum modo me partilhava a inspeção, quebrou a calma reinante, enunciando, abatido:

— Está vendo? Julga que é fácil para mim, pai da doente, suportar aqui semelhante criatura?

Tratei de consolá-lo e, por solicitação dele pró­prio, passamos a pequeno salão de leitura, contíguo ao aposento da enferma, a fim de que pudéssemos refletir e conversar.

Capítulo 3
Na peça isolada, o amigo cravou os olhos lú­cidos nos meus e obtemperou:

— Após a desencarnação, achamo-nos na se­gunda fase da própria existência e ninguém, na Terra, imagina as novas condições que nos tomam de assalto. .. De começo, renovamos a vida...

Equi­pes salvadoras, apoio na prece, estudo das vibra­ções, escola da caridade. Ensaiamos, felizes, o culto dos grandes sentimentos humanos... Depois, quan­do trazidos, de retorno, ao trabalho mais íntimo, na arena doméstica, que supúnhamos varrida para sempre da memória, como na situação especial de meu caso, a didática é outra... É preciso espre­mer o sangue do coração para confirmar o que ensinamos com a cabeça... Avalie que me encon­tro nesta casa, em serviço, apenas há vinte dias e já recebi tantas punhaladas na alma, que, não fossem as necessidades de minha filha, teria fugido, incontinenti... Sem minhas observações pessoais, não teria admitido tanta leviandade em meu gen­ro... Bilontra, fanfarrão despudorado.

Sim, sim... — tentei cortar as doloridas alegações.

Comentei, breve, a excelência do olvido de todo mal, argumentei quanto ao merecimento do auxílio silencioso, através da oração.

Neves sorriu, meio desconsolado, e ajuntou:

— Compreendo que você se reporta à vanta­gem do pensamento positivo na fixação do bem e creia que, de minha parte, farei quanto puder para não esquecê-lo. Agora, porém, tolere, por favor, as minhas considerações talvez descabidas. .. A Me­dicina é ciência luminosa, recheada de raciocínios puros; no entanto, muitas vezes é obrigada a des­cer da alta cultura para dissecar os cadáveres...

Endereçou-me o olhar de alguém que anseia derramar-se noutro alguém e continuou:

— Saiba você que na quinta noite de minha permanência aqui, notando Beatriz em aguda crise de sofrimento, diligenciei buscar meu genro para assisti-la em pessoa... E sabe onde o encontrei?

Nada de escritório, segundo a falsa informação que deixara em casa. Indignado, fui surpreendê-lo numa furna penumbrosa, em plena madrugada, jun­to da menina que você acaba de conhecer. Os dois unidos, qual marido e mulher. Champanha corren­do e música lasciva. Entidades perturbadoras e perturbadas, jungidas ao corpo dos bailarinos, en­quanto outras iam e vinham, a se inclinarem sobre taças, cujo conteúdo lábios entediados não haviam conseguido sorver totalmente.

Em recanto multi­colorido, onde algumas jovens exibiam formas se­mi-nuas em coleios esquisitos, vampiros articulavam trejeitos, completando, em sentido menos digno, os quadros que o mau-gosto humano pretendia apre­sentar, em nome da arte. Tudo rasteiro, impró­prio, inconveniente... Fisguei meu genro e a co­laboradora, nos braços um do outro, recordei minha filha doente e revoltei-me. Súbito desespero apos­sou-se de mim. Oscilou minha razão escurecida, pois cheguei a justificar, de relance, a deplorável atitude dos companheiros desencarnados que se transformam em vingadores intransigentes. O «ho­mem velho que eu fora e o «homem renovado» que aspiro a ser digladiavam em minhas fibras recônditas...

Estacou numa pausa, rearticulando os pensa­mentos, e continuou:

— Tinha visto, apavorado, em outro tempo, aqueles que se animalizavam, depois da morte, nos lares que lhes haviam sido reduto à felicidade, a se precipitarem, violentos, sobre os entes amados que lhes desertavam da afeição... Funcionara, en­tusiasmado, em diversas comissões socorristas, pro­curando esclarecê-los e modificá-los para o bem, a fazer-lhes sentir que as lutas morais, depois da desencarnação, se erigiriam igualmente em penosa herança para todos aqueles com os quais se desar­monizavam; advertia-os de que o túmulo esperava também quantos, na Terra, lhes sonegavam leal­dade e ternura... E, bastas vezes, lograva acal­má-los para a retirada benéfica. Mas ali.. Im­prudentemente agastado contra a insensibilidade do homem que me desposara a filha querida, vi-me chamado a praticar os bons conselhos que havia administrado...

O amigo fez ligeiro intervalo, enxugou as lá­grimas que lhe corriam no rosto, ao evocar a própria inconformação, e completou a frase, aditando:

— Mas não pude. Tomado de cólera incoercí­vel, avancei, qual fera desacorrentada, e, irrefleti­damente, esmurrei-lhe a face. Ele deixou-se cair nos ombros da companheira, acusando agoniada indisposição, como se estivesse sob o impacto de súbita lipotimia... Dispunha-me, em seguida, a torcer-lhe o corpo, em meus braços rijos; entretanto, não consegui. Uma senhora desencarnada, de sem­blante nobre e calmo, aproximou, desarmando-me o íntimo. Não entremostrava sinais exteriores de elevação. Patenteava-se, aliás, tão profundamente humana, quanto nós mesmos. Diferenciava-se ape­nas através de minúsculo distintivo luminoso, que lhe brilhava palidamente no peito, qual jóia rara a emitir discreta radiação. Afagou-me, de leve, a cabeça e induziu-me à serenidade. Envergonhado, fitei-a, constrangido. A dama inesperada não me censurou, nem fez qualquer alusão ao meu gesto infeliz. Ao revés, falou-me com bondade, quanto à filha doente. Demonstrava conhecer Beatriz, tanto quanto eu próprio. E acabou convidando-me a sair do recinto, para acompanhá-la até ao quarto da enferma. Atendi sem relutância. E porque a gentil interventora, no trajeto, somente se reportasse aos méritos da compreensão e da tolerância, sem qual­quer referência aos desvarios da casa que vínha­mos de deixar, procurei reprimir-me, para cogitar, exclusivamente, de socorro à filha em dificuldade. A mensageira anônima recolocou-me no lar, despe­dindo-se, delicada; e depois disso não mais a vi, pelo que, ainda agora, me lembro dela, positiva­mente intrigado...

Ensaiava alguma observação reconfortante, re­memorando minhas experiências, quando Neves, in­terpretando-me os pensamentos, obtemperou depois de longa pausa:

— Você, André, nunca se viu defrontado por acontecimentos assim desagradáveis?

Recordei, emocionadamente, as primeiras im­pressões que me haviam transtornado a sensibilida­de, após a desencarnação. Reconstituí na memória todas as telas em que me surpreendera desanima­do, excitado, dilacerado, vencido...

As transformações domésticas, os empeços familiares, os impositivos da luta humana e as sugestões da natureza física que me haviam alterado a esposa e os filhos, na Terra, quando se reconhe­ceram sem a minha presença direta, retornaram-me ao coração. Senti-me mais estreitamente ligado ao meu interlocutor, assimilando-lhe o torturado in­fluxo mental, e comentei:

— Sim, meu amigo, atravessada a grande bar­reira, os meus problemas, a princípio, foram enor­mes...

Entretanto, não foi possível desabafar-me. Ca­valheiro maduro e simpático penetrou o recinto, compreensivelmente sem perceber-nos.

Neves, contrafeito, indicou-o, explicando-me:

— É Nemésio, meu genro...

O recém-chegado mirou-se, atenciosamente, em espelho próximo, repassou lenço alvo sobre a testa suarenta e, quando reajustava a gravata bem-posta, escutou prolongado suspiro. Lançou-se, incon­tinenti, para a câmara contígua e seguimo-lo.

Marina veio recebê-lo com amável sorriso, con­duzindo-o à cabeceira da senhora, que passou a fitá-lo entre confortada e abatida.

Dona Beatriz estendeu a mão descarnada que o marido beijou. Trocando com ela enternecido

olhar, acomodou-se Nemésio rente aos travesseiros, a endereçar-lhe perguntas carinhosas, ao mesmo tempo que lhe alisava a descuidada cabeleira.

A doente pronunciou algumas palavras breves, diligenciando agradá-lo, e ajuntou:

— Nemésio, você me perdoará se volto ao caso de Olímpia... A pobre criatura perdeu a casa qua­se que totalmente... É necessário que você lhe ga­ranta abrigo seguro... Penso nela com os filhos ao desamparo. Tire-me dessa aflição...

O interpelado mostrou profunda emotividade e respondeu, cortês:

- Beatriz, não há dúvida alguma. Já enviei um amigo, construtor experiente, ao local. Não se preocupe, tudo faremos sem qualquer sacrifício. Questão de tempo...

— Receio partir de uma hora para outra...

— Partir para onde?

Nemésio acariciou-lhe a fronte descolorida, sa­cou um sorriso amargo e prosseguiu:

— Enquanto você estiver em tratamento, nos­sas viagens estão sustadas. Não é hora de São Lourenço...

— Minha estação curativa será outra.

— Não me fale em pessimismo... Ora, ora... Onde a primavera de nossa casa? Você anda esquecida de que nos ensinou a colocar alegria em tudo? Largue os ares sombrios... Ainda ontem, ouvi nosso médico. Você entrará em convalescen­ça, ja, ja... Amanhã, tomarei providências definitivas para que o barraco seja levantado. Você estará restabelecida em breve e ambos iremos ao primeiro café em casa de nossa Olímpia...

Dona Beatriz, ante o carinho dele, pareceu rea­nimar-se. Entreabriu-se-lhe a boca num largo sor­riso, que se me afigurou uma flor de esperança num cacto de sofrimento.

Aqueles olhos imensamente lúcidos derrama­ram duas lágrimas de felicidade que o esposo enxugou com gracioso gesto. Na face amarei ada, lampejaram raios de confiança.

Experimentando-se mentalmente renovada, a enferma acreditou no reerguimento do corpo físico e ansiou viver, viver por muito tempo ainda no aconchego familiar. Manifestando o próprio recon­forto, solicitou de Marina uma chávena de leite.

A enfermeira atendeu, comovida. E, enquanto a doente sorvia o líqüido, gole a gole, refleti na bondade daquele homem que a palavra do compa­nheiro me apresentara noutras cores.

O pensamento de Nemésio revelara-se-nos, até ali, claro e puro. Trazia Dona Beatriz no cérebro, nos olhos, nos ouvidos, no coração. Dispensava-lhe a compreensão de um amigo, a ternura de um pai.

Neves endereçava-me estranho olhar, qual se estivesse, tanto quanto eu, defrontado por indizível assombro.

Alguns momentos escoaram-se, rápidos.

Quando a enferma devolveu a xícara, outro quadro se nos desdobrou à visão.

Nemésio levantara-se rente ao leito e, por trás da cabeceira alteada, estendeu à Marina, que se mantinha do lado oposto, a mão grossa e hirsuta a que ela entregou a destra alva e leve.

O marido passou, então, a falar brandas pa­lavras para a esposa satisfeita, afagando, simultaneamente, os róseos dedos da jovem que, pouco a pouco, se desinibia, através do olhar brejeiro.

Contemplei Nemésio, admirado. Alteravam-se-lhe agora os pensamentos, que me pareceram, então, incompatíveis com a sensação de respeitabili­dade que ele nos inspirava.

Voltei-me, instintivamente, para Neves, e ele, indicando-me as duas mãos que se acariciavam, uma à outra, exclamou para mim:

— Este homem é um enigma.
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