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Capítulo 4
Acomodados, de novo, no aposento próximo. buscava soerguer o ânimo de Neves, positivamente desapontado.

Arrojara-se o companheiro ao clima da digni­dade ofendida, dando a impressão de que a família encarnada ainda lhe pertencia. Exprobrava a con­duta do genro. Exalçava os merecimentos da filha. Aludia ao passado, quando ele próprio vencera lan­ces difíceis na luta sentimental.

Desculpava-se.

Ouvia-lhe, condoído, os apontamentos, a refle­tir, de minha parte, quanto à dificuldade com que somos todos nós defrontados para dissipar a ilusão da posse sobre os outros. Não fosse a obrigação de respeitar-lhe os sentimentos e, certo, me exor­bitaria, ali mesmo, em comprida tirada filosófica, recomendando o desprendimento: contudo, logrei apenas confortá-lo:

— Não se aflija. Desde muito aprendi que para as pessoas desencarnadas, quase sempre, as portas do lar se fecham no mundo, quando a morte lhes cerra os olhos.

Entretanto, não pude prosseguir.

À guisa de duas crianças enlevadas e jubilosas, Nemésio e Marina penetraram a câmara, fugindo claramente à presença da enferma.

Guardavam no semblante a expressão dos na­morados felizes, quando alimentam o clássico «en­fim sós», trancando-se contentes.

Dispus-me, instintivamente, a sair, mas Neves sustou-me o impulso de retirada, convidando-me, aturdido:

— Fique, fique... Não louvo a indiscrição; no entanto, estou, ao lado de minha filha, em sentido direto, simplesmente há alguns dias e devo saber o que ocorre, para ser útil...

A esse tempo, Nemésio enlaçara a enfermeira, qual se voltasse, de improviso, aos arrebatamentos da juventude. Amimava-lhe as mãos miúdas e os cabelos sedosos, reportando-se ao futuro. Justifi­cava-se, copiando as preocupações de um adoles­cente, interessado em vacinar a escolhida contra o ciúme. Deveriam ser bons para Beatriz, às portas do fim, e agradecer ao

Destino que os livrava dos aborrecimentos e percalços de um desquite, mesmo amigável...

Ouvira o médico, na véspera, infor­mando-se de que a doente não conseguiria viver mais que algumas semanas. E sorria, qual menino travesso, explicando que não admitia a sobrevivên­cia da alma; no entanto, a seu ver, se houvesse vida além da morte, não desejava que a esposa par­tisse, nutrindo por eles ressentimentos quaisquer. Apaixonado, procurava convencer-se de que se via correspondido, cravando a atenção nos olhos enig­máticos da companheira, a quem se reconhecia ima­nizado por intensa atração.

Marina retribuia, como quem se deixava querer bem; no entanto, apresentava o fenômeno singular da emoção jungida a ele e o pensamento voltado ao outro, empenhando-se, por todos os meios, a en­contrar nesse outro o incentivo necessário a essa mesma emoção.

Nemésio comentava os próprios empeços, sen­sibilizado.

Confessava-lhe devoção inexcedível. Não a que­ria de ânimo inquieto. De futuro, abandonaria os negócios. Viveriam felizes, na casinha de São Con­rado, que transformaria em bangalô confortável, entre o verde do mar e o verde da terra. Mandaria aprestar a reconstrução em estilo novo, a fim de que a moradia os recebesse, no momento oportuno. Que ela confiasse. Aguardaria apenas a modificação do próprio estado social para conferir-lhe o título de esposa, esposa para sempre.

Isso tudo era dito num jogo de manifestações carinhosas em que a sinceridade prevalecia num lado e o cálculo no outro.

Assinalei, porém, estranha ocorrência.

Ele e ela comunicavam-se, entre si, as mais ternas expansões de encantamento recíproco, sem ser dissoluto, e pareciam aderir, automaticamente, às impressões que esboçávamos, de vez que acom­panhávamos os mínimos gestos dos dois, com agu­çada observação, prejulgando-lhes os desígnios com o fundo de nossas próprias experiências inferiores já superadas.

Semelhantes registros que formulamos, com absoluta imparcialidade, são dignos de nota, porqüanto, atento qual me achava ao estudo, vimo-nos obrigados a reconhecer que a nossa expectativa maliciosa, aliada ao espírito de censura, estabelecia correntes mentais estimulantes da turvação psíqui­ca de que ambos se viam acometidos, correntes essas que, partindo de nós na direção deles, como que lhes agravava o apetite sensual.

O marido de Beatriz acentuava, em transpor­tes de felicidade juvenil, embora a voz ciciante, o anseio com que lhe aguardava o carinho perma­nente no refúgio caseiro.

De inopinado, porém, a jovem prorrompeu em pranto copioso.

O companheiro beijou-lhe a face, aspirando a aliviar-lhe a tensão convulsiva.

De nosso lado, entretanto, reparávamos que Marina se fixava, cada vez mais, no moço cuja fi­gura se lhe engastava à imaginação.

Escabroso, sem dúvida, o conflito de que se verificava possuída, à vista da sinceridade inequívoca de todas as promessas que lhe eram endere­çadas.

Olvidando os compromissos abraçados, perante a esposa, que lhe requisitava, naquela hora, mais amplas evidências de fidelidade e ternura, bandea­ra-se o chefe da casa, apaixonadamente, para ela, entregando-se-lhe sem reservas. Inteligente bastan­te para entender quanto se lhe debilitara o racio­cínio de homem circunspecto, a menina identificava a fase perigosa da partida infeliz a que se lançara e aturdia-se, ali, confundida entre aflições e remor­sos a lhe arpoarem o coração.

Compelidos pelas circunstâncias à penetração dos assuntos em exame, assinalávamos as telas mentais da moça, a se lhe derramarem do Intimo, irradiando-lhe a história.

Fizera-se querida pelo maduro genro de Neves, sem dedicar-lhe outros sentimentos que não fossem reconhecimento e admiração... Todavia, agora que os acontecimentos lhe impeliam a alma na direção de laços mais profundos, tremia pelas indébitas con­cessões que lhe havia feito. Remoía-lhe no espírito as recônditas reminiscências de sua aventura afe­tiva, recapitulando todos os sucessos pelos quais havia atraído o protetor experiente aos seus mé­todos sutis de sedução, para concluir, assustada, que amava até à loucura aquele rapaz franzino, que se lhe destacava do pensamento, através de cativantes apelos da memória.

Dentro dela, embatia-se guerra terrível de emo­ções e sensações.

Nemésio consolava-a, formulando frases de pa­ternal solicitude. E, ao responder-lhe às reiteradas perguntas, quanto ao choro intempestivo, a jovem adotou largo processo de perfeita dissimulação, in­vocando problemas domésticos para articular eva­sivas com que encobria a realidade.

Tentando esquivar-se de si mesma, reportou-se a supostas agruras do lar. Salientou exigências maternas, falou em dificuldades financeiras, ale­gou fantásticas humilhações que colhia no trato da irmã adotiva, mencionou incompreensões do geni­tor, em rixas constantes nos círculos da família...

O interlocutor reconfortou-a. Que não se amo­finasse. Não estaria a sós. Partilhar-lhe-ia todos os impedimentos e dissabores, fossem quais fossem. Tivesse paciência. O desenlace de Beatriz, indicado para breves dias, ser-lhes-ia o marco fundamental da ventura definitiva.

Exprimia-se Nemésio em tom de súplica. E talvez percebendo que apenas à força de palavras não conseguiria subtrai-la aos soluços, arrancou de pasta próxima um livro de cheques, colocando-lhe expressivo concurso amoedado nas mãos que o len­ço molhado umedecera.

A moça pareceu mais comovida, exibindo no rosto a apreensão de quem se recriminava sem qual­quer justificativa de consciência, ao passo que ele a enlaçava, afetuoso. No silêncio que sobreveio, voltei-me para Neves, mas não consegui pronunciar palavra.

Não obstante desencarnado, o amigo se me afi­gurava agora um homem positivamente vulgar da Terra, que a revolta azedava. Sobrecenho crispado alterava-lhe a feição no desequilíbrio vibratório que precede as grandes crises de violência.

Receava se lhe transfigurasse a calamidade emotiva em agressão, mas sucedeu o imprevisto.

A súbitas, venerando amigo espiritual pene­trou a câmara.

Arrebatadora expressão de simpatia marcava-lhe a presença. Radioso halo circundava-lhe a cabeça; no entanto, não era a luz suave a se lhe extravasar docemente da aura de sabedoria que me impressionava e sim a substância invisível de amor que lhe emanava da individualidade sublime.

Fitei-lhe os olhos, de relance, com a idéia en­ternecedora de quem revia um companheiro, longa­mente esperado por aflitivas saudades acumuladas no coração.

Fluidos calmantes banhavam-me todo, qual se fosse visitado no âmago do ser por inexplicáveis radiações de envolvente alegria.

Onde teria conhecido, nas trilhas do destino, aquele amigo que se me impôs ao sentimento qual irmão de velhos tempos? Debalde vascolejei a me­mória naqueles segundos inolvidáveis.

Num átimo, vi-me recambiado às sensações pu­ras da infância. O emissário, que estacara à frente de nós, não me fazia retomar simplesmente a se­gurança a que me habituara, quando menino, ante os braços paternos, mas também ao carinho de minha mãe, que nunca se me apartara do pensa­mento.

Oh! Deus, em que forja da vida se constituem esses elos da alma? em que raízes de júbilo e so­frimento, através das reencarnações numerosas de trabalho e esperança, dívidas e resgates, se compõe a seiva divina do amor que aproxima os seres e lhes transfunde os sentimentos numa só vibração de confiança recíproca?

Levantei meus olhos de novo para o benfeitor que se avizinhava e fui compelido a sofrear a pró­pria emotividade a fim de não retê-lo instintiva-mente em arremessos de regozijo.

Erguemo-nos de chofre.

Após cumprimentá-lo, disse Neves, então desa­nuviado, a apresentar-me quase sorrindo:

— André, abrace o Irmão Félix...

Adiantou-se, porém, o recém-chegado, ofertan­do-me um abraço e proferindo saudação calorosa, com o evidente propósito de frustrar quaisquer elo­gios no nascedouro.

— Grande contentamento o de vê-lo — disse, benevolente.

— Deus o abençoe, meu amigo...

A comoção, entretanto, imobilizava-me. Não lo­grei arrancar do coração à boca as expressões com que anelava pintar o meu enlevo, mas osculei-lhe a destra com a simplicidade de uma criança, rogan­do-lhe mentalmente receber as lágrimas que me caíam da alma, por mudo agradecimento.

Ocorreu, em seguida, algo de inusitado.

Nemésio e Marina transferiram-se, de repente, a novo campo de espírito.

Confirmei a impressão de que a nossa curio­sidade enfermiça e a revolta que dominava Neves até então haviam funcionado ali por estímulos ao magnetismo animal a que se ajustavam os dois enamorados, que nem de leve desconfiavam da mi­nuciosa observação a que se viam sujeitos, porqüanto bastou que o irmão Félix lhes dirigisse compassivo olhar para que se modificassem, incon­tinenti.

A visão de Beatriz enferma cortou-lhes o es­paço mental, à feição de um raio. Esmoreceram-se-lhes os estos de paixão. Assemelhavam-se ambos

a um par de crianças, atraidas uma para a outra,

cujo pensamento se transfigura, de improviso, ante

a presença materna.

E não era só isso. Não podia auscultar o mun­do Intimo de Neves; contudo, de minha parte, sú­bita compreensão me inundou a alma.

E se eu estivesse no lugar de Nemésio? Es­taria agindo melhor? — Silenciosas indagações se me incrustavam na consciência, impelindo-me o es­pírito a raciocinar em nível mais alto.

Fitei o atribulado chefe da casa, possuido de novos sentimentos, percebendo nele um verdadeiro irmão que me cabia entender e respeitar.

Embora confessando a mim mesmo, com indis­farçável remorso, a impropriedade da atitude que assumira, momentos antes, prossegui estudando a metamorfose espiritual que se processava.

Marina passou a revelar benéfica reação, como me estivesse admiravelmente conduzida em ocorrên­cia mediúnica, de antemão preparada. Recompôs-se, do ponto de vista emotivo, patenteando integral desinteresse por qualquer forma de entretenimento físico, e falou, com delicadeza, da necessidade de voltar aos cuidados que a doente exigia. Nemésio, a refletir-lhe a renovada posição interior, não ofe­receu qualquer embargo, acomodando-se em pol­trona próxima, enquanto a jovem se retirava, tran­qüila.

Reparei que Neves ansiava conversar, desaba­far-se; no entanto, o benfeitor, que nos granjeara os corações, apontou o esposo de Dona Beatriz e convidou:

— Meus amigos, nosso Nemésio está seriamen­te enfermo, sem que ainda o saiba. Ignoro se já lhe notaram a deficiência orgânica... Procuremos socorrê-lo.

Capítulo 5
Imperfeitamente refeitos do assombro que seme­lhante atitude nos causava, passamos a colaborar com o irmão Félix, na aplicação de recursos, a beneficio do amigo que, embora nos desconhecesse a presença, se mantinha agora em aturada reflexão.

Ao contacto das mãos do benfeitor que mobi­lizava, proficiente, a energia magnética, Nemésio expunha as deficiências do campo circulatório.

O coração, consideravelmente aumentado, de-notava falhas ameaçadoras com endurecimento das artérias.

O examinando, rebuçado por fora, era enfermo grave por dentro. Entretanto, a característica mais constrangedora que apresentava surgia na arterios­clerose cerebral, cujo desenvolvimento conseguía­mos claramente positivar, manejando diminutos aparelhos de auscultação.

Comprovando longa experiência médica, o ir­mão Félix apontou-nos determinada região, em que notei a circulação do sangue reduzida, e informou:

— Nosso amigo permanece sob o perigo de coágulos bloqueadores e, além disso, é de temer-se a ruptura de algum vaso em qualquer acidente mais importante da hipertensão.

Como se nos percebesse a movimentação e nos registrasse os apontamentos, o genro de Neves, na cadeira estofada a que se recolhera, instintiva-mente respondia ao inquérito afetuoso a que lhe submetíamos a memória, elucidando-nos todas as dúvidas, através de reações mentais específicas. Acreditava-se afundado na imaginação, ignorando que se nos revelava, por inteiro, na feição de um doente voltado para os esclarecimentos da anamne­se. Rememorou as tonturas ligeiras que vinha ex­perimentando amiúde. Vasculhava a lembrança, atendendo-nos às perguntas. Alinhava aconteci­mentos passados, fixava pormenores. Reconstituiu, quanto possível, as fases do desconforto a que se vira atirado, subitamente, com a perda dos senti­dos que sofrera, no escritório, dias antes. Senti­ra-se desamparado, de chofre. Ausente. O pensa­mento esvaíra-se-lhe da cabeça, como se expulso por martelada interior. Pavoroso delíquio que se lhe representara infindável, quando perdurara sim­plesmente por segundos. Retomara a noção de si mesmo, atarantado, abatido. Curtira apreensões, ensimesmado, por muitos dias.

Para desafrontar-se, expusera a ocorrência pe­rante velho amigo, na antevéspera, já que não sabia como destrinçar o fenômeno.

A tela rearticulada por ele, na imaginação, sa­lientava-se tão nítida que lográvamos contemplá-los juntos, Nemésio e o companheiro que lhe tomara confidências, como se estivessem filmados.

O marido de Beatriz, inconscientemente, confi­gurava informes precisos, acerca do desmaio expe­rimentado, das inquietações conseqüentes, da entre­vista que provocara com o colega de negócios e do entendimento cordial havido entre ambos.

Consignamos os avisos que o interlocutor lhe transmitira.

Não lhe cabia adiar providências. Devia pro­curar um médico, analisar as próprias condições, definir os sintomas. Traçou advertências. Verifi­cava-se-lhe facilmente a fadiga. No Rio, obteria melhoras em alguma clínica de repouso. Umas fé­rias não lhe fariam mal. Qualquer síncope, a seu ver, equivalia a puxão de campainha, no aparta­mento da vida. Sério vaticínio, enfermidade à porta.

Nemésio, calado, sem perceber que se comuni­cava conosco, repetia espiritualmente as alegações que formulara.

Difícil a consulta. Responsabilidades em pen­ca, o tempo escasso. Acompanhava a esposa, na travessia das horas derradeiras, em doloroso tér­mino de existência e não encontrava meios de cuidar de si. Não discutia a oportunidade das admoesta­ções, mas admitia-se obrigado a transferir o tra­tamento para quando pudesse.

No entanto, no âmago do pensamento, por no­ticiário vivo secretamente arquivado no cofre da alma, desvelava, para nós, motivos outros que não tivera coragem de expender.

Enternecido ao toqde de amor fraterno do ben­feitor que o auscultava, liberou, em silênçio, as mais fundas preocupações.

Semelhava-se a menino peralta, quando espon­tâneo e obediente no clima dos pais.

Aclarou, positivo, a razão da fuga a qualquer assunto relacionado com a provável submissão a preceitos médicos. Receava conhecer o próprio es­tado orgânico. Amava, novamente, crendo-se de regresso às primaveras do corpo físico. Identifi­cava-se espiritualmente jovem, feliz. Qualificava a afeição de Marina como sendo o reencontro da mo­cidade que ficara para trás.

Alinhavando recordações e meditações, exibia, diante de nós, a trama dos acontecimentos que lhe sedimentavam as noções precárias da vida, possibi­litando-nos retratar-lhe a realidade psicológica.

Beatriz, a companheira em vésperas de desen­carnação, erigia-se-lhe, agora, no ânimo, em forma de relíquia que situaria, reverentemente, em breve, no museu das lembranças mais caras.

Imperturba­velmente correta e simples, transformara-lhe a vo­lúpia em admiração e a chama juvenil em calor de amizade serena. Estranho ao benefício da rotina construtiva, colocara a esposa no lugar da genitora que a morte levara. Disputava-lhe, por instinto, o sorriso benevolente e a bênção da aprovação. Que­ria-lhe a presença, como quem se acostuma ao ser­viço de um traste precioso. Harmonizava-se consigo próprio, ao chegar, suarento, em casa, descansando a cabeça fatigada em seu olhar.

Entretanto, Nemésio, de formação materialista e de índole utilitária, conquanto generoso, desconhe­cia que as almas nobres colhem no amor esponsa­lício da Terra o fruto da alegria sublime, cuja polpa o tempo sazona e torna mais doce, eliminando os caprichos transitoriamente necessários da casca.

Insistia na conservação de todos os impulsos emotivos da juventude corpórea. Andava em dia com todas as teorias da libido.

Vez por outra, demandava cidades próximas, em noitadas boêmias, asseverando, de retorno, aos amigos que assim procedia para desenferrujar o coração. Dessas escapadas, voltava trazendo à es­posa corbelhas de alto preço que Beatriz acolhia, enlevada. No decurso de algumas semanas, mostra­va-se para ela mais compreensivo e mais terno. Reconduzido, porém, mais dilatadamente, aos freios do hábito, não sabia consagrar-se às construções espirituais que só a disciplina favorece e garante. Varava, de novo, as fronteiras que os compromissos morais estabeleciam, à maneira de animal arrom­bando cerca.

Em determinadas ocasiões, acontecia fixar a esposa, invariavelmente abnegada e fiel, perguntan­do à própria alma o que sucederia se ela adotasse conduta igual à dele, e aterrava-se.

Isso nunca, pensava. Se Beatriz pusesse, ainda que de leve, o voto feminino em outro homem, era capaz de matá-la. Não hesitaria.

Nesses momentos, impressões contraditórias agitavam-lhe o espírito limitado. Não se interessa­va absolutamente pela mulher, mas não toleraria concorrência à posse daquela a quem confiara o seu nome.

Inquietava-se, imaginava coisas, mas recompu­nha-se, tranqüilo, recordando a esquisita conceitua­ção de velho amigo que consumira a existência alcoolizado entre os despojos endinheirados de pa­rentes ricos, e que lhe tisnara os sonhos do lar, quando menino, a repetir-lhe, freqüentemente: «Ne­mésio, mulher é chinela no pé do homem. Quando não presta mais, é preciso arranjar outra.

Compreensível que, regando a raiz do caráter com as águas turvas de semelhante filosofia, atin­gisse o genro de Neves o marco dos sessenta anos com os sentimentos deteriorados, no tocante ao res­peito que um homem deve a si mesmo.

Por todos esses motivos, na quadra difícil e obscura que atravessava, reaprendera os cuidados da preservação individual.

Readquirira o gosto de vestir-se com distinção, selecionando figurinos e alfaiates. Refinara a sen­sibilidade masculina, afeiçoara-se aos programas radiofônicos de ginástica, no que, aliás, lograra des­pojar-se da adiposidade oscilante. Disputava o in­gresso em agremiações festivas para atualizar a linguagem e requintar o porte.

Não lhe importavam as tochas brancas que lhe esmaltavam de prata a cabeleira densa. Elegia nos perfumes raros e nas gravatas coloridas motivos de leveza e elegância sempre novos.

Pagara habilmente instruções e pareceres de improvisados professores em renovação da perso­nalidade e embelezara-se, vaidoso, lembrando antigo edifício sob nova decoração.

Evidentemente, não — raciocinava, apreen­sivo —, não se resignaria a qualquer terapêutica que não fosse a de se lhe acentuar disposições ao prazer. Recusaria, peremptório, toda medida ende­reçada a suposto reajustamento orgânico, já que se supunha perfeitamente idôneo para comandar as próprias sensações. Euforia, o problema. Providência medicamentosa, apenas a que lhe arejasse o espírito, rejuvenescendo-lhe as forças.

O irmão Félix voltou a dizer-nos:

— Nemésio demonstra enorme esgotamento, àvista dos hábitos demolidores a que se rendeu.

A inquietação emotiva descontrola-lhe os nervos e os falsos afrodisíacos usados solapam-lhe as energias, sem que ele mesmo perceba.

Diante da afirmativa, o esposo de Beatriz fixou agoniado vinco mental, entremostrando haver assi­milado, mecanicamente, o impacto do grave enun­ciado.

— E se piorasse? — considerou de si para si.

A figura de Marina repontou-lhe da alma.

Nemésio divagou, cismarento.

Concordaria, sim, em recuperar a saúde, mas somente depois... Depois que retivesse a jovem no lar, entregue a ele, em definitivo, pelos laços do matrimônio. Enquanto não a recolhesse, nos bra­ços, sob regime de compromisso legal, não aceita­ria proteção médica. Cabia-lhe sustentar-se capaz e moço aos olhos dela. Fugiria deliberadamente de conselhos ou disciplinas tendentes a desviá-lo da ronda de passeios, excursões, entretenimentos e bebedices que, na posição de homem enamorado, acreditava dever-lhe.

O irmão Félix não contrapôs qualquer argu­mentação. Ao revés, administrou-lhe recursos magnéticos em toda a província cerebral, dispensando-lhe assistência.

Ao término da longa operação socorrista, Neves, taciturno, não encobria o próprio desapontamento. A desaprovação esguichava-lhe da cabeça, plasman­do pensamentos de censura, que, não obstante res­peitosa, nos alcançavam em cheio, por chuva de vibrações negativas.

Talvez, por isso, o benfeitor sugeriu ao dono da casa abandonar o recinto, solicitação muda que Nemésio atendeu, de pronto, já que se munira das escoras que o amigo espiritual espontaneamente lhe oferecia.

Os três, a sós, tornamos à conversação.

Félix, sorrindo, afagou de leve os ombros do meu companheiro e ponderou:

— Entendo, Neves, entendo você...

Encorajado pela inflexão de carinho com que semelhantes palavras eram ditas, o sogro de Nemé­sio desafogou-se:

— Quem entende menos sou eu. Não admito tanto resguardo para um cachorro de má qualida­de. Um homem igual a este, que me desrespeita a confiança paterna! Quem não lhe vê no espírito a poligamia declarada? Um sessentão desavergo­nhado que enxovalha a presença da esposa agoni­zante! Ah! Beatriz, minha pobre Beatriz, por que te uniste a um cavalo?

Dementara-se Neves, diante de nós. Retroce­dera mentalmente ao círculo acanhado da família humana e chorava, transtornado, sem que lhe pu­déssemos cercear a emoção.

— Faço força — gemia acabrunhado —, mas não agüento. De que me vale trabalhar odiando? Nemésio é um mascarado! Tenho estudado a ciência de perdoar e servir, tenho aconselhado serviço e perdão aos outros, mas agora... Divididos por simples parede, vejo o sofrimento e o vício debaixo do mesmo teto. De um lado, minha filha confor­mada, aguardando a morte; de outro, meu genro e essa mulher que me insulta a família. Deus do céu! que me foi reservado? Andarei auxiliando uma filha doente ou sendo chamado à tolerância? Mas, como suportar um homem desses?

Não adiantou um aceno à prudência, na pausa curta.

— Antigamente — tartamudeou ele, desespe­rado — acreditava que o inferno, depois da morte, fosse pular em vão num cárcere de fogo; hoje aprendo que o inferno é voltar à Terra e estar com os parentes que já deixamos... Isso é a purgação de nossos pecados!...

Félix aproximou-se e ponderou, segurando-lhe afetuosamente as mãos:

— Calma, Neves. Sempre surge para todos nós o dia de provar aquilo que somos naquilo que en­sinamos. Além disso, Nemésio deve ser entendido...

— Entendido? — entaramelou-se o interlocu­tor — não chegará ter visto?

E acrescentou, quase irônico:

— Sabe o senhor qual é o rapaz que vem ocu­pando o pensamento dessa moça?

— Sei, mas deixa-me explicar — clareou Félix com brandura. — Principiemos por aceitar Nemésio na posição em que se encontra. Como exigir da criança experiência da madureza ou pedir raciocí­nio certo ao alienado mental? Sabemos que cresci­mento do corpo não expressa altura de espírito. Nemésio é aluno da vida, qual nós mesmos, sem o benefício da lição em que estamos sendo instruí­dos. Que seria de nós, na situação dele, sem a visão que atualmente nos favorece?

Provavelmente, cai­ríamos em condições piores...

— Quer dizer que devo aprová-lo?

— Ninguém aplaude a enfermidade, nem louva o desequilíbrio; no entanto, seria crueldade recusar simpatia e medicação ao doente. Consideremos que Nemésio não é um companheiro desprezível. Ema­ranhou-se em sugestões perigosas, mas não fugiu da esposa a quem presta assistência; mostra-se en­godado por extravagâncias emotivas de caráter de­primente que lhe dilapidam as forças; contudo, não esqueceu a solidariedade, resolvendo oferecer casa própria e gratuita à senhora que lhe presta servi­ços remunerados; acredita-se dono de juvenilidade física absolutamente irrisória, quando, na realida­de, carrega um corpo em prematuro desgaste; dedi­ca-se apaixonadamente a uma jovem que o menos­caba, conquanto lhe consagre apreço respeitoso...

Não bastariam estas razões para merecer benevolência e carinho? Quem de nós com a possibilidade de auxiliar? Ele que anda cego ou nós que discer­nimos? Não posso enaltecer-lhe as manobras la­mentáveis, na esfera do sentimento; entretanto, sou obrigado a confessar que ele, na ficha de anal­fabeto das verdades da alma, ainda não tombou de todo...

Com significativo tom de voz, o instrutor acen­tuou:

— Neves, Neves! A sublimação progressiva do sexo, em cada um de nós, é fornalha candente de sacrifícios continuados. Não nos cabe condenar al­guém por faltas em que talvez possamos incidir ou nas quais tenhamos sido passíveis de culpa em outras ocasiões.

Compreendamos para que sejamos compreendidos.

Neves silenciou, decerto controlado pela influên­cia do amigo venerável, e, quando consegui fitá-lo, depois de alguns momentos de expectativa, percebi que se pusera, humildemente, em oração.
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