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Capítulo 7
Entramos em aposento contíguo, onde encon­tramos jovem franzina, em dorida atitude.

Sentada num dos leitos que se estiravam no quarto gracioso e limpo, refletia, torturada, permitindo-nos entre-ver-lhe o drama oculto.

O irmão Félix apresentou-a.

Tratava-se de Marita, que os donos da casa haviam perfilhado ao nascer, vinte anos antes.

Bastou uma vista de olhos para que me con­doesse ao contemplá-la. Rosa humana, embora exa­lasse a fragrância da juventude, aquela moça, quase menina, de mãos enclavinhadas sob o queixo, ma­tutando, parecia carregar o peso estafante de tri­bulações cronicificadas e dolorosas.

Figurava-se-lhe a cabeleira ondeada lindo toucado de veludo cas­tanho sobre a cabeça. O rosto esculpido em linhas raras, os olhos escuros contrastando com a bran­cura da tez, as mãos pequenas e as unhas róseas complementavam belo manequim de carne, apresen­tando por dentro uma criança assustada e ferida.

Tristeza maquilada. Aflição no disfarce de flor.

Obedecendo a instruções de Félix, abordei-a, enternecido, rogando-lhe, mentalmente, algo escla­recesse, em torno de si própria.

Desde o contacto com Nemésio, o benfeitor ensaiava-me, provavelmente sem querer, em novo gênero de anamnese: consultar o enfermo espiritual em pensamento, evidenciando a terna compreensão que um pai deve aos filhos, a fim de pesquisar conclusões para o trabalho assistencial.

Compelido a operar individualmente, recompus emoções.

Recobrei os sentimentos paternais que me ha­viam animado entre os homens e cravei o olhar indagador naquela criaturinha cismarenta, imagi­nando-a por filha de minha alma.

Solicitei-lhe, sem palavras, confiasse em nós, de­soprimíndo-se. Relacionasse, por gentileza, as suas impressões mais recuadas no tempo. Desenovelasse o passado. Reconstituisse na lembrança tudo o que soubesse de si, nada escondesse.

Propúnhamo-nos auxiliá-la. Não conseguiría­mos, porém, agir ao acaso. Era imprescindível que ela se nos revelasse, arrancando à câmara da me­mória as cenas arquivadas desde a infância, expon­do-as na tela mental para que as analisássemos, imparcialmente, de maneira a conduzir as ativida­des socorristas que intentaríamos desenvolver.

Marita assimilou-nos o apelo, de imediato. In­capaz de explicar a si mesma a razão pela qual se via instintivamente constrangida a rememorar o pretérito, situou o impulso mental no ponto em que obtinha o fio inicial das suas recordações.

Os quadros da meninice se lhe estamparam na aura, movimentados como num filme.

Vimo-la pequenina, hesitante, nos passos pri­meiros.

E, enquanto desfilavam os painéis ingênuos do que lhe havia acontecido, logo após o soerguimento do berço, ela alinhavava elucidações inarticuladas, respondendo-nos às perguntas.

Sim — relembrava, supondo falar consigo —, não era filha dos Nogueiras. Dona Márcia, a espo­sa de Cláudio, adotara-a. Nascera de jovem suicida. Aracélia, a mãezinha que não conhecera, fora to­mada a serviço do casal, por ocasião do matrimônio daqueles que o destino lhe impusera na condição de pais. Quando se entendera por gente grande, a genitora de Marina lhe dera a saber, através de informações pessoais, a breve história da mulher simples e pobre que a trouxera ao mundo. Recém-chegada do interior, procurando emprego humil­de, Aracélia acolhera-se-lhe à moradia, encaminhada por senhora de suas relações. Era bonita, espon­tânea. Brincava, gostava de festas. Findos os com­promissos caseiros, divertia-se. Pela ternura ex­pansiva, granjeara amizades, passeava, dançava. Alegre e comunicativa, mas operosa e correta. As vezes, regressava, tarde da noite, ao aposento que a família lhe destinara; de manhãzinha, porém, es­tava no posto. Nunca se queixava. Invariavelmente prestimosa, a desvelar-se do tanque à cozinha. A vista disso, embora os patrões não lhe estimassem as companhias pouco recomendáveis, não se sen­tiam com direito a lançar-lhe reproches. Dona Már­cia era habitualmente precisa nas referências. Lem­brava-se dela, enternecida. Por ocasião do nasci­mento de Marina, a filha única, fizeram-se mais amigas, mais íntimas. Aracélia desdobrara-se, junto dela, em carinho e dedicação. Contudo, justamente nessa época, verificara-se a grande mudança. A doméstica devotada engravidara-se, com muito padecimento físico. Por mais se esforçassem os donos da casa, instando a que se manifestasse quanto ao responsável pela situação, apenas chorava, abolindo qualquer possibilidade de se lhe tentar casamento digno. Sabia-se que, freqüentando bailes a rodo, decerto se precipitara em aventuras diversas. Com­padecidos, os patrões deram à jovem mãe solteira a mais ampla assistência, inclusive internando-a em estabelecimento adequado, para que a criança nas­cesse sob o amparo possível.

Nesse tópico das amargosas reminiscências, a menina estacou, mentalmente, qual se estivesse can­sada de pensar no mesmo assunto. Fora assim que ela, Marita, chegara ao mundo.

Marejaram-se-lhe os olhos de lágrimas, esta­belecendo confronto entre as provações da mãezi­nha e as dela própria; no entanto, para não distrair a pesquisa em curso, sugeri-lhe continuasse.

Dona Márcia contara-lhe — prosseguiu no so­lilóquio — que, retornando a casa, mostrara-se Ara­célia irremediavelmente abatida. Lágrimas inces­santes, irritação, melancolia. Não valeram adver­tências, nem cuidados médicos. Na noite em que sorveu grande dose de formicida, conversara ani­madamente com a patroa, fornecendo a impressão de que se recuperava. Entretanto, pela manhã, foi achada morta, com uma das mãos agarrada ao seu berço, como se, na última hora, não lhe quisesse dizer adeus.

Fundamente comovida, a jovem procurou, em vão, revisar o começo, interessada em relatar-nos quanto conhecia de si mesma. Certificava-se tão-somente de que despertara para a vida no colo de Dona Márcia, que considerara, a principio, sua mãe verdadeira, que se ligava a Marina como se lhe fosse irmã no sangue, apegando-se a ela em todos os brincos da infância. Juntas freqüentaram a escola, juntas comungaram a meninice. Parti­lhavam excursões e entretenimentos, alegrias e jo­gos. Manuseavam os mesmos livros, vestiam cores iguais.

Processava-se a análise, normalmente, mas, tal­vez porque o tempo avançasse, o irmão Félix se despediu, alegando obrigações urgentes. Serviços na instituição pela qual se responsabilizava não lhe permitiam delongar a visita.

Asseverou, gentil, que nos hipotecava confiança. Observou, com a delicadeza do chefe que solicita, ao invés de mandar, que esperava por zelosa aten­ção de nossa parte, ao pé daquela menina inexpe­riente, enquanto a prestação de concurso fraterno se nos tornasse possível.

Enunciando a petição, no­tava-se-lhe o embaraço. Compreendi que ele, es­pírito superior, ali se achava por generosidade, àfeição do professor destacado e enobrecido que des­ce de sua cátedra para alentar o ânimo de alunos detidos no alfabeto.

Ele sorriu com desapontamento, percebendo a interpretação que me assomara à cabeça, e escla­receu, discreto, que possuia fortes razões para con­sagrar-se à felicidade daquela casa, com entranhado afeto; entretanto, a família teimava em fugir de toda atividade religiosa ou beneficente.

Ninguém, ali, se interessava pelo cultivo da oração ou do es­tudo. Nenhum dos quatro componentes da equipe doméstica se inclinava para o serviço ao próximo. À face disso, não obstante amasse Cláudio com pa­ternal solicitude, não se sentia autorizado a locali­zar-lhe, na residência, servidores sob sua orienta­ção, sem objetivos sérios que lhe fundamentassem a atitude.

Não lhe sendo lícito assim proceder, satisfazen­do a mero capricho, reconhecia-se impelido a com­parecer, sob aquele teto, exclusivamente de quando em quando, ou rogar a colaboração de amigos iti­nerantes.

Neves e eu, pesarosos, ao vê-lo partir, des­tacamos nossas deficiências, mas prometemos boa-vontade. Permaneceríamos de sentinela e, se algu­ma eventualidade ocorresse, apelaríamos na direção dele.

Félix sorriu e informou que Amaro, o enfer­meiro de Beatriz, e cooperadores diversos operavam nas cercanias. Todos dedicados, amigos, prontos a auxiliar, embora sem qualquer obrigação para isso. Otimista, acrescentou que, na hipótese de neces­sidade, o pensamento preocupado funcionar-nos-ia por sinal de alarme.

Achamo-nos a sós, em serviço.

Findo o ligeiro intervalo, retomamos a análise em curso. Observei que Neves se esmerava, mais atentamente, em ser útil.

Marita, que se alheara das próprias reminis­cências, por instante rápido, voltou, automaticamen­te, a memorizar, expondo-nos à vista as telas do passado próximo, que lhe eram abordáveis ao co­nhecimento.

Mergulhada na imaginação, qual se devaneasse, em conta própria, surpreendia-se mentalmente no regaço materno ou colada à irmãzinha, na segu­rança inocente de quem se supunha plenamente ajustada ao quadro familiar. Revia Cláudio, a sustê-la nos braços, por flor tenra desabotoada num tronco juvenil, transmitindo-lhe a impressão de pai legítimo.

Oh! a felicidade fugidia da infância!. -. As do­ces convicções dos dias primeiros! Como suspirava pelo retrocesso do tempo para dormir na simpli­cidade!

Súbito, confrangeu-se-lhe a alma, como se im­placável bisturi lhe retalhasse os nervos. Vimo-la cair numa explosão de lágrimas. Coloriu-se-lhe na mente a festa distante que lhe havia comemorado o término do primeiro curso escolar, nove anos an­tes. Detinha-se no instituto garrido, nos adeuses aos colegas, nas palavras de saudação e reconheci­mento que proferira, feliz, diante dos mestres, e nos beijos que recebera sobre os cabelos a se lhe derramarem nos ombros.

Depois... em casa, o olhar diferente de Dona Márcia, no aposento à porta fechada.

Iniciara-se-lhe, desde então, o conflito da vida inteira. A revelação inesperada ferira-lhe o espí­rito, à maneira de pedra contundente. Esvaecera­-se-lhe, de improviso, a alegria infantil. Sentira-se criatura humana adulta, amadurecida e sofredora, de um momento para outro. Não era filha da casa. Era órfã, adotada pelos corações queridos, aos quais amava tanto, julgando pertencer-lhes.

Isso lhe arre­bentara o coração. Pela primeira vez, chorara com medo de enlaçar-se àquela a cujo peito se alberga­va, até ali, nas horas difíceis, como se se aninhasse no refúgio maternal. Sentia-se machucada, sozinha. Dona Márcia, diligenciando esclarecer com evidente bondade, explicava, explicava. Ela, até então me­nina estouvada e risonha, repentinamente tortura­da, ouvia, ouvia.

Ansiava perguntar o porquê de tudo aquilo, mas a voz calara-se-lhe na garganta. Era preciso aceitar a verdade, conformar-se, sofrer. Esforçara-se a mãe adotiva por diluir a amargura da notificação no bálsamo do carinho, mas não se esquecera de lhe dizer em tom conselheiral: «você deve crescer sabendo tudo, melhor saber hoje que amanhã; filhos adotivos, quando crescem ignoran­do a verdade, costumam trazer enormes complica­ções, principalmente quando ouvem esclarecimentos de outras pessoas)>, e acrescentara, diante do silên­cio em que ela afogava as próprias lágrimas: «não chore, estou apenas explicando; você sabe que cria­mos você por filha, mas é necessário que conheça a realidade toda; adotamos você, lembrando Ara­célia, tão amiga, tão boa.»

E os informes foram imediatamente comple­mentados com a exibição de fotografias e relíquias da genitora suicida, arrancadas de pequena caixa de madeira que Dona Márcia trouxera.

Espantada, revirara nervosamente nas mãos aqueles retratos e adereços de moça pobre.

Sensi­bilizara-se ao ver os colares de fantasia, os anéis de plaquê. Era tudo quanto restava daquela mãe que desconhecia. Contemplou a imagem dela nas fotos que o tempo amarelecera e experimentou pro­funda e indizível atração por aqueles olhos grandes e tristes que pareciam arrebatá-la do quarto para um mundo diferente.

Não amadurecera, porém, o raciocínio para pen­sar nas angústias daquela mulher que o sofrimento abatera. A reflexão, em torno da mãezinha desen­carnada, durara um momento só.

Achava-se melin­drada em demasia para deslocar-se facilmente da sua dor. Ouvira Dona Márcia, ao despedir-se, arre­cadando aqueles ternos vestígios do passado, sem prestar-lhe maior atenção. Aquelas palavras: «ado­tamos você, lembrando Aracélia tão amiga, tão boa», percutiam-lhe na cabeça.

Então, era assim que a despachavam para a estação da orfandade em que lhe competia viver?

E os beijos do lar que admitia lhe pertencerem? E os mimos domésticos que julgava partilhar com Marina em partes e direitos iguais?

Figurara-se-lhe Dona Márcia decididamente em­penhada em falar-lhe sem a menor manifestação do efusivo amor que lhe caracterizava os gestos de outras horas. Demonstrara-lhe carinho, sem dúvi­da, mas racionava os afagos, qual se quisesse tra­çar, dali em diante, severa fronteira entre ela e a família. Imaginava-se, por isso, esbulhada, ferida. Fora simplesmente albergada, tolerada, enganada. Não era filha, era órfã.

A inteligência precoce compreendia toda a si­tuação, conquanto não conseguisse inclinar-se, na­quele dia, a qualquer agradecimento pela compaixão de que se reconhecia objeto, assaltada qual se acha­va pelo orgulho infantil.

Em seguida a pausa rápida no curso das co­movedoras reminiscências, Marita desdobrou-nos à vista uma cena enternecedora e inesquecível.

De minha parte, nunca registrara uma dor de criança, assim, tão funda.

Ah! sim, aquele fato nunca mais se lhe des­vinculara da memória. Quando a esposa de Cláudio a deixou em pranto desconsolado, viu a cadelinha da casa, magra e anônima, que Marina, semanas antes, recolhera na rua. O animalzinho abeirara-se dela, como se lhe aderisse à mágoa, lambendo-lhe as mãos. Ela, por sua vez, retribuira-lhe a carícia, qual se lhe transferisse toda a carga de amor que acreditava lhe fora restituída naquele instante, por Dona Márcia, e, chorando, abraçou-se à cachorri­nha afetuosa, gritando num desabafo: «ah! «Jóia, não é só você que foi enjeitada! eu também...»

Desde esse dia, transfigurara-se-lhe a vida. Per­dera, de todo, a espontaneidade.

A partir da revelação que não mais se lhe desencravou do cérebro, conjeturava-se diminuída, lesada, dependente.

Semelhante suplício moral, que adquirira aos onze de idade, atenuava-se tão-somente pela dedi­cação incessante do pai adotivo que se lhe confir­mava mais terno, à medida que Dona Márcia e a filha se lhe afastavam da comunhão espiritual.

Era sozinha em assuntos de seu sexo.

Mãe e filha empenhavam-Se, deliberadamente, na abstenção de qualquer parecer, quando se tra­tasse das incertezas dela na escolha de figurinos. Deixavam-na à revelia de qualquer assistência nos cuidados que uma jovem deve a si mesma, embora Dona Márcia, de quando em quando, a escutasse com ternura maternal, em tudo o que se referia às suas indagações de menina e mulher, necessitada de instrução para a vida íntima.

Quando sobrevinha a possibilidade do inter­câmbio afetuoso, certificava-se de que a esposa de Cláudio possuía vasto patrimônio de compreensão e carinho, abafado sob o peso de conveniências e convenções, semelhando tesouro enterrado nas raí­zes de sólido espinheiro.

Aproveitava-se dessas horas de efusão entre ambas, exibindo-lhe todas as dúvidas e perplexida­des que se lhe estacavam na imaginação, aguar­dando a brecha propícia.

Dona Márcia afigurava-se largar distâncias e respondia-lhe entre beijos, demonstrando vivamente que o lume da dedicação e da confiança de outros tempos não se lhe arrefecera no coração. Sorria, encantava-se. Expandia-se-lhe a meiguice mater­nal, em apontamentos sábios e doces. Suprimia-lhe a insipiência no trato com os problemas começan­tes da vida feminina, dando-lhe a impressão de haver reencontrado a mãezinha, que acreditara pos­suir ao pé do berço, quando aquelas mãos belas e finas, agora distanciadas, lhe afagavam a cabe­leira.

Entretanto, o momento luminoso escoava-se, rápido.

Marina chegava e turvava-se o ambiente.

Assistia, espantada, à transformação que se operava de improviso. A interlocutora comprazia­-se num espetáculo de personalidade dúplice.

Ocultava-se a mãezinha espiritual, afável e aco­lhedora, e aparecia Dona Márcia, avalentoada e cortês, na atmosfera psíquica.

Inventava, de repente, alguma atividade em aposento vizinho, dava-lhe incumbências a distância, a fim de apartá-la. Assumia ares diferentes. Queixava-se subitamente de dores que, até então, Jaziam ignoradas.

Ante a reviravolta, analisava o reverso do quadro.

Ambas, unidas, completavam-se em pequeninas torpezas para deprimi-la, humilhá-la. Diminuta man­cha no vestuário constituía razão para sarcasmo; ligeira indisposição orgânica atraía-lhe complicada série de admoestações jocosas e indiscretas. Con­cediam-lhe, raramente, a honra da companhia para compras no centro. E se as casas comerciais vi­sitadas não dispunham, eventualmente, de recursos mobilizáveis na entrega de encomendas, não se pe­javam, mãe e filha, de carregá-la com pacotes di­versos, exercitando crueldade risonha nos pejora­tivos com que lhe agravavam o constrangimento e a subalternidade.

Dona Márcia e Marina, juntas, à frente dela, significavam provação inqualificável que lhe competia agüentar em silêncio. Nesses instantes, sen­tia o coração descompassado, em desconforto indi­zível, como se estivesse encantoada num teste de tolerância e paciência, perante examinadores que lhe avaliavam as reações, entre o chiste e a impiedade.

Cedo percebeu que a irmã, filha única, não abriria mão de ínfima parcela dos mimos caseiros, de que se supunha senhora.

Dominado o segredo de sua origem, modificara a conduta para com ela. Tramava motivos para bio­grafá-la, nas conversações com as amigas, suprimindo, previamente, quaisquer dúvidas, suscetíveis de ocorrer, com relação às duas, no meio social. Criticava-lhe os gostos, as atitudes. E a genitora não fazia mistério na tomada de posição.

Em separado, não vacilava ceder-lhe a ternura que vinha do passado, enriquecida talvez pela com­paixão que ela, moça pobre, inspirava no presente. Isso, porém, exacerbava-lhe a secura.

Ansiava re­pouso em dedicações estáveis. Pesava-lhe a solidão, sem qualquer parente consangüíneo que lhe dispu­tasse os vínculos da amizade. Mensagens aos familiares de Aracélia nunca mereceram resposta. Informações procedentes da remota cidade em que sua mãe nascera inteiraram-na, por fim, de que to­dos eles haviam demandado outras regiões do país, apetecendo melhor sorte.

Retinha suficiente autocrítica e discernia a si­tuação. Estava só.

Marita, que conjeturava reaver lembranças por impulso deliberado, franqueou o propósito de re­crear-se para dar conta de si, como quem se pro­põe alijar, por momentos, a carga que transporta, a fim de interrogar-se, quanto aos empeços do caminho.

Afrouxamos, com naturalidade, a observação aguda com que lhe acompanhávamos a exposição silenciosa.

Aliviada, indagou de si mesma se não fora o insulamento a causa de exagerar tão cedo a necessidade de companhias diferentes das que lhe traçavam no lar o estreito círculo de provas.

Encerrada nos pensamentos que lhe armavam as fantasias e receando exteriorizá-los, pelo temor do ridículo, recorrera à evasão.

Ave cansada pelo exercício prematuro das pró­prias asas, inquiria por que se lhe recusara alimento afetivo no ninho, onde conseguira distendê-las.

Antes, porém, que se acomodasse em algum esconderijo da mente, para fixar-se em contristações inúteis, solicitamo-la a que viesse, por genti­leza, em apoio da análise que empreendíamos, no intuito de auxiliá-la e protegê-la.

Docilmente, retomou as elucidações interrom­pidas, relacionando os primeiros dias de atividade na profissão de comerciánia a que se afizera.

As rememorações externaram-se em jorro.

Entremostrou-nos o movimentado estabeleci­mento comercial em que Cláudio lhe obtivera a fun­ção de balconista. Pequeno mundo da preferência feminina. Bijuterias, perfumes, tecidos leves, rou­pas feitas.

No dia imediato àquele em que o pai adotivo lhe trouxera da rua um bolo enfeitado com dezessete rosas pequenas, para comemorar-lhe o ani­versário, entrara em serviço.

De começo, tudo hesitação e novidade.

Vira-se, depois, atirada aos embates do senti­mento. Ligações novas, idéias renovadas.

Aliciara relações confortadoras, expandiram-se-lhe os interesses, permutava confidências, conquis­tava simpatias.

A imaginação agora se lhe excitava em des­controle, sugerindo-lhe adornar-se com esmero, de modo a se destacar diante do herói que lhe viria, decerto, governar o império emotivo, oferecendo-lhe um lar, pedaço de paraíso em que pudesse aneste­siar o coração, desoprimir-se e achar a felicidade.

Menina bisonha, circunscrevia, até então, to­dos os conhecimentos, em matéria de amor, aos romances em que cinderelas anônimas acabavam em deslumbramento, nos braços de príncipes que as arrancavam da obscuridade para a glória. En­tusiasmava-se com novelas e filmes que terminassem pelo altruísmo coroado ou pelas supremas as­pirações humanas, convenientemente atendidas.

O destino, entretanto, escarnecera-lhe da ino­cência.

Comparava o contacto da vida prática a podão implacável que lhe talara todas as flores do jardim de sonhos juvenis.

A principio, a desilusão conturbara-lhe o âni­mo, através de um colega que a obsequiava, repe­tidamente, com entradas de cinema. Conhecia-lhe a noiva, professora jovem e distinta que se lhe afeiçoara ao convívio.

Que mal em se verem juntos para uma fita simpática, de vez em vez? Iniciaram-se os momentinhos de encontro fraterno. Intimidade dos minu­tos propícios. Copacabana, aqui e ali. Um cafe­zinho de bar, nas horas de vento frio, um sorvete na praia, quando o calor vinha forte. Mera cama­radagem. Amiguinho, fazendo o papel do irmão que não tivera.

Veio, porém, a noite em que ele se apresentou, transtornado. Chegara sem a noiva, que se dirigi­ra a Petrópolis. Acontecimento natural, conquanto raro. Nada prenunciava sucessos desagradáveis, nenhum motivo de inquietação.

Conversaram, pacificamente, nas areias do Leme. A Lua nascera, plena, inspirando-lhes pensamentos mansos e alegres, enquanto se expunham ao sopro refrigerante do mar.

O trabalho na loja fora banho de suor copio­so, no dia cálido.

Falavam acerca de freguesas apressadas, men­cionando clientes ásperos. Riam-se, despreocupados, ao jeito de colegiais, no intervalo das lições.

Ele, no entanto, começou o inesperado, repor­tando-se a medidas. A fita métrica, a seu parecer, não satisfazia, de todo, em casos determinados de atendimento. Necessária a adoção de recursos psi­cológicos para tranqüilizar compradores inquietos, quando se interessassem simplesmente por fragmen­tos de rendas ou passamanes.

Nisso, pediu-lhe a mão pequena para confron­tá-la com a dele e, respondendo, espalmara a destra sem qualquer prevenção.

Assustou-se, ao sentir-lhe a mão hirsuta e más­cula, comprimindo-lhe os dedos.

Intentou desvencilhar-se. O rapaz, contudo, fez-se claro nos propósitos infelizes. Puxou-a, num gesto brusco, de encontro ao peito, gaguejando de­clarações.

Na vertigem da pessoa atingida pelos efeitos de um raio, em momento de céu aparentemente azul, quis gritar, reclamar socorro, mas o sangue tur­bilhonava-lhe na cabeça.

Impetuosamente submetida àqueles lábios que se colavam aos dela, desfaleceu por segundos.

O hálito sedutor do primeiro homem que a re­tinha, submissa, destilava o magnetismo da serpen­te, quando hipnotiza o pássaro confiante.

O desmaio, no entanto, durara um instante só. A profunda e invencível reação da feminilidade unida à consciência surdiu, rápida. A noção de res­ponsabilidade relampagueou-lhe no raciocínio.

Bas­tou isso e o impulso sexual esmoreceu, neutralizado. Ideou a imagem da amiga ausente, compreendeu todo o perigo a que se expunha.

Aspirava, sim, a ser mulher de um homem, companheira de alguém que lhe fosse companheiro.

Compenetrava-se, com humildade, da sua condição de criatura humana, moça sequiosa de afeto, pre­libando emoções da maternidade, mas não concor­daria com o próprio aviltamento em deslealdade ou devassidão.

Apelou para todas as energias de que se re­conhecia capaz e, tocada de súbita resistência, arro­jou longe o perseguidor que lhe pressionava o busto tremente.

Desembaraçada, o pranto explodiu-lhe quente e doloroso.

Interpelações da alma sincera estouraram, con­tundentes e francas.

Onde os compromissos do noivado? que fazia da jovem correta que lhe empenhara o destino? trazia, assim, o coração rolando tão baixo? não pos­suía acaso, mãe e irmãs, para as quais exigia vali­mento e respeito?

Lívido e atarantado, o colega escusou-se, asse­verando, impudente, que não a supunha meninota antiquada.

Estava comprometido, noivo há meses, no en­tanto — sublinhou, cínico —, a seu modo de ver, era muito natural que ele e ela, Marita, ainda jo­vens, desfrutassem o tempo, acrescentando, ainda, em sua filosofia desabusada, que todo viajante cons­ciente, embora conheça o caminho certo, é livre para saborear os frutos que pendam de plantas erguidas à margem.

Zombou-lhe das lágrimas e retirou-se, garga­lhando, sarcástico, para depois hostilizá-la em serviço.

Ocorreram outros impedimentos e tentações.

O sobrinho do chefe, bonito rapagão recém-casado, insinuara-se, começando por um presente de aniversário e terminando por solicitar-lhe cola­boração no escritório, onde pretendeu arrancar-lhe atitudes inconfessáveis. Angariara inimigo novo e amargara preterições.

Enquanto isso, observava que Marina se alte­rara, sensivelmente. Favorecida pelo devotamento materno, alcançara diploma de contadora, situan­do-se com manifestas vantagens. E, decerto pelo motivo de ganhar expressivas somas na profissão, sustinha, desajuizadamente, prodigalidades e exces­sos. Figurinistas de prol, penteados extravagantes, bebedeiras e tafulices.

Nesse ponto das confidências mudas, o vulto de um jovem raiou, nítido. Ao estampá-lo na pai­sagem dos mais recônditos pensamentos, transfigu­rou-se a castigada criança.

Desanuviou-se-lhe o firmamento íntimo. Quei­xas arredadas, apreensões esquecidas.

Clareou-se a aura de tal modo, ao refletir o rapaz, que o fenômeno induzia às mais belas apreciações do entusiasmo poético. Vaso pensante que incorpora o privilégio de esculpir-se e alindar-se, à vontade, para encertar a flor predileta. Lago cons­ciente, mantendo a faculdade de esconder, de inopi­no, todos os detritos de suas águas, metamorfosean­do-se em espelho suave e cristalino para retratar uma estrela.

Marita amava o escolhido com a firmeza da ár­vore que se levanta sobre a raiz principal de apoio, com a abnegação das mães, que preferem morrer, felizes no sacrifício extremo, se for essa a condição para que os filhos queridos logrem viver.

Enlevado com o painel, que se configurava qual retábulo vivo, incutindo respeito religioso, interro­guei-me, quanto ao lugar onde teria visto quadro idêntico: jovem mulher plasmando aquele rosto no campo mental.

Vasculhei a memória e identifiquei-o. Era o adolescente cujo semblante repontava dos pensamentos de Marina, senhoreando-lhe o coração, de parceria com Nemésio.

Ambas as meninas jaziam espiritualmente ima­nadas a ele por laços idênticos. Cruzavam-se-lhes as preferências, sócias de análogo destino.

Relanceei o olhar sobre Neves, que me esprei­tava, atento, exercitando-se em serviço de análise psíquica, percebendo-lhe a face transida de mágoa.

Bastou recolher-me o sinal e aproximou-se, im­pulsivo, segredando-me, transtornado:

— Ainda não nos entendemos devidamente. Sabe você quem é este? É meu neto, Gilberto, filho de Beatriz...

Articulei breve aceno, rogando-lhe aguardar en­sejo que fosse vantajoso à conversação, e graduei, dentro de mim, os efeitos do impacto emocional. Eu, que me abeirara daquela atormentada criança, imaginando-me na posição de um pai socorrendo uma filha, sopitei, a custo, o espanto que me assal­tava, para não tresmalhar-me na inconveniência da compaixão destrutiva.

Não sabia de que modo o pesar me doía mais, se ao refletir em Marina, a dividir-se entre pai e filho, ou se ao concentrar a atenção naquela moça triste, profundamente lesada nos tesouros do sen­timento.

Estanquei no Intimo as impressões que me sen­sibilizavam e prossegui, pesquisa adiante.

A muda confissão da jovem avançou em remi­niscências vivas e francas.

Conhecera Gilberto, precisamente há seis meses, no gabinete do chefe. Ela prestava informações de serviço, ele representava os interesses do próprio pai, em negócios alusivos à venda de imóveis.

Com que deslumbramento lhe recebera os pri­meiros olhares afetuosos e indagadores! Elos de intensa afinidade passaram, desde então, a jungi-los um ao outro, sem que lhe fosse possível justificar a sede crescente de comunhão que a dominava.

Para surpresa maior, na excursão inicial que lhes precedera a série de passeios e entretenimentos felizes, soubera, satisfeita, que Marina, recentemen­te empregada, se fizera contadora da firma em que o genitor dele se destacava como sendo a figura mais importante.

Riram-se da coincidência com a ingenuidade de duas crianças.

Marita confiara-se a ele, integralmente. Ama­va-o, sentia-se amada.

Desde que se lhe apoiara ao braço, pronto a enlaçá-la e protegê-la, mais vastos horizontes se lhe descerraram à alma. Tolerava as alfinetadas do cotidiano, transformando-as em notas de perdão e alegria. A Natureza desvendava-lhe encantos no­vos. Admitia que outra luz se lhe acendera nos olhos, permitindo-lhe descobrir a beleza do mar; de­tinha, sem explicá-la, certa música nos ouvidos para assinalar, contente e embevecida, as ternas arengas das crianças e as vozes dos passarinhos. Desliga­ra-se do calvário doméstico; o tempo voava, doce, ao coração. O amor correspondido anestesiara-lhe a sensibilidade. Nenhum peso a carregar, nenhuma noção de sacrifício.

Dera-se a Gilberto, copiando a passividade da planta que se rende ao cultivador, da fonte que se entrega ao sedento.

O filho de Nemésio Torres prometera-lhe casa­mento. Falava do futuro risonho, suscitava-lhe so­nhos de maternidade e ventura. Para fazê-la inte­gralmente feliz, apenas aguardava a melhoria eco­nômica que adivinhava perto.

Apesar de tudo, tinha agora o coração farpea­do, abatido. Convencia-se de que Gilberto se enfas­tiara, que ambos, precipitados à fome de prazer, haviam colhido, antes do tempo, a flor da felicidade que parecia frustra.

Marina adiantara-se. Sempre Marina...

Na véspera, surpreendera a irmã e Gilberto num colóquio, que não deixava dúvidas. Ouvira-lhes a conversação impregnada de ternura ardente, sem ser pressentida.

Nesse ponto das lembranças amargas, ao modo de ave repentinamente ferida, estirou o corpo des­governado, abandonando-se a lágrimas convulsas.
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