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Capítulo 9
Instalados na sala de visita, os cônjuges en­trefitaram-se de estranha maneira. Adversários declarados, em tréguas cordiais.

Dona Márcia definia-se. Espécime comum das damas que lutam, garbosas, contra as arremetidas do tempo. Ninguém lhe atribuiria os quarenta ja­neiros integralmente dobados. Os cabelos abundan­tes, que os líqUidos medicinais mantinham perfei­tamente escuros e brilhantes, acomodavam-se num penteado gracioso que lhe guarnecia o rosto, se­melhante ao das pessoas que se maquilam para efeitos de arte e que nunca se deixam analisar realmente sem que a água quantiosa lhes resti­tua os poros à carícia da Natureza. Delgada, na magreza característica dos que usam moderadores do apetite para a manutenção do peso ideal, apre­sentava-se em figurino da alta.

O fundo alvo do linho, ligeiramente estampado de pequeninas flo­res róseas, dava-lhe ao vestido primoroso certa diafaneidade que lhe realçava a beleza quase ou­toniça.

Era a mesma criatura das telas mentais de Marina, exibindo-se, porém, de modo diverso, espécie de livro, claramente identificável, mas expos­to numa encadernação mais viva e mais rica.

Pela herança e pela convivência, talhara, sem dúvida, o aspecto da filha única, porqüanto, sentada agora, lembrava Marina em todos os traços, conquanto muito mais asserenada e amadurecida. Longe de aparentarem a verdadeira condição de mãe e filha, podiam ser interpretadas à conta de irmãs, salientando-se que Dona Márcia se revelava talvez mais simpática, pela brandura estudada dos gestos.

Via-se-lhe com tranqüilidade o sorriso espon­tâneo, sorriso, no entanto, que mostrava o engenhoso artifício dos que se distanciam deliberadamente dos problemas alheios para que não lhes constituam empeço ao avanço. Doçura trabalhada do egoísmo atencioso, pronto a sorrir, nunca a se incomodar.

Ainda assim, os olhos, ah! os olhos traíam-lhe a alma sibilina. Fisgados no esposo, pareciam inte­ressados em agarrar-lhe as mínimas reações, em proveito próprio.

Ela não aspirava a conhecer qualquer vestígio da conduta dele, anelava encobrir-se. Serena e bem­-posta, renteando o marido, dava a impressão de um viajante hábil, preocupado em ilaquear o guar­da-barreira, a fim de seguir, incólume, caminho adiante, sem largar as aquisições clandestinas.

Por outro lado, o marido assemelhava-se ao guarda-bar­reira, calejado no suborno, mais aplicado em res­guardar-se, que em denunciar viajores, tão ma­treiros quanto ele próprio. Naquela hora, sobre­tudo, em que fora quase detido em culpa flagrante, esmerava-se em mesuras.

Amodorrava-se para ou­vi-la, com a pachorra de um cão astucioso que pa­rasse de caminhar, atento às falcatruas do gato.

Para Cláudio, em tal circunstância, valia estu­dar tudo, ouvir tudo. Afinal, aquilo era inevitável. Márcia chegara ao quarto de Marita num momento psicológico. Imperioso esfumar-lhe qualquer dúvi­da ocorrente, à custa de uma tolerância que não mais praticava, desde muito. Para isso, estirava-se, ali, sossegado e complacente.

Nos dois, porém, flutuava a desconfiança re­cíproca. Duas bocas que se entendiam, duas cabeças que discordavam uma da outra. Cada frase vinha pré-fabricada na garganta, dissimulando o pensamento.

Adocicando a voz, a esposa comentou os abor­recimentos no bufete do baile beneficente em que havia funcionado. Muita gente. Alguns jovens em­briagados, forjando obstáculos. Garotos furtando. Por tudo isso, estafara-se.

Desconfiando que o marido, não obstante mos­trar-se quase afetuoso, não se inclinaria a longa conversação, quis reter o momento raro, tornan­do-se mais terna.

Afável, estendeu-lhe prateada carteira.

Cláudio agradeceu. Não queria fumar. Ela, no entanto, bateu, várias vezes, a ponta do cigarro, de encontro a pequenina bolsa metálica, fez fogo num isqueiro diminuto, e, após envolver-se em ba­foradas, relaxou-se na poltrona, sugerindo a inten­ção de exprimir-se mais à vontade.

— Imagine você — aduziu, cuidadosa —, que embora o sarau esteja longe de terminar, larguei tudo. O leilão de prendas esperava por mim, quall­do senti um constrangimento esquisito.

Tive medo. Passei minhas obrigações para Dona Margarida e voltei. Atormentava-me, supondo houvesse algo atrapalhado em casa, alguma ligação elétrica es­quecida, a presença de algum malfeitor. Vejo, po­rém, que você talvez tenha tido o mesmo palpite e chegou antes, retificando o fogão... Felizmente, tudo passou... Mesmo assim, reconheço que o meu regresso foi providencial, pois, desde muitos dias, venho espreitando um momentinho em que você esteja calmo e bem-humorado, como agora, para tratarmos, juntos, de assunto sério... Coisa que nos toca de perto, que não posso decidir sem você...

Neves e eu notamos, para logo, o regime de choques e contrachoques em que respiravam aque­las duas almas adversas, aprisionadas socialmente uma à outra, por exigências da provação.

Inferin­do que a companheira se lhe aproveitaria da bene­volência eventual para chamá-lo a questões de res­ponsabilidade, Cláudio despiu a máscara afetiva com que a brindara, de inicio, e, taciturno, colocou-se em guarda. Do sorriso, tornou ao sobrecenho. Fino sarcasmo tisnou-lhe os modos. Comandou a palavra, buscando, em vão, disfarçar o azedume. Afirmou-se fadigado, alegou esgotamento adquirido em horários de serviço extra e rematou, pedindo à esposa resumisse, quanto possível, o que tinha a dizer-lhe. Queria ler, pensar, refazer-se.

A esposa fingiu não ver o olhar irônico que ele lhe endereçava e começou referindo-se ao cansaço de que se sentia possuída.

Possivelmente, ele próprio ignorasse; entretan­to, submetera-se a vários exames, por solicitação do ginecologista. Desde muito, atravessava as noi­tes em claro, sofria palpitações, sufocações, sensa­ção estranha de peso, calores no peito. O médi­co acreditava em menopausa precoce e receitara. Ela, contudo, supunha-se depauperada, neurastêni­ca. Exauria-se nos problemas domésticos. A arru­madeira despedira-se. E, desde que se fora, via-se obrigada a passar roupa, encerar, e, de certo modo, auxiliar no fogão para que Dona Justa não es­morecesse. O conserto da geladeira custara um di­nheirão. As contas, no fim do mês, haviam au­mentado. Marina trouxera duas gratificações que recebera em serviço extraordinário, mas, ainda as­sim, estava onerada. Tinha necessidade de quinze mil cruzeiros.

Nesse tópico da entrevista, o interlocutor fi­tou-a, sarcástico, e indagou:

— É só?

A interrogação, carregada de zombaria, pairou no ar da mesma forma que uma chicotada cortante.

Dona Márcia emudeceu, ao impacto da descon­sideração inesperada.

O marido não dispensara sequer a mínima aten­ção aos padecimentos orgânicos de que se queixara. Desconhecia-lhe, de propósito, os achaques. En­quanto relacionava os incômodos de que se via aco­metida, assustara-se ao divisar-lhe a dura expres­são dos olhos frios. Conhecia aquela atitude gelada de profundo desdém. Ao passo que se lamentava, tinha a impressão de que ele, Cláudio, lhe pergun­tava em pensamento: «por que não acaba você de morrer?» Em outras ocasiões, chegara a enunciar semelhante inquirição, com palavras redondas, cla­ramente pronunciadas e repetidas. Por que tanto ódio? indagava a si mesma. Não contava receber uma ternura que os atritos incessantes haviam in­cinerado entre ambos; contudo, cria-se com direito a pequeno retalho de acatamento. Se ele adoecia, de leve, conquanto não o amasse, vigiava-lhe a ca­beceira. Zurzia o clínico da família pelo telefone. Todas as providências à hora. Entretanto, ao referir-lhe o tratamento que reputava importante, a fim de evitar uma cirurgia comprometedora, recebia dois monossílabos secos que o marido lhe pespegava no rosto, como se a repelisse com dois calhaus.

Persistindo o silêncio que se alongava, Cláudio fez menção de retirar-se; contudo, a esposa frus­trou-lhe o impulso, exclamando, agora irritadiça:

— Não saia. É preciso que você fique. Esta casa não é minha só. Acaso, não está vendo?

Ma­rina e Marita... Criam-se os filhos com desvelo, com carinho... Em crianças, são anjos; crescidos, são pesadelos. Tenho sofrido calada, mas agora... Isso não pode continuar sem que você se mexa. Entre uma e outra, não é possível a indiferença. Acolhi essa menina estranha em meus braços como se fosse minha própria filha. Suportei afrontas, esqueci minha saúde, meu tempo... Não me pou­pei, fiz o que pude... Nada lhe faltou, entretanto, hoje...

— Hoje, o quê? — revidou o esposo, admi­rado.

— Pois você não percebe a humilhação a que Marina se expõe? — acentuou a companheira, em lágrimas súbitas, qual se estivesse habituada a cho­rar, quando quisesse. — Você não enxerga as difi­culdades de nossa filha?

Cláudio riu-se, como quem decidira zombetear.

— Márcia, deixe de cenas... Você fala em Ma­rina, como se a nossa desmiolada estivesse na forca. Não entendo. Vejo-a feliz e desorientada, como nunca. Se me detiver em qualquer problema dela, será para admoestá-la, reprimi-la. Não fosse você com o desregramento de suas concessões e com os seus maus exemplos, haveria de corrigi-la, ainda que obrigado a interná-la no hospício...

— Que ouço, meu Deus? — gritou a senhora.

Estancara-se-lhe o pranto, alarmada que se achava, ao verificar o rumo improviso do entendimento.

— Você ouve a pura verdade — prosseguiu Cláudio, implacável. — Ainda anteontem, impelido por dever da profissão a comparecer num coquetel, oferecido a um dos chefes, numa casa de regalias noturnas, fui constrangido a pretextar uma enxa­queca e afastar-me. Sabe por quê?

Nossa filha, que você pretende inculcar por santa, estava lá, posi­tivamente nos braços de um cavalheiro maduro e bem-posto, que não a beijava paternalmente. Senti tanta vergonha, que pedi a um colega me repre­sentasse, e sai, à pressa, antes que Marina me per­cebesse.

— Oh! a pobrezinha! ... — objetou Dona Már­cia, faces em fógo, tremendamente revoltada.

Naquele instante, os dois tiravam, mecanica­mente, os últimos disfarces. Postavam-se, em espírito, um à frente do outro, com rudeza indissi­mulável. Dois inimigos soberanos, aversão contra aversão.

E o diálogo azedo continuou:

— Pobrezinha, por quê?

A esposa mediu-o, de alto a baixo, com um olhar de zombaria, e passou a acusá-lo:

— Não quero discutir agora a sua presença de homem velho e casado, numa casa de tolerância, pois não acredito nessa história de homenagens a chefes, em horas avançadas da noite.

Você foi sempre imoral, indigno, mentiroso, mas, por amor àfamília, esqueço tudo isso, para que você conheça toda a situação...

Refletindo na conveniência de sensibilizá-lo para os efeitos a que se propunha, Dona Márcia baixou calculadamente a escala de rispidez, abran­dando a inflexão da voz que se tornara por demais agressiva.

— Cláudio, atenda — continuou quase melí­flua —, Marina, obediente, nunca me ocultou a ver­dade. Não proceda com malícia; desde a piora da esposa do senhor Nemésio, vem repartindo, cari­dosamente, o tempo, entre as obrigações do em­prego e o lar do chefe, onde a infeliz senhora vem morrendo, pouco a pouco... Impossível que você não lhe admire a abnegação, porque, de modo al­gum, precisaria interessar-se pela vida íntima da família Torres, a ponto de velar junto deles, por várias noites consecutivas, por simples espírito de sacrifício... Não sei se você chega a vê-la, quando volta de manhã, mostrando fundas olheiras e faces pisadas.

Na mente inventiva do interlocutor, entretanto, operava-se complicada reviravolta. Assinalando as palavras injuriosas de Dona Márcia, sentira ímpe­tos de esbofeteá-la. A indignação ruborizara-o; to­davia, conteve-se. Não que desistisse de revidar chasqueando, mas permanecia convicto de que Ma­rita escutava. Aspirava a conquistá-la a qualquer preço. Mormente agora que se declarara, não es­tava inclinado a recuar. Prosseguiria.

Dona Márcia, enganada, aceitara a versão do pesadelo e acreditava que a moça dormisse, de vez que lhe recebera a presença no quarto sem dizer palavra.

Ele, porém, sabia-se ouvido, examinado. Não adotaria qualquer procedimento incompatível com a galanteria que começara a desenvolver. Se es­bravejasse, agravaria a distância. Deliberou agüen­tar remoques e insultos, fossem quais fossem, estudando como orientar-se na conversa para tirar o melhor partido.

Além disso, o amigo desencarnado, ao lado dele, acalentava-lhe a rijeza de alma, insuflando-lhe idéias. A fabulação de um complementaVa-Se no outro. Concluíam, juntos, que se fazia mais ra­zoâvel para eles examinar minudências e falar com intenção. Manejariam Márcia para alcançar Mari­ta. A interlocutora ser-lhes-ia instrumento. Usá­-la-iam por trampolim, rumo ao alvo.

Todas essas consideraçõeS relampeavam no es­pírito de Cláudio, enquanto a senhora se empenha­va justificar-se, na defesa da filha. Dominado pelos novos pensamentos, não sorriu, mas suavizou a expressão, como quem se resigna aos ditames da paciência.

Algo desarmada por aquela impassibilidade que se lhe figurava benevolência, Dona Márcia conti­nuou:

— Acontece que o senhor Torres se encontra francamente desarvorado, diante da tragédia que a fortuna dele não pode conjurar. Dinheiro farto e coração abatido, negócios prosperando e morte à vista. Nossa menina compadeceu-se. Tanto am­parou a doente que acabou descobrindo os sofrimen­tos do homem que se aproxima, conscientemente, da viuvez... É por isso que vem buscando revi­gorá-lo, como pode...

— Mas, assim como estão fazendo? Afogan­do-se em bebidas e prazeres noturnos, em que os dois se assemelham a duas crianças destempera­das? Não os vi rezando pela tranqüilidade da enferma...

— Deixe de ironias. Você, com toda a certeza, numa situação igual, não se consolaria com lágri­mas, procuraria distrações. Não há inconveniente algum em que o senhor Torres, numa hora dessas, se dirija para um ambiente alegre, a fim de ganhar forças, e não vejo maldade em que trate Marina por filha dele próprio, afagando-a por boneca mimada que sempre foi. Muito justo, muito claro. Dona Beatriz e o esposo conseguiram somente um filho, não tiveram, como nós, a ternura de uma filhinha no lar e nem adotaram alguma pequenina estranha a eles. Marina dá conta a mim, que sou mãe, de tudo o que se passa. Você sabe que ela é profundamente sensível e carinhosa. Tem muita pena do chefe e tenta reconfortá-lo...

— Reconfortá-lo? — gracejou Cláudio, reto­mando a galhofa.

— Não adiantam sarcasmos — rogou Dona Márcia, afetando desapontamento. — Nossa filha vem agindo corretamente. Tanto assim que a nos­sa conversa deve esclarecer grave assunto.

E, alterando o tom de voz, que se fez mais persuasivo e mais doce:

— Você não ignora que Marita se enamorou, há meses, de Gilberto, o filho dos Torres.

Vendo, de minha parte, os dois, em ligação constante, acre­ditei piamente que o jovem nutrisse por ela uma inclinação segura.

Misturando reserva e malícia, passou a histo­riar-lhe as entrevistas, os passeios, os telefonemas, os bilhetes... Salientou que se afligira ao apanhá­los, a sós, numa excursão domingueira, em plena floresta da Tijuca, dias atrás. Admitia que seria preciso examinar-lhes o caso. Aborrecera-se ao des­cobri-los, assim, positivamente isolados, sob as ár­vores. Mulher e mãe, inquietava-se ao pensar na filha adotiva...

Cláudio, nessa altura, marcava-lhe os avisos, de olhos em fogo e coração aos saltos.

Então Márcia também sabia... Aquele jeito arisco da esposa nas confidências não o enganava.

Indubitavelmente, ela senhoreava minúcias que pre­feria esconder. Não chegava Paquetá. A mataria, igualmente, fora teatro dos colóquios e beijos que detestava. Não esperava aquele noticiário miúdo na própria casa. Não supunha a mulher, assim, cons­ciente da situação de que se conjeturava exclusivo conhecedor... Naquele minuto, olvidava a menina que se lhe desenvolvera nos braços, anulava-se na condição do pai, chamado a zelar-lhe o nome. Irrom­pia nele o animal ferido, o homem selvagem que lhe dórmia habitualmente na polidez, espicaçado pelo ciúme.

Esfregando os dedos contra as palmas das mãos, num gesto que lhe particularizava o desagrado, levantou-se, deu alguns passos pela sala e resmungou:

— Ingratidão!

A esposa usufruia a cena com a volúpia de quem alcançava os próprios fins, porqüanto, desde o princípio da conversação, aspirava a estabelecer um clima favorável à filha legítima, a detrimento da outra. Julgava que o marido, com semelhante exprobração, resumia numa palavra o asco que pro­vavelmente albergaria contra o procedimento da pupila que desejava arredar. Muito distante da rea­lidade, não percebia que a indignação dele se arrai­gava no azedume do apaixonado que se vê preterido e, por isso, ensaiava um sorriso triunfante...

Nós, porém, conseguíamos analisar-lhe as telas mentais e verificar quanto lhe doía o desprezo.

Via-se, espiritualmente, ao pé do jovem, medindo forças. Ah! se lhe fosse dado enxergá-lo, naquela hora, ao alcance das mãos! Certo lhe despejaria todo o peso da cólera na constituição de menino e moço, esfrangalhando-lhe os ossos...

— Comove-me a sua reação contra Mana!... Registrando a frase retícenciosa da companheira, deu-se conta do papel desaconselhável que co­meçava a assumir. Quase que se denunciara, de todo. Ultrapassara os limites da circunspeção que lhe cabia conservar no próprio interesse e delibe­rou recompor-se. Reconheceu que Márcia lhe apre­ciava a repulsa, crendo vê-lo unicamente no lugar de pai, machucado pelas circunstâncias, e deixou que ela se acomodasse a essa interpretação, encas­telando-se, mentalmente, na defensiva. Reprimiu o desespero que o possuia, sentando-se, de novo, a relaxar os nervos tensos. Apagou exteriormente to­dos os sinais de excitação, aparentou calma súbita.

A senhora, que ambicionava amontoar vanta­gens para a filha, longe de imaginar-se iludida naquele jogo, em que marido e mulher se nos re­presentavam dois parceiros astuciosos, nos golpes estudados um contra o outro, falou serena, presu­mindo controlar agora toda a situação:

— Sua atitude respeitável de pai me encoraja e me alegra. Graças a Deus, sinto em você o chefe da casa e da família.

Cláudio ouvia, atento.

É necessário que você saiba — prosseguiu ela — que Gilberto não quer coisa nenhuma com Marita, que vive a derreter-se sem razão, O rapaz é apaixonado por Marina e tudo indica possibilidades de um casamento vantajoso, que não pode­mos jogar fora.

O interlocutor ardiloso deduziu que chegara para ele a oportunidade da vingança. Fingindo des­conhecer a trama de sentimentos em que ambas as jovens se enredavam, comentou, em voz alta, os novos aspectos do problema, a fim de ser clara­mente escutado por Marita, que sabia de atalaia, no quarto próximo. Depois de encarecer a exce­lência do caráter da filha adotiva, destacando o apreço e a ternura com que se dedicaria a prote­gê-la, acentuou, jocoso:

— Ah! o biltre!... então, essa farsa de va­guear com Marita, arrastando-a por aí, não é senão alcovitice e trampolinagem... O peralta está ca­rambolando. E’ o bilhar dos namorados, bate-se numa bola para acertar em outra...

E relacionou pobres moças, traídas na confian­ça, explicou que Marita era suscetível de uma psi­cose de duras conseqüências. Se Gilberto estava propenso a desposar Marina, que se manifestasse. Não oporia embargos, no entanto, exigia franqueza.

Dona Márcia, repentinamente lisonjeada, ao co­lher-lhe as disposições tão favoráveis, arrolou as confidências da filha.

O rapaz confessara-se. Admirava-lhe não só os encantos pessoais, mas gabava-lhe a educação fina. De começo, apenas se cumprimentavam, de quando em quando. Ele, porém, tivera necessidade da cooperação de alguém que o auxiliasse na tra­dução de alguns textos franceses.

Marina expuse­ra a competência adquirida, O trabalho realizado erigia-se em característicos tão primorosos que ob­tivera louvor na Embaixada. Desde essa empresa, trabalhavam quase que unidos. Marina revelara-lhe que o próprio senhor Nemésio, sempre solícito, passara a nomeá-la por nora.

Cláudio, acintosamente, dizia, de quando em quando:

— Márcia, não estou ouvindo bem, fale um pouco mais alto.

A companheira, elevando sempre a modulação da voz, contou que os dois, embora a situação cons­trangedora da saúde de Dona Beatriz, no momento, traduziam poesias deliciosas de autores ingleses, marginando-as de trechos sentimentais que lhes expressavam a ternura recíproca, compondo lin­do álbum cuja leitura lhe arrancara lágrimas de enternecimento. O amor entre ambos era claro como água. Indispensável apoiarem a filha, na con­cretização de suas esperanças.

Afirmava-se con­fortada em reconhecer, a tempo, que a cultura de Gilberto não se compadecia com as deficiências de Marita, para quem o moço não seria, por isso, um partido feliz. Asseverava, convicta, que compe­tia a ele, Cláudio, e a ela a orientação do assunto. Ponderou ainda que o auxílio dispensado por Ma­rina a Dona Beatriz estreitara as relações entre os jovens, e, supondo o esposo agastado à vista de contrariedades prováveis para a filha adotiva, acres­centou, entre desabrida e chistosa, que Marita se arranjaria, na época oportuna. Inclinações de mo­ças, problemas delas.

O marido não acreditou em tópico nenhum do que ouvira. Pai, desiludira-se com a filha. As investidas noturnas pelos recantos boêmios, as ma­neiras inconfessáveis, no trato com o chefe de ser­viço, não lhe deixavam dúvidas. Ao revés, as no­ticias entusiásticas de Márcia acordavam-no para realidades mais agressivas. Inferia que Marina an­dava sem escrúpulos entre o velho e o moço. De outro modo, na condição de esposo, não lograria embair-se. A companheira figurava-se-lhe a mu­lher desleal aos compromissos domésticos, mulher que ele mesmo plasmara com os seus exemplos de homem refratário ao equilíbrio emotivo. Impossí­vel queixar-se. Com a tarimba da sociedade menos digna, fizera-se Márcia astuciosa, cruel. Dissimu­lava para ganhar. Certamente, não lhe confiava quanto sabia. Estaria informada de todas as liga­ções escusas da filha com o senhor Torres, tanto quanto ele próprio. Capearia as inconveniências, incentivaria, talvez, a leviandade com propósitos de lucro; entretanto, aquele era o momento de atrair a confiança de Marita e, à face dessa razão que se lhe alteava no ânimo empedernido, calou a re­volta e partilhou a farsa, afiançando confiar na menina que amavam por filha. Tentaria distraí-la, renová-la, e, de acordo com ela, Márcia, procura­ria incluí-la num roteiro de turismo a Buenos Aires, para o qual fora convidado por amigos, no banco. Marita esqueceria, esqueceria.

O entendimento avançava, mas o serviço nos convocou ao aposento próximo, onde a mágoa da jovem explodia, inarticulada, em vibrações de in­tensa dor.
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