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Capítulo 10
Estirada no leito, chorava Marita, desconsolada. As revelações ouvidas naquele diálogo, a curta distância, revolviam-lhe o coração, quais pinças de fogo. Sentia-se abandonada, desejava morrer.

Então — confirmava-se —, todo aquele devo­tamento de Gilberto não passava da superfície.

Apropriara-se-lhe da alma, empolgara-lhe os sen­timentos, para deixá-la sem comiseração.

Recordava-se de que, realmente, semanas antes, indagara-lhe ele que outros idiomas conhecia.

Algo vexada, informara que somente conseguira o curso primário. O moço retirara da algibeira uma com­posição de Shelley. Lera o inglês e traduzira para ela os vemos lindos. Em seguida, aconselhara-lhe estudos suplementares à noite. Poderia auxiliá-la, relacionava-se com professores distintos. Ela rira-se, queria o lar, a escola do lar com ele. Apenas ali, na decepção que a molestava, compreendia a extensão do arrufo com que se despedira. Ah! sim, aspirava ao casamento com moça culta. Ignoran­te! — dizia para si mesma — não passo de uma ignorante. Marina era diferente, dominava outras línguas.

Tudo já estava tramado, deliberado.

À vista disso, a irmã recusava-lhe intimidade nos dias últimos. Por mais a rodeasse de mimos, mais se afastava.

Agora reconhecia igualmente a causa de mos­trar-se o rapaz enfastiado e irritadiço. Entretanto — perguntava-se, triste —, se ele a desprezava, assim, por que lhe abusara da confiança? Por que o arrebatamento com que lhe acorrentara a alma às inesquecíveis impressões da menina que se faz re­pentinamente mulher? Não selara com ela um ajus­te de matrimônio? Não lhe testemunhava extrema ternura nos encontros domingueiros, quando se en­tregavam a comunhão mais íntima?

Incapaz de duvidar da legitimidade do carinho que recebera, voltava-se mentalmente para a irmã que lhe surrupiava as mínimas alegrias. A nova infelicidade — conjeturava — seria culpa dela.

Com toda a certeza, Marina cobiçara o rapaz, a envol­vê-lo na teia de artimanhas que entretecia como ninguém. Gilberto caíra-lhe no engodo. Ave no visco. Contudo, ao descobrir toda a trama, reco­nhecia-se irremediavelmente lesada. Debatia-se em pranto, sob o peso das considerações familiares. Era imperioso certificar-se de que era enjeitada e ignorante. Nada sobraria para ela, tudo para a outra. Marina possuía méritos, ela não.

A exposição de Dona Márcia, naquela hora, insuflara-lhe a tortura do réu que ouve sentença inapelável. Ainda assim, chorava, inconformada. A contingência de perder Gilberto induzia-lhe o sen­timento a matar ou desaparecer. Rememorou as tragédias, lidas na imprensa, mas o fratricídio re­pugnava-lhe ao coração. A idéia do suicídio, con­tudo, qual semente a se lhe ocultar no imo do ser, evocada pelo esboço ligeiro da alma, como que germinara, de súbito. Acariciou-a, de leve, e a su­gestão infeliz ganhou corpo. Divagações negativas tomaram-na de assalto. Renunciar a Gilberto e lar­gar os planos feitos doeriam muito mais que morrer

— pensava, desolada. Mas seria justo acovardar-se, assim tanto? Repeliu o estranho apelo e, con­quanto as lágrimas, prometeu coragem a si própria. Lutaria pela felicidade. Explicar-se-ia com o rapaz, baniriam, juntos, a ameaça pendente. Entretanto, se Gilberto não lhe aceitasse os argumentos, que fazer do destino, se, com o golpe sofrido à frente, percebia também o fantasma da esquisita inclina­ção do pai adotivo pela retaguarda?

Por que a peça que a vida lhe pregava? Devia esquivar-se ao afeto do jovem que amava, numa consagração natural, para ganhar a paixão do ho­mem maduro que se habituara a respeitar como pai e que lhe acenava com uma espécie de união para ela inaceitável? Estarrecia-se ao ouvi-lo na­quela hora. Identificava-lhe o tom de alegria triun­fante, ao dar-se conta da felicidade com que se desembaraçaria de Gilberto, no campo em que se prometia apresá-la.

Cláudio como que lhe falava de longe, ao di­rigir-se à esposa. Aquelas referências louvaminheiras com que a obsequiava, perante Dona Márcia, confirmavam-lhe a decisão de dobrá-la, demovê-la. Entre o asco e a piedade, rememorava-lhe as ca­rícias, que somente naquela noite conseguira com­preender.

Como desvencilhar-se?

Flor sacudida no vento da provação, pergun­tava por quê, por quê?...

Sopesando as ocorrências, pela primeira vez sentia medo daquele ninho familiar a que se reco­nhecia encadeada por filha do coração.

De repente, elevou o pensamento à memória materna... Ah! nunca imaginara que um coração feminino pudesse encontrar dilemas tão aflitivos, quanto aqueles a que se via largada, de instante para outro! Que não teria sofrido sua própria mãe, que a deixara no instante do alvorecer? Nunca sou­bera, ao certo, as circunstâncias que lhe haviam rodeado o nascimento. Concluía agora, porém, que talvez a genitora tivesse conhecido o cálice que ela agora amargava! Que noites de agonia moral atra­vessara, sozinha, ao acariciá-la no ventre! Que in­júrias padecera, que privações experimentara? Ela, que tudo desconhecia acerca do pai, refletia no mar­tírio da genitora, jovem e abandonada, quando, pro­vavelmente, lhe aguardava, em vão, o carinho e a proteção, noite a noite.

Dona Márcia, ao biogra­far-lhe a mãezinha, dissera «moça brincalhona». Teria sido mesmo?

Possivelmente, gargalharia para não soluçar, ansiando abafar em ruídos de festa os gritos da própria alma... Quem sabe ter-se-ia dedicado a algum homem proibido, empenhado o coração a algum moço que lhe fora roubado à ter­nura de menina e mulher?

Nas lágrimas que lhe corriam, suspirava pôr fazer-se criança... Por que não vivera a mãezinha, a fim de lutarem juntas? Consagrar-se-iam uma à outra. Permutariam as próprias mágoas...

Muita vez, na loja a que servia, escutava apon­tamentos sobre comunicações de mortos, inteira­va-se de experiências sobre a continuação da vida no Além... Seria aquilo verdade? — indagava-se. Se Aracélia, libertada, estivesse em alguma parte, indiscutivelmente lhe acompanharia o calvário, com­partilhar-lhe-ia o infortunio...

Mecanicamente, implorava ao Espírito materno a abençoasse, fortificasse, protegesse...

Conquanto sem qualquer idéia religiosa definida, formulava prece muda, que valia por funda invocação...

Intentávamos consolá-la, buscando asserenar­-lhe a mente, quando duas senhoras desencarnadas penetraram no quarto, de improviso.

Saudaram-nos, afetuosamente, revelando a con­dição de entidades familiares, vinculadas àquele re­fúgio doméstico.

Das recém-chegadas, a que nos pareceu menos experiente adiantou-se para a menina em oração. Controlava-se, dificilmente. Tremia, ao enxugar o pranto silencioso. Inclinou-se para o leito, como qualquer mãe desventurada e aflita da Terra, quan­do teme acordar um ser querido...

Embora sem elucidações prévias, não nos era licito alimentar qualquer dúvida. Aquela, era a jo­vem do retrato que Marita conservava, em imagem, nas telas do pensamento. Aracélia, amparada pela doce afeição de venerável amiga, ali estava, diante de nós! Mãe amorosa, vinha talvez de muito longe para acudir às angústias da filha... Enternecendo-nos, a pobre mãe ajoelhou-se para beijar-lhe os cabelos... E, oh! segredos insondáveis da Provi­dência Divina!... Quem conseguirá definir com pa­lavras humanas a essência do amor que Deus si­tuou nas entranhas maternas?... A dama incli­nou-se, muito de manso, e abraçou-a, com ternura, à maneira de planta que se fechasse sobre a única flor que lhe nascera...

A castigada menina acalmou-se, de súbito. Adivinhando a visita pela qual suspirava, alijou a tensão, percebendo-se mentalmente ocupada pela presença da genitora, cujos traços tentava, afetuo­sa, lembrar e reconstituir.

Outro quadro, entretanto, superpôs-se, como­vedor.

Aracélia, que orava e chorava em profundo si­lêncio, buscava em pensamento outra mulher, cuja evocação lhe renovava as energias.

A mãe desencarnada via-se pequenina, junto da lavadeira singela que a trouxera, na reencarnação última, para o teatro da vida humana. Identifica­va-se criança, agarrada à saia daquela moça doen­te, que mergulhava as pernas no rio para ganhar o pão... Tão fundo atingia a acústica da memória, que chegava a escutar o ruído daquelas mãos miú­das, esfregando as peças ensaboadas... Recolhia-lhe, de novo, o olhar meigo, em que lhe pedia pa­ciencia... Calada, na areja, por vezes esperava, esperava, depois que a mãezinha lhe repunha o corpo frágil, à curta distância, a fim de atender ao serviço... E rememorava o enlevo e o júbilo que sentia, quando os braços maternos a retoma­vam, para fazê-la dormir, ao som do velho estri­bilho, a que se acostumara no lar de telha vã....

De olhos parados, como se buscasse, além, no espaço infinito, o colo agasalhante que o tempo arrebatara, assumiu nova posição, colocando a ca­beça da jovem no próprio regaço e, emocionando-se até às lágrimas, qual se tivesse nos lábios aqueles lábios de mãe, humilde e enferma, que jamais es­queceria, Aracélia, em pranto resignado, cantou suavemente diante de nós:
Lindo anjo de meus passos,

Descansa, meu doce bem;

Dorme, dorme nos meus braços,

Enquanto a noite não vem.

Dorme, filhinha querida;

Não chores, encanto meu;

Dorme, dorme, minha vida,

Tesouro que Deus me deu...
Qual se fora repentinamente magnetizada, Ma­rita caiu em pesado sono.

Isso feito, a senhora, que tutelava a compa­nheira, atraiu-a brandamente de encontro ao peito, no manifesto propósito de consolá-la e, seguran­do-a, falou-nos, triste:

— Irmãos, nossa Aracélia ainda não está em condições de amparar a filha.

E, ajuntou, entre gentil e desapontada:

— Perdoem-nos a interferência. Nós, as mães, em certas dificuldades, nada mais temos que al­guma velha canção para dar aos nossos filhos!...

Em seguida, retirou-se, sustendo Aracélia, que se lhe refugiara nos braços, soluçando...
Ainda não nos refizéramos da emoção, quando vimos Marita, em espírito, afastar-se do corpo den­so, guardando a inquietação da criança que anseia inutilmente pelo calor materno... Qual ocorre, po­rém, à maioria das criaturas encarnadas, no plano físico, mostrava lucidez oscilante, insegura... Cam­baleou no quarto e, percebendo eu que Neves se dispunha a amimá-la, sustive-lhe o impulso, fazen­do-lhe sentir que a nossa intervenção direta pode­ria frustrar-lhe os desejos e que, a fim de prestar­-lhe auxílio eficiente, era mister deixá-la à vontade, sob vigilância discreta, de modo a examinar-lhe as necessidades mais íntimas.

Sucedeu, quase que de imediato, o que não pre­vzamos.

Esfumaram-se os arroubos da filha saudosa, esmaeceram-se atitudes infantis, a menina de Ara­célia desaparecera e ressurgiu nela a personalidade feminina, estuante e clara.

A moça não nos via. Guardava a mente nebu­losa que caracteriza os pequeninos ainda tenros, incapazes de particularizar as impressões, quando se transferem de lugar; entretanto, qual lhes acon­tece, quando ao reterem idéias fixas, quais sejam o brinquedo ou a guloseima, concentraramse-lhe todos os pensamentos num ponto só: Gilberto.

Queria ver Gilberto, ouvir Gilberto.

Semelhantes impulsos a se lhe conglomerarem na cabeça, repetidamente emitidos, galvanizavam-lhe a vontade, revestindo-lhe o pensamento de uma certa clareza, que a favorecia, porém, tão-só na di­reção dos seus anseios de mulher. Essa penetração parcial como que lhe conferia agora seguro apoio íntimo, e Marita, figurando-se-nos senhora de si, conquanto absolutamente presa ao desejo ardente em que se obstinava, largou o aposento e, descen­do os largos trechos da escadaria que contornava o elevador, deixou para trás o enorme edifício, qual sonâmbula, magnetizada pelos próprios reflexos.

Seguimo-la, atentos, não obstante confiando-a à própria discrição.

Cabia-nos estudar-lhe os ímpetos extrovertidos, consultar-lhe as inclinações. Não tivemos, todavia, qualquer dificuldade para adivinhar-lhe o rumo.

Em tempo reduzido, a filha adotiva de Cláudio alcançou a residência de Nemésio, que já se nos fizera conhecida.

Na certeza instintiva de quem se endereça a determinada pessoa, pelos recursos do olfato, sem atender a quaisquer convenções de forma e núme­ro, avançou casa a dentro, acalentando a imagem de Gilberto, que lhe substancializava o pensamento dominante.

Impulsionada pelas percepções indefiníveis da alma, demandou amplo dormitório, localizado nos fundos da moradia, e, sem que nos fosse possível avaliar, de pronto, a resolução de garantir-lhe a liberdade, a fim de analisar-lhe as reações, sobre-veio o choque doloroso.

Naturalmente sobressaltados, apenas consegui­mos ampará-la pela retaguarda.

Entrando no quarto, Marita surpreendeu Gil­berto nos braços da irmã, e bradou, estarrecida:

— Canalha! Canalha!...

Aquelas imprecações, entretanto, nem de longe atingiram o jovem par, completamente absorto na permuta de gratificações afetivas.

Neves e eu não trocamos palavra. Precipita­mo-nos, automaticamente, para a menina atribulada, intentando anular-lhe a agitação convulsiva.

Mais alguns minutos e despertou no corpo denso, obrigando-nos a pensar numa pequena fera aguilhoada, retornando à gaiola. Descerrando as pálpebras, vagarosamente, denotava no olhar a fei­ção dos loucos, quando relaxam os músculos em seguida a perigoso acesso de fúria - Tateou, espan­tada, a fronte suarenta. Fez luz, com fome de rea­lidade física. Atarantada, sentou-se para fixar as paredes, com mais segurança, e certificar-se de que se achava no leito e no lar.

A pouco e pouco, readquiriu a confiança, acal­mou-se, refazendo energias; no entanto, acusava uma espécie de tranqüilidade constrangida e amarga.

Pesadelo? — indagava-se, aterrada — ou quem sabe os padecimentos simultâneos lhe acarretavam crises de loucura?

Doía-lhe a cabeça, sentia-se desajustada, febril. Marita regressara ao agasalho físico, sob pres­sa demasiada, sem que nos fosse possível adotar qualquer providência para anestesiar-lhe a memória.

Retinha no pensamento particularidades do quadro visto e ouvido, e encarcerada, de novo, en­tre as impressões superficiais dos sentidos corpó­reos e a noção da verdade profunda, que não lograva apalpar, entrou em pranto agoniado, para somente dormir, com relativa calma, aos clarões do dia.

Capítulo 11
Colaborando nós na assistência a Dona Beatriz, que enlanguescia sempre, tornamos a ver Marita, no encerramento da tarefa diária.

Chegara novembro com chuvas torrenciais.

Naquele dia, depois de algumas horas marca­das de canícula intensa, nuvens gigantescas ocultaram os picos, abreviando o crepúsculo, que se adensava, abastecido de água e névoa.

Copacabana molhada, nas horas de movimentação culminante, acentuara a algazarra. Todo o povo que transitava nas ruas parecia disputar a melhor num concurso de pressa. Maratona improvisada. Veículos despe­javam filas enormes de pessoas, evidentemente se­quiosas de tranqüilidade doméstica, que vinham do norte e do centro, carros fonfonavam no espelho irrigado do asfalto, pedindo vez. Transeuntes en­capuzados acotovelavam-se, esperando as conduções que vinham do extremo sul.

A filha adotiva de Cláudio alcançou o vasto edifício, arrostando o aguaceiro.

De Copacabana ao Flamengo, o trajeto de ôni­bus, tão logo iniciado, fora rápido, e do coletivo até a casa o trecho de caminho constara simples­mente de alguns passos; contudo, mesmo assim, despiu a capa, diante do elevador, como quem dei­xava a piscina.

Tudo frio e sombra, em torno; entretanto, mais dolorida que a tarde caliginosa, surgia-lhe a alma atormentada, através dos olhos pisados de cansaço e vigília.

De subida, a vizinha solicitou-lhe a atenção para os adornos leves que carregava numa cesta de arame. A jovem, chamada a si, examinou li­geiramente os papéis pintados para festiva noite de aniversário, em apartamento próximo, pronun­ciou automaticamente breves palavras de admira­ção e ensimesmou-se, abafada, para somente ali­viar-se, de algum modo, ao reconhecer-se no re­canto familiar.

Ninguém a esperava.

Sozinha, estirou-se no leito, procurando reca­pitular os acontecimentos da véspera, mas o estô­mago reclamava alimento. Recordou que varara o dia em absoluto jejum. Levantou-se.

Consultou os recursos da copa; entretanto, os pratos que haviam sobejado não lhe acordaram o apetite. Não obs­tante a temperatura baixa a se lhe refletir nas mãos álgidas, sentia excitação, calor. Fatigara-se de pensar, trazia os nervos tensos. Desejou mate frio. Abriu a geladeira e serviu-se. Parou os olhos pestanejantes no telefone a distância curta. Não se conteve. Discou. Da residência dos Torres, po­rém, uma voz imprecisa informou que Gilberto saí­ra, não estava. Ela esmoreceu ainda mais ...

Arrastou-se, tornando ao quarto, e descerrou a janela. Queria desafogar-se no ar fresco.

Debruçou-se no parapeito, contemplando a ci­dade, lá em baixo - Sob a chuva, os automóveis figuravam-se animais fugitivos.

A moça refletia, refletia... Mirando o casario iluminado, deduziu que milhares de pessoas aí se aglomeravam, suportando talvez problemas piores ou semelhantes aos dela, inquirindo, em vão, de si mesma, o porquê de encontrar-se tão entranhadamente agrilhoada a Gilberto, quando centenas de rapazes respiravam, não longe, com excelentes pre­dicados para lhe interessarem o coração.

Sentia-se desalentada, insatisfeita. Aspirava a entreter-se, fugir de si mesma.

Inutilmente fez menção de envergar um ca­saco e descer à rua, a fim de se distrair, apesar do mau tempo. Entretanto, não era apenas a chu­va copiosa que lhe frustrava os impulsos. O es­pírito almejava deslocar-se, o corpo não. Exacer­bação e fadiga. Tentou engolfar-se na leitura, reacomodando-se no leito, depois de apanhar uma novela, em que o marcador lhe indicava o lance interrompido, mas lembrou-se de Cláudio. O pai adotivo raramente atrasava e, desde a véspera, não conseguia recordá-lo sem temor. Reergueu-se e pre­parou-se para o descanso. Precavida, apagou to­das as luzes. Quando chegasse, decerto acredita-la-ia distante.

Trancada agora na sombra, atirou-se à cama, com o abandono de quem larga um fardo importuno, e passou a meditar... Realinhavou na me­mória todas as esperanças e sonhos, provas e ini­bições da existência curta, deitando lágrimas no linho do travesseiro.

Daí a instantes, escutou os passos do chefe da casa, que se movia de uma peça para outra.

Pela sutileza do andar, percebeu quando Cláudio veio, muito de leve, espreitar-lhe o aposento.

Experi­mentou a maçaneta, mas não insistiu. Ela e Marina guardavam o hábito da vedação, ao se ausentarem à noite. Ouviu o barulho inconfundível da garrafa em atividade e, logo após, assinalou-lhe o regresso à rua, ao mesmo tempo que lhe notava o nervo­sismo pela maneira violenta de cerrar a porta, ao sair.

Aliviada, fez-se menos inquieta.

Marita achava-se realmente só, de vez que até mesmo os dois vampirizadores do apartamento, ao que presumíamos, andavam fora, ajustados ao com­panheiro.

Horas passaram, lentas, difíceis...

Onze em ponto, quando Neves e eu nos dispu­semos ao socorro magnético. Oramos, exorando a bênção do Cristo e o concurso do irmão Félix, a beneficio da moça exausta.

Mobilizamos as possibilidades de nosso âmbito estreito.

Ela, a princípio, reagiu negativamente, empe­nhando-se na vigilia, mas cedeu, enfim.

Operamos, cautelosos, reduzindo-lhe a capaci­dade de movimentação, obrigados que nos víamos a prever-lhe o intento de reunir-se a Gilberto, qual sucedera na véspera.

Efetivamente, desligada do corpo, expressou completo alheamento, sem manifestar o mínimo in­teresse pelo ambiente.

Absorvida na paixão que lhe empalmava todas as forças, monologava, ideando alto:

— Gilberto! Onde está Gilberto?

Tentou equilibrar-se; entretanto, rodopiou, va­cilante.

— Alguém que me ampare! — mendigou, afli­ta — preciso encontrá-lo, encontrá-lo!...

Apoiamo-la, prestos.

Iniciávamos a saída quando se abeirou de nós simpática senhora desencarnada, declarando-se men­sageira do irmão Félix, que nos esperava num pos­to socorrista.

Prestimosa, abraçou a paciente com o jeito característico da mulher e pusemo-nos mais facil­mente a caminho.

Demandaríamos bairro próximo, onde respeitá­vel instituição espírita-cristã nos ofereceria acon­chego — instruiu a recém-chegada, que se nos apresentara sob o nome de irmã Percília.

Notei que Neves e ela permutaram delicadezas mudas, revelando conhecimento anterior.

Percília, contudo, não se demorou em qualquer consideração individual. Mais entregue ao trabalho que a si mes­ma, conversou com a frágil menina, encorajan­do-a. Esforçava-se por descentralizar-lhe a atenção, apontando quadros e ocorrências do trajeto, sem resultado. A moça não apresentava outros pensamentos, palavras e objetivos que não fossem Gil­berto. Fascinação, enredando todos os reflexos. A cada apontamento afetuoso, revidava perguntando em que lugar e a que instante seria finalmente conduzida à presença dele, ao que a benfeitora res­pondia, com admirável senso materno, sem a menor expressão de chiste ou desagrado, qual se pales­trasse com uma filha doente, procurando reajus­tá-la dentro de amorosa solicitude, comportamento esse com que nos impelia à imitação. Nem Neves e nem eu nos sentíamos, dessa forma, inclinados a considerar, de maneira negativa, nenhuma daque­las frases francas de menina e moça, que lhe denotavam os estímulos sexuais, limpos e inocentes, convertendo-a, naquela hora, em criança extro­vertida.

Alcançando o recinto de atividades espirituais que se nos erguia por meta, fomos acolhidos pelo irmão Félix, em pessoa, acompanhado de mais dois amigos.

O instrutor inteirou-nos de que nos recebera o comunicado, acentuando, modesto, que, dispondo de algum tempo, deliberara vir, ele próprio, exa­minar o que sucedia.

Marita contemplou-o extática, indiferente, figu­rando-se aparvalhada, absolutamente inepta e dis­tante para avaliar a importância do sábio que a brindava com paternais gentilezas.

Mentalmente encravada nas recordações do jovem Torres, as indagaçõeS que propunha dariam decerto para escandalizar, não estivéssemos prepa­rados a fim de auscultar-lhe os conflitos.

Amparada por Félix que nos dirigia, tolerante, entrou no edifício, inquirindo se havia chegado, por fim, ao clube onde comumente surpreendia Gilber­to; encaminhada ao compartimento espaçoso, em que recolheria o necessário socorro magnético, quis saber o motivo pelo qual se imprimira tanta mu­dança ao salão de baile; mirando, distanciada, pe­quena equipe de servidores desencarnados, que desenvolvia tarefa assistencial, em ângulo oposto, alegou que a orquestra não devia adotar silêncio contínuo, e, escutando as buzinas que guinchavam, na rua, procurou descobrir se Gilberto vinha che­gando para dançar.

De raciocínio obliterado, qual se achava, lobri­gava por fora as criações mentais que arquitetava por dentro, sem ligeira noção da realidade exterior.

Félix, no entanto, ouvia-lhe todas as manifes­tações inconsideradas, com a ternura de um pai. Grave sem aspereza, compreensivo sem atitudes açucaradas que lhe comprometessem a autoridade de educador. Replicava sempre entre a bondade e a circunspeção devidas a um enfermo, abstendo-se de melindrar-lhe os sentimentos ou de encorajar-lhe as ilusões.

Instalando-a em ampla cadeira, fé-la descansar na hipnose tranqüila.

Calou-se Marita, ilhada nas memorizações em que se comprazia, ao passo que o instrutor lhe mi­nistrava passes balsâmicos.

A operação magnética foi longa, minuciosa.

Em seguida, Félix rogou-lhe falar, expondo o que mais anelasse de nós, ao que a moça gaguejou acanhada, suplicando a presença de Gilberto e asse­verando que alimentava dúvidas sobre se aquele era realmente o grêmio em que se entrevistavam... Pediu socorro, proteção... Inclinou-se para Percí­lia, no impulso da criança, quando tem fome do colo materno, e chorou, de manso, como a implorar que não a detivéssemos.

O irmão Félix, compassivo, informou-nos, sem que a paciente lhe penetrasse o fundo das elucida­ções, que, infelizmente, a intervenção efetuada em favor dela não poderia ultrapassar a superfície, prevalecendo tão-só para a sustentação do repou­so físico; que a paixão juvenil se convertera em psicose grave; que a pobre menina se deixara ar­rastar pelo desvario afetivo, a ponto de cair no pior tipo de possessão, aquele no qual a vítima adere, gostosamente, ao desequilíbrio em que se consome.

E acentuou que lhe consultara o organismo, no sentido de se lhe atalhar a alienação mental começante, com o socorro de alguma enfermidade séria que, ao arrojá-la no leito, lhe modificaria a mente, predispondo-a a diferentes impressões; en­tretanto, o corpo da jovem não se mostrava habilitado a receber esse gênero de amparo. Marita, sumamente desorientada e enfraquecida, desencar­naria no desajuste orgânico mais pronunciado que viesse a sofrer, em caráter providencial.

Não sur­gia outra alternativa, senão a de esperar pela re­sistência moral dela própria.

Convidados a escoltá-la até a casa, Neves, Per­cília e eu colocamo-nos, de volta.

Marita não revelava aspecto algum para melhor, quanto à condição mental, mas o auxílio magné­tico surtira efeito imediato e salutar, porqüanto, reajustada ao corpo denso, passou a repousar sem agitação, pelo que deixamo-la a dormir profunda­mente.

Despedimo-nos de Percília, ante o céu estre­lado, e, de novo a sós, talvez porque me sentisse a indagação inarticulada, Neves confidenciou:

— André, você conhece essa senhora?

E, ao meu sinal negativo:

— Essa é a mesma que eu vi no cabaré, quan­do agredi meu genro, num gesto impensado; a des­conhecida que me apoiou, no regresso ao aposento de Beatriz, apenas com a diferença de que hoje não traz consigo o distintivo luminoso... Mas, não tenho dúvida alguma. É a mesma pessoa...
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