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Capítulo 12
Neves e eu permutávamos conjeturas, quando alguém nos abraçou, de afetuosa maneira.

Era o irmão Félix, a despedir-se.

Espírito admirável pela abnegação e pela ciên­cia, reverenciado por todos os seareiros do bem, onde passasse, em se referindo aos protagonistas do drama familiar que se nos oferecia à atenção, apresentava os olhos marejados de pranto.

Via-se-lhe, não somente a piedade fraterna, mas também o imenso amor àquelas quatro almas, reunidas ali, naquele aprazível recanto do Rio.

Parados, agora, respirando as aragens que en­crespavam docemente as águas da Guanabara, en­quanto o céu da madrugada imprimia mais amplo realce às estrelas, enternecia-nos reconhecer-lhe o paternal carinho, qual se fora um homem comum descansando conosco, à frente do mar.

Tão grande e tão puro o devotamento de que dava mostras, ao descerrar-nos os tesouros do co­ração, através das palavras, que o próprio Neves, irrequieto às vezes, ao escutar-lhe as apreciações, cumpria espontaneamente o que prometera. Ne­nhuma observação impulsiva, nenhuma interjeição impensada.

A atitude do instrutor, ao deter-se nas lutas escabrosas do plano físico, educava cativando.

Ele­vação em cada frase, luz do sentimento em cada idéia.

Conquistava, sem pedir, o nosso interesse na prestação de assistência voluntária ao lar de Cláudio, cuja estabilidade periclitava, na conceituação dele mesmo.

Compadecia-se — elucidava, prestimoso — da­quelas quatro criaturas, atiradas ao oceano da ex­periência terrestre, sem a bússola da fé. A prin­cípio, esforçara-se por abrir-lhes um caminho espi­ritual, mas debalde. Afundavam-se em profunda névoa de ilusão, hipnotizados pelas gratificações transitórias dos sentidos carnais, ao jeito de pas­sarinhos agarrados à casca apodrecida de um fruto, sem a mínima disposição de consultar a saborosa riqueza da polpa.

Descobrindo algo mais à própria intimidade, relatou-nos que vira Cláudio renascer, que acompa­nhara Dona Márcia no berço, que seguira, de perto, a reencarnação de Marina e Marita, deixando ver nas reticências as lágrimas que semelhantes reali­zações lhe haviam custado, sem alardear virtude ou superioridade, em torno dos empeços vencidos.

Hipotecara dedicação, amizade, confiança e tempo, a fim de entrosá-los em alguma obra de be­nemerência, de maneira a cultivar-lhes a espiritua­lidade latente; no entanto, Cláudio e Márcia, de novo no estágio físico, sob o esquecimento inevi­tável e providencial do pretérito, haviam recapitulado certas experiências infelizes.

No mundo espiritual, antes de recomeçarem o trabalho terrestre, analisando as necessidades e os remorsos que lhes atenazavam as consciências, ha­viam prometido empregar o prêmio da internação no veículo carnal, edificando a sublimação íntima e corrigindo excessos de outras épocas, através do suor no serviço ao próximo; contudo, imperfeita­mente chegados à juventude das forças corpóreas, tinham abraçado paixões que lhes frustravam todas as possibilidades de libertação próxima. Ele, Félix, e outros companheiros empenhavam-se em auxiliá­-los, mas infrutiferamente. Os quatro resistiam a toda espécie de sugestão reparadora; repeliam, de pronto, qualquer projeto construtivo.

Nobres amigos de outras eras, aplicados a es­tender-lhes apoios preciosos, acabaram desiludidos, largando-os ao próprio arbítrio.

Cláudio e Márcia, principalmente, ao elegerem o dinheiro e o sexo desgovernados por chaves dos próprios dias, nada mais estavam conseguindo que desajustar os fundamentos da tranqüilidade domés­tica. Em razão disso, Marina e Marita não obti­nham alicerces para a felicidade real. Jovens ainda, complicavam-se as duas em perigos e tentações, de que muito dificilmente se desvencilhariam, sem do­lorosas marcas na alma.

Tamanha se evidenciara a rebeldia de Cláudio que, naquela hora significativa e ameaçadora da existência, não contava, além da Providência Divi­na, senão com raros amigos. Ainda assim, esses amigos — acrescentava modesto, certamente ponde­rando quanto às dificuldades dele mesmo — não se viam com direito a solicitar socorros especiais e, absorvidos por responsabilidades numerosas, acha­vam-se na contingência de apenas dispensar-lhe auxilios esporádicos, incertos.

Compreendemos onde o benfeitor categorizado e humilde se propunha chegar e adiantamo-nos, prometendo nossa adesão decidida ao programa assistencial que ele delineasse.

Dispúnhamos de oportunidade, não nos seria difícil.

Além do tempo que me era licito despender, atento à concessão dos meus superiores para cola­borar em apoio de Neves, possuía um requerimen­to em trânsito, junto das autoridades competentes, para que me fosse concedido um estágio de dois anos, em alguma das organizações destinadas, em Nosso Lar (4), aos serviços de psicologia sexual, com finalidades reeducativas, e ciente de que ele,
(4) Cidade consagrada à educação e ao reajusta­mento da alma, no Plano Espiritual. — (Nota do Autor espiritual)

irmão Félix, responsabilizava-Se pela direção de um dos melhores institutos desse gênero, pedia-lhe, por minha vez, me endossasse a petição.

Sentir-me-ia feliz com o ensejo de estudar e trabalhar, assimilando-lhe a experiência e receben­do-lhe o patrocínio.

O instrutor reafirmou a sua simplicidade, de­clarando que a obra pela qual respondia talvez não pudesse satisfazer-nos a expectativa, mas obriga­va-se — acentuava Félix, sem alarde — a favorecer-nos os estudos que intentaríamos.

Notando-me o entusiasmo, Neves não vacilou compartilhar-me os propósitos.

Faria requisição idêntica.

Nosso interlocutor, comovido, esclareceu que isso vinha reconfortá-lo, sobremaneira, porque, aten­dendo a ditames de afetividade e reconhecimento, alcançara permissão para recolher Beatriz, em sua própria residência, tão logo a esposa de Nemésio pudesse retirar-se da esfera física, depois da desen­carnação.

Hospedá-la, junto de Neves, o genitor que a filha jamais apartara da lembrança, ser-lhe-ia con­tentamento enorme.

Ambos desfrutariam abençoada convivência, re­gozijar-se-iam unidos, recordando o passado e arti­culando novos planos de trabalho e alegria.

Enquanto o devotado coração paterno se des­manchava em agradecimentos, Félix se despediu, afetuoso.

Demandando algum refazimento, esboçávamos projetos, ideando medidas de ação.

Manifestava-se Neves tocado de energias e es­peranças novas. Aguardaria a filha, sim, confiante no futuro. Almejava o reequilíbrio total, ansiava reeducar-se, a fim de lhe ser mais útil.

Emprega­ria todos os recursos, de modo a ampará-la, for­talecê-la.

Eufóricos, deliberamos concentrar, a partir do dia que se anunciava, todas as nossas atividades de vigilância ao lado de Dona Beatriz, prestes a se desobrigar das células doentes, e, certificando-nos de que a moradia dos Nogueiras reclamava plan­tão, urgia revezar-nos em serviço.

O amigo, contudo, ponderou com razão que a filha se abeirava do transe final, que receava não dispor da serenidade precisa, caso fosse defrontado, sozinho, por obstáculos constrangedores.

Era hu­mano, adorava aquela filha padecente. Queria afa­gá-la, alentá-la, conquanto não se presumisse com merecimento bastante para estender-lhe apoio e consolação.

Não seria recomendável se mantivesse, em ca­rater permanente, no lar dos Torres, ao passo que me reservaria o compromisso de cooperar na paci­ficação dos Nogueiras.

Isso apenas por alguns dias, enquanto a libe­ração de Beatriz estivesse pendente.

Tanto quanto possível, por outro lado, poderia, de minha parte, tornar para junto dele, partilhan­do-lhe o clima da filhinha agonizante, onde nos aco­modaríamos aos imperativos de nossa edificação moral, estudando e servindo, para mais amplo ren­dimento das horas.

Aquiesci, contente, àquelas nótulas sensatas.

Foi assim que, refeito, regressei, manhã alta, ao apartamento de Cláudio, no intuito de investigar, a sós, a paisagem que me pautaria o quadro funda­mental de aplicação ao dever assumido. Cabia-me conhecer as minudências, suscetíveis de adquirir maior importância, de momento para outro, esqua­drinhar pontos de apoio, tomar contactos, e, se pos­sível, ouvir pessoalmente os dois irmãos desencar­nados, que ali desempenhavam lamentável papel.

Entrei. Apenas Dona Márcia, conversando com a senhora que se incumbia das mais pesadas obri­gações no recinto doméstico, a comentarem os tópi­cos engraçados de certo programa de televisão, que a família acabava de instalar, com espírito de no­vidade e alegria.

Tudo calmo, os vampirizadores ausentes. Lim­peza e ordem.

Em dado instante, a figura de Marita invadiu-me o cérebro. Afeiçoara-me à pobre menina. Era uma filha espiritual que me tocava resguardar soli­citamente.

Desassossegado, precipitei-me para a rua e, a breve trecho, vi-a na loja colorida e simpática, ensaiando sorrisos para as freguesas bem-postas.

Abracei-a, paternalmente, expressando-lhe em silêncio votos de paz e otimismo. Ela respondeu, de modo instintivo, acalentando vagas idéias de re­equilíbrio e esperança.

Registrava-se-lhe a melhora inequívoca.

O amparo magnético assimilado funcionara, efi­ciente. Ignorando por que motivo, acusava-se tran­quila, mais forte. Repousara, reconstituíra-se. Re­tomara o gosto pelo trabalho, palestrava animada­mente, selecionando algodões estampados.

Nossa presença passou a despertar-lhe refle­xões. Não obstante opinasse nisso ou naquilo, entre as clientes amigas, começou a pensar, pensar...

Depois de alguns minutos, pressionada pelas lembranças, caminhou para o telefone e chamou Dona Márcia, perguntando se ela viria, na parte da tarde, a Copacabana, e, informada afirmativamente, rogou à mãezinha adotiva a procurasse, se possível, às quatro. Lanchariam juntas, tinha algo a dizer-lhe.

Concluí que significaria abuso incomodá-la no trabalho, em que se obrigava a retalhar atenções, através dos pensamentos descontínuos, e aguarda­mos a ocasião adequada, a fim de inteirar-nos acer­ca de atividades ou problemas em que nos fosse possível desenvolver algum préstimo.

No horário previsto, acompanhamos mãe e fi­lha até pequenino recanto de hospitaleira sorve­teria, considerando a gravidade da tarefa de que fôramos investidos.

Postadas ambas em clima de segredo, Marita desafogou-se com dificuldade, começando a falar, discreta e humilde.

Que Dona Márcia lhe perdoasse os aborreci­mentos daquela hora; entretanto, não tinha culpa.

Não desconhecia a extensão da mágoa que lhe cor­taria a alma, daria tudo para não feri-la, mas sen­tiria remorsos se não lhe contasse o sucedido. Hesitara muito, antes de resolver situá-la no as­sunto, adiantou, acanhada. Sentia-se, porém, sua filha pelo coração, devia confiar-lhe tudo.

E, na ingenuidade de moça inexperiente, rela­tou a confissão que Cláudio lhe fizera, a descre­ver-lhe os modos, lance por lance. Espantara-se, sofrera muitíssimo. Jamais esperava por semelhan­te ocorrência. Tivesse parentes e não vacilaria mu­dar-se para evitar escândalos. Era, contudo, depen­dente, sozinha. A única família que possuía eram eles mesmos, os Nogueiras, cujo nome usava, or­gulhosa, desde a infância. Andava desorientada, receosa. Pedia conselhos.

A interlocutora, todavia, escutara sorrindo, nem mesmo interrompendo, de leve, a deglutição da taça de creme, que saboreava, com requintes de paladar.

Tamanha impassibilidade esfriou a disposição da jovem, que passou a resumir, quanto pôde, as confidências e alegações que se inclinava a expen­der; e, com indizível surpresa, não somente para Marita que lhe aguardava, ansiosa, a palavra, mas igualmente para nós, que não contávamos com o ardiloso expediente de Cláudio, defendendo-se pre­viamente, Dona Márcia patenteou, no semblante sereno, absoluta incredulidade e participou que o marido, na véspera, a convidara para conversação, à parte, comunicando-lhe certas apreensões. Disse­ra-lhe que, à noite, no entendimento mantido, não tivera coragem de mencionar o assombro que o per­seguia, porqüanto julgara prudente refletir sobre o acontecimento que tanto o penalizava, antes de avançar em qualquer conclusão. Entretanto, após meditar, aturadamente, deduzira que ela, Marita, necessitava da proteção de um psiquiatra.

Dona Márcia perfilhou um tom de voz em que se conjugavam inquietação e advertência, e conti­nuou informando, informando...

Dissera-lhe Cláudio haver experimentado imen­so alívio, ao vê-la penetrando no quarto, na noite da antevéspera, porqüanto, momentos antes, ao des­pertar a filha adotiva sonambulizada, fora assal­tado por ela com muitos beijos, que lhe ouvira fra­ses inconvenientes, que se forçara à reação, pelo que a esposa percebera as vozes com as quais tan­to se assustara. Anunciara-lhe ter refletido sufi­cientemente e acabara aceitando a hipótese de um desequilíbrio. Rogara-lhe concurso para que um psiquiatra interferisse no problema. Assumiria ele a responsabilidade das despesas e, preocupado qual se achava, faria mais ainda... Envidaria esforços para que uma excursão à Argentina lhe restaurasse as energias, evidentemente alteradas.

Diante da estupefação que nos dominava, a se­nhora Nogueira tomou posição conselheiral.

Recomendou à menina procurasse esquecer, dis­trair-se. Explicou que não viera ao encontro, no intuito de abordar o caso. Ante as alegações da filha, entretanto, não encontrava outra saída, além daquela em que lhe abria o coração. Esposa e mãe, defenderia a paz de todos. Não concordava em que se tomasse partido. Cláudio, efetivamente, contraí­ra contas com ela, Dona Márcia, nas ingratidões de marido. Isso sim. Mas, no tocante às filhas, sempre tivera a conduta de pai exemplar. Nada justo in­criminá-lo. Tudo não passava de imaginação enfer­miça dela própria, Marita. Fase de moça namora­deira.

E o martelo verbal tornou aos estribilhos do passado. As festas de Aracélia, as companhias de Aracélia, as desilusões de Aracélia...

Verificando no olhar da jovem a penosa im­pressão com que era obrigada a recolher tais lembranças, a interlocutora, sem mais fundo lastro de amor para comovê-la, modificou a tática afetiva e alinhou histórias de seu conhecimento, em que sonâmbulos realizavam proezas diversas.

Argumentou que ela e Cláudio, perante a ocor­rência, que analisavam com o carinho de pais ver­dadeiros e não com qualquer espírito de censura, haviam recordado que ela, em criança, muitas ve­zes acordava aos gritos, pela madrugada, fazendo birra e queixando-se de inexplicáveis terrores.

Le­vada ao médico, o facultativo receitara calmantes. Rememorou, bem-humorada, a opinião de velho ami­go da família, que dissera a ela e a Cláudio andar a menina atacada de nictofobia, e que, somente depois, ambos recorreram ao dicionário, a fim de aprenderem que a palavra significava «medo da noite».

Dona Márcia riu-se àquelas chistosas evocações, completamente alheia à importância do assunto. Afagou os ombros de Marita e aconselhou-lhe juízo.

A jovem, perplexa, tanto quanto nós mesmos, não teve ânimo para desmentir. Ignorava como des­lindar a meada que o sedutor entretecera. Preferiu acriançar-se, aparentando aprovação com o silêncio.

No íntimo, contudo, revoltava-se.

Cláudio trapaceara e a mãe adotiva caíra no logro.

Não possuía recursos para demonstrar a ver­dade. Tocava-lhe tão-somente suportar e esperar.

Dona Márcia, no claro propósito de evitar o problema e, aliás, denotando naquela hora elogiável sinceridade na compaixão pela moça que supunha doente, convidou-a a examinarem, juntas, o primo­roso estoque de «boutique» vizinha.

Marita aquiesceu, conformada, e o entendimen­to malogrado passou, superficialmente, valendo para nós por aviso grave, a fim de que reforçássemos todo o sistema de vigilância, no compromisso assis­tencial.

Transcorreram cinco dias, sem que apareces­sem acontecimentos dignos de menção. Contava jus­tamente uma semana de contacto com os novos amigos, quando, ao partilhar as inquietações de Neves, fui procurado por atencioso companheiro a quem solicitara cooperação. Avisava-me de que cer­ta senhora demandara o banco, procurando Cláudio no assunto que nos tomava a atenção.

Ao sol da manhã em giro alto, dirigi-me para o local, encontrando-a em pequena sala de espera, contígua a extenso escritório, no qual operosa equi­pe de funcionários desdobrava operações de con­tabilidade interna.

A dama aguardava Nogueira, ausente em ser­viço.

A recém-chegada trajava-se com primor, exi­bindo, porém, o ar das mulheres que, depois de perderem as ilusões, acabam fazendo negócio dos prazeres que já não são mais capazes de usufruir.

Detínhamo-nos no exame despretensioSO da personagem que tangenciava com a nossa história, quando Cláudio se apresentou, lépido e bem-posto. Junto dele, o acompanhante desencarnado, qual se lhe fora a sombra, não mais me admirando vê-los visceralmente associados, pensando e falando em absoluta simbiose.

Conheciam-se os dois, porqüanto ele a nomeou, para logo, de madame Crescina, inclinando-se, familiar, para a conversação cochichada, demonstran­do-se ambos naturalmente acostumados aos segre­dos que se transmitem, da boca ao ouvido.

Alguma novidade? — indagou ele, esfregan­do as mãos uma na outra, com o sorriso brejeiro de quem prelibava festas.

A visitante, contudo, falou, encabulada, dos motivos que a traziam.

Recebera-lhe Marita, a filha adotiva, horas an­tes, e, sinceramente — informava —, não conseguira subtrair-se ao obséquio que lhe suplicara com lá­grimas.

Diante do interlocutor, atento, prosseguiu co­mumcando que a moça desejava encontrar-se, na noite próxima, com Gilberto, um rapaz que, vez por outra, lhe freqüentava o casarão. Escolhera para isso o compartimento separado, nos fundos, o nú­mero quatro, por mais reservado e acolhedor. A pobre criança — acentuava, compadecida — for­mulara-lhe o apelo, em caráter confidencial. Pro­pusera-lhe a concessão, muito abatida, nervosa. Não pudera alhear-se ao pedido.

Também tinha duas filhas no mundo, também era mulher. Acedera.

Mas, não era só isso. Marita remunerara-a, com bondade, para encarregar-se de entregar um bilhete ao filho dos Torres.

E, perante os olhos espantados do amigo, que acumulava na curiosidade o anseio do vampirizador, a confidente arrancou da bolsa o documento pe­quenino, em que a jovem implorava ao namorado fosse vê-la, às oito da noite, no lugar indicado. Saberia não incomodá-lo, não tivesse receio. Roga­va-lhe a presença e solicitava resposta.

Cláudio lia, lia, entre ciumento e indignado. Sim — refletia —, era o cúmulo do sarcasmo. Gilberto a governá-la daquela maneira! O comparti­mento dos fundos, o número quatro!...

Conhecia-o. E esquisita coincidência! Era o recanto que ele tam­bém, por vezes, elegia para si próprio, quando bus­cava a pensão alegre de Crescina, para entreter-se, descansar... Marita, sem saber, compartia-lhe as preferências!... O despeito comprimia-lhe o cora­ção, enquanto o «outro» se demorava a enlaçá-lo, estampando no rosto larga expressão de astúcia.

A empreiteira de regalias noturnas cortou a pausa longa, repetindo que não lhe era lícito esquivar-se; entretanto, acrescentou, ladina, que ele, Cláudio, era cliente de sua casa e, por isso, colo­cava-o ao corrente dos fatos, não só por dever de lealdade aos fregueses, como também para evitar aborrecimentos, suscetíveis de atrair os olhos da polícia que nunca interferira nas acomodações e negócios que lhe diziam respeito.

Para isso, inteirava-o de tudo e pedia conselhos. Nogueira reprimiu a cólera e vimo-lo interessado em concentrar-se mentalmente, esquadrinhan­do a cabeça, à cata de idéias.

Ignorando embora que se acostumara a absor­ver-se nas sugestões de uma inteligência estranha à dele, buscava-lhe, sequioso, os estímulos, supondo naturalmente que batia às portas da imaginação para desencravar os pensamentos.

Obsessor e obsidiado passaram a trocar im­pressões, de cérebro a cérebro. Alguns momentos de ajuste silencioso e mecânico, que um observador terrestre interpretaria como sendo vertiginosa fa­bulação, e os dois entraram em acordo implícito.

Alcançamos semelhante conclusão, pela rama, ao vê-los repentinamente asserenados, já que não me sentia capaz de verificar-lhes planos e intentos, forçado que me reconhecia a dividir atenções, entre eles e a recém-vinda, cujos informes e apontamen­tos não me cabia perder.

Cláudio esboçou um sorriso amarelo. Em se­guida, agradeceu a gentileza de que se tornava ob­jeto, passando a extravasar as alegações fantasio­sas que começara a elaborar. Disse à amiga, sur­presa, que Marita realmente assumiria, talvez em dias breves, compromisso de matrimônio com o ra­paz e que, não obstante considerasse a entrevista mencionada pura irreflexão de jovens, concordava em que madame Crescina levasse o bilhete, alco­vitando a conferência afetiva.

Logicamente, acrescentou a mascarar-se de bom-humor, que os meninos teriam entrado em ar­rufo e aspiravam à reconciliação. Sim, não iria pessoalmente criar qualquer obstáculo. Preferia aconselhar a filha, no dia seguinte.

Entretanto, aduziu após refletir um minuto em consonância com o amigo invisível, gratificá-la-ia por um obséquio, de vez que tendo paternal inte­resse em que se efetuasse o encontro dos jovens, aos quais se permitia chamar “quase noivos”, soli­citava-lhe fosse o bilhete entregue somente às duas da tarde, horário em que Gilberto estaria no escri­tório com toda a certeza.

Dona Crescina prometeu satisfazê-lo, recolhen­do a gorjeta e anunciando que telefonaria para a moça, depois do ajuste, a sorrirem-se ambos no aperto de mãos.

Restituído a si próprio, Nogueira, sempre enla­çado pelo obsessor, não se deu tempo a maiores reflexões.

Aproximou-se do telefone e vacilou um instan­te. Pensou consigo que essa era a primeira vez que se dirigiria ao rapaz que detestava.

A hesitação, porém, não passou de segundos. Discou, resoluto, para Gilberto.

Atendido, prontamente, formulou a consulta, untando a voz de cortesia. Se possível, desejava vê-lo e ouvi-lo, solicitar-lhe um favor com vanta­gens mútuas, mas rogava-lhe a gentileza da dis­crição. Entendimento pessoal para aquele instante.

O rapaz gaguejou do outro lado, denotando viva emoção, e aquiesceu sem muitas palavras.

Ambos consultaram o relógio. Onze em ponto.

Ele, Cláudio, seguiria de táxi para o almoço, em casa, no Flamengo, e esperá-lo-ia no Lido.

Não se preocupasse o interlocutor. Conheciam-se bas­tante, embora sem contactos pessoais.

Além disso, abordá-lo seria fácil para ele. Conhecia-lhe o carro.

Efetivamente, escoados que foram alguns mi­nutos, achávamo-nos os quatro, Cláudio, Gilberto, o assessor espiritual de Nogueira e eu, no lugar indicado.

O jovem, muito pálido, assemelhava-se ao alu­no culpado que comparece diante do professor, mas o sorriso largo e calculado com que era recebido colocou-o à vontade, mais apressadamente que su­punha.

Caminharam, lado a lado, permutando banali­dades sobre o tempo, até que se instalaram num recanto de bar, à frente de um guaraná que to­caram, de leve.

Cláudio, aparando as cinzas do cigarro, de mo­mento a momento, esforçava-se, quanto possível, por parecer natural.

Invariavelmente ligado ao vampirizador que o não perdia, começou dizendo ao filho de Nemésio que lhe entendia a situação com clareza; que o sa­bia, de certo modo, inclinado para Marina, a filha legítima, e que, na condição de genitor, conquanto se visse na obrigação de preservar-lhe a felicidade, não devia bisbilhotar, à margem de assuntos pri­vativos deles dois; entretanto, acentuava, dramá­tico, criara Marita, igualmente por filha; amava-a, enternecidamente, e anelava para ela o bem-estar que sonhava para a outra.

Gilberto, inexperiente, escutava embasbacado, comovido.

O antigo bancário, aparentando elevada con­descendência, asseverou que, em verdade, somente atribuiria ao destino a coincidência que vinha de observar, porqüanto se achava convencido de que ambas as meninas queriam o moço, talvez com análogo afeto.

Verificava, assombrado, a máscara de paternal ternura com que Nogueira recobrira o semblante.

No íntimo, acalentava a repulsão, dura, violen­ta. Dissimulava, habilmente, os ímpetos de amarrotar o filho de Beatriz que, satisfeito e acalmado, lhe agasalhava as afirmações.

Reprimindo-se, prosseguiu astucioso.

Salientou que, decerto, a menina bisonha, ao albergar-lhe os testemunhos de apreço, escorregara na paixão, que lhe devastava, agora, a juventude em psicose e doença. Preocupava-se, afligia-se. En­contraria recursos para sanar as dificuldades, mas, para isso, constrangia-se a solicitar-lhe concurso, a fim de que Marita sofresse menos.

Contaria com ele e, ao registrar-lhe as primei­ras palavras de assentimento, baixou o tom de voz, anunciando-lhe em caráter confidencial que a filha adotiva lhe escrevera um recado. Sabia disso. Com­pondo o quadro estudado de interesse paternal, indagou se ele havia recebido. Ante a resposta negativa, explicou que a moça lhe endereçara um papelucho, no qual lhe rogava um encontro para a noite. Sem que lhe suspeitasse do zelo, conse­guira ler o petitório, tanto assim que poderia re­peti-lo. E recitou de cór o pequeno texto, sílaba a sílaba, dando a impressão de proceder assim para exteriorizar com mais segurança o próprio enter­necimento.

Depois de caracterizar o papel, rogava ao ra­paz dois favores: responder afirmativamente, por escrito, que estaria no local indicado, atendendo ao horário certo, e abster-se de comparecer no mo­mento preciso.

Fantasiou que a menina andava desorientada, enferma - Temia um choque. Não dispunha de ou­tro remédio senão pedir-lhe aquele tipo de coope­ração. Isso porque, naquele mesmo dia, estava pro­videnciando a aquisição dos documentos necessários, para que ela fosse à Argentina, em companhia de Márcia, numa viagem de refazimento e recreio. Não seria prudente estragar-lhe o ânimo, naquela hora, com uma negação formal. Naturalmente que o in­terlocutor era dono de si.

Agisse como melhor lhe parecesse. Ele, porém, nos sentimentos de pai que o moviam, receava conseqüências. Nada custaria satisfazer-se àquela particularidade que considera­va providencial. Se Gilberto aprovasse a idéia, ele próprio, Cláudio, se incumbiria de buscá-la, no en­dereço marcado, não só com a noticia positiva da viagem, no bolso, de modo a proporcionar-lhe reno­vadora alegria, ao mesmo tempo que poderia apre­sentar a ela as desculpas dele, quanto à ausência.

Compreensível que, com a autoridade afetuosa de pai amigo, se responsabilizasse pelas escusas do moço, de vez que usaria o tato imprescindível.

Por fim, consultava-o como justificá-lo, no ins­tante oportuno, se devia alegar a razão do bolo como sendo negócios, serviços, empeços domésticos ou inesperado afastamento do Rio.

O filho dos Torres ouviu tudo, encantado.

A proposta pareceu-lhe uma peça vazada em profundo bom-senso. Além disso, respirava feliz. Verificava haver encontrado alguém que o levaria, passo a passo, a libertar-se de um compromisso que lhe pesava demasiado na consciência.

Chegado a esse ponto, desinibiu-se. Perdera os derradeiros resquícios da desconfiança com que iniciara a conversação. E, ao desembaraçar-se, afi­xou a máscara fisionômica que julgou cabível à defesa das próprias conveniências, asseverando que dedicara a Marita uma boa amizade, de irmão para irmão, nada mais. Destacou que, efetivamente, no­tara nela determinadas alterações que o haviam desgostado, e, já que se sentia inequivocamente atraído para Marina, afastara-se, cauteloso, na ex­pectativa de que tempo e distância funcionassem.

Cláudio escutava, boquiaberto, admirando-lhe a delicada frieza das justificações e indagando a si mesmo qual deles dois seria maior na arte de fingir.

Francamente encorajado, Gilberto declarou que Lhe compreendia as apreensões, quanto lhe aceitava conselhos e bons ofícios. Escreveria, obrigando-se a comparecer, mas não arredaria pé de casa, mes­mo porque Marina fora a Teresópolis, pela manhã, a serviço da companhia, e talvez só regressasse no dia seguinte. O senhor Nogueira, qual o chamava, em buscando a menina, às oito, estaria autorizado a comunicar-lhe, da parte dele, o agravamento da saúde materna. Não seria falso, ajuntou, porqüan­to a genitora extinguia-se, lentamente.

Cláudio, obtendo o que desejava, refletia no rosto a satisfação que, somada ao voluptuoso pra­zer do obsessor que o assessorava, parecia interesse afetivo, devotamento. Finalizando, asseverou-se no­tificado quanto à viagem da filha, e reportou-se, em termos carinhosos, à situação de Dona Beatriz, que ele e Márcia visitariam. Destacou as acerbi­dades dos impedimentos em família, durante as mo­léstias longas, apelou para o otimismo necessário e, ateu confesso, chegou até mesmo a exalçar a confiança que se deve ter em Deus, no decorrer de tais circunstâncias.

Montada a obrigação que os jungia, separaram-se com abraço efusivo, enquanto, de nossa parte, rumamos do Lido para o Flamengo, penosamente intrigados, conjeturando sobre o que estaria por suceder.
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