Grupo de estudo das obras de andré luiz e




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(Fonte: capítulos 6 a 11.)
1. Chega uma carta de Rafael - Artêmis não conseguia refazer-se dos suces­sivos choques. Adicionava-se à angústia decorrente da enfermidade do es­poso a inquietação com a problemática de Lisandra. Por duas noites e dois dias ininterruptos, a jovem ficou dominada pelas "ausências", assi­naladas então por distúrbios incompreensíveis. Eram monólogos, du­rante os quais ela exteriorizava expressões excruciantes de horror, que inspi­ravam profunda compaixão, seguindo-se a eles demorado período de total alheamento da realidade. Se recobrava a lucidez, logo prorrompia em de­moradas crises. O médico que a tratava desde a infância declarou-se im­potente para debelar o mal. O facultativo inteirou-se do drama que aba­lara a família naqueles dias e pôde compreender, assim, que os aconteci­mentos produziram em Lisandra um trauma, acompanhado de conseqüente de­pressão moral, que, segundo sua opinião, seria de longo curso. Receitou-lhe calmantes e recomendou paciência e vigilância, com o que o problema seria superado, a pouco e pouco. Artêmis e Hermelinda não dis­punham, pois, do necessário tempo para reflexão, mas nos breves momentos que se permitiam entregavam-se à oração, o que minorava a ardência das aflições que as venciam inexoravelmente. Gilberto, adolescente ainda, aos quinze anos, deu-se conta de todo o dissabor e da gravidade da hora. O sofrimento da família precipitava-o às responsabilidades, em face da ausência paterna. Assim é que ele também procurava confortar a mãe e a tia, crescendo moralmente junto às duas mulheres crucificadas nas traves do testemunho redentor. Toda tempestade, por maior que seja a sua força, acaba amainando, cedendo à força pacificadora da bonança. Com efeito, passada uma semana de dores e apreensões, o lar de Lisandra readquiriu o aspecto anterior, onde, agora, a melancolia substituía os poucos sorri­sos e a saudade envolvia de tristeza os corações. Foi quando chegou a primeira carta do querido ausente. (Cap. 6, págs. 57 e 58)
2. Os exames nada acusam - A carta não era portadora de esperança ou consolação. Ainda traumatizado profundamente, o esposo e pai, embora es­forçando-se por ocultar seu estado íntimo, narrava as ansiedades do co­ração e a imensurável revolta ante o golpe sofrido. Declarava, ainda, que, se sou­besse que havia contaminado algum dos seus, não suportaria essa infame desdita, porque então se mataria... No conteúdo de  ácido e fel havia o amor corroído pelo desaire, quando este poderia ser o leni­tivo para to­dos os sofrimentos e o sustentáculo para todas as fraquezas. Algum tempo depois, atendendo à notificação do Serviço de Saúde, a famí­lia apresen­tou-se para os exames de praxe. Ao dermatologista causou pie­dade o es­tado físico e moral dos Ferguson... Os jovens afastaram-se das aulas, enquanto aguardavam os resultados dos exames. A família de Artê­mis foi informada por esta, vindo alguns irmãos pressurosos oferecer ajuda e propor retorno para a Fazenda, onde poderiam fruir de vida regu­larmente folgada e tranqüila. Ela, todavia, não desejava ampliar a dis­tância en­tre si e o marido, considerando, também, a ignorada enfermidade de Li­sandra, motivo de crescente e constante preocupação. A solidarie­dade do velho pai e dos irmãos de Artêmis atestou a excelência dos valo­res espi­rituais de criaturas humanas que eram. Artêmis decidiu, por­tanto, perma­necer na Capital, cotizando-se o pai e seus irmãos com o ob­jetivo de as­sumirem os encargos financeiros da família em sofrimento. Gilberto dis­pôs-se a trabalhar de dia e estudar à noite, e todos aguar­davam o futuro conforme assim decidisse a divina vontade, quando saiu finalmente o re­sultado dos exames. Ninguém, ali, estava contaminado e essa notícia foi, depois da noite escura, o primeiro abençoado dia de sol que clarificou aqueles espíritos, colhidos na luta evolutiva pelos impositivos de erros do passado. (Cap. 6, págs. 58 a 60)
3. Lisandra deixa a escola - Com o tempo, o lar dos Ferguson adaptou-se às anteriores condições da sobrevivência. Em verdade, a família subme­teu-se às contin­gências novas com esforço hercúleo, sopitando aspirações e transferindo programas. A felicidade transformou-se em resignação, e a alegria tor­nou-se morna tranqüilidade superior, que ocultava ebulição facilmente perceptível, em ritmo que exterminaria as suas vítimas a qualquer nova sobrecarga. Gilberto empregou-se numa casa comercial, ad­quirindo total consciência de responsabilidade; tornara-se, porém, mais introspectivo, como um fogoso corcel em brida curta que a vontade férrea manietava. Li­sandra descambava, porém, lenta e continuamente, para um doloroso processo de alienação auto-obsessiva. Privada, por conselho mé­dico, de continuar os estudos, deixava-se arrastar pelo alheamento e pe­las crises periódicas, com maior vigor nos dias do fluxo menstrual. Li­sandra aca­lentava, então, a autocompaixão, fixando ainda mais o desequi­líbrio nas tecelagens sensíveis do perispírito. Intimamente rebelde, sentindo a au­sência do pai que a mimava e em quem encontrava estímulos oriundos da atividade subjacente desde a existência passada, fugia psi­quicamente à realidade, permitindo que os clichês mentais ressurgissem nebulosos, produzindo-lhe inquietação em alguns momentos e, noutros, profunda me­lancolia. Parecia recordar-se de prazeres nos quais fora per­sonagem de relevo e revia-se, mentalmente, requestada, numa sociedade ociosa em que sobressaía pela beleza e futilidade, pela posição social e permissivi­dade disfarçada, que usufruía. Nessa situação, a memória re­ferta de sen­sações orgíacas divagava e Lisandra recolhia-se com avidez à penetração, cada vez mais ansiosa, da paisagem íntima que a agradava. Sua mãe nada sabia dessas divagações e ela mesma pensava, talvez, que fosse tudo ima­ginação, sem entender direito as ocorrências que a delei­tavam. Era esse o seu "mundo feliz", conforme imaginava, exceto quando, em face de qual­quer problema que a excitasse, fugia, atendendo a pode­roso mecanismo que ela não compreendia, para as "ausências", nos des­maios em que sucumbia, o que ocorria também quando a regressão da memó­ria em devaneio defron­tava os episódios macabros de que acreditava haver participado, na­quele mundo mental, e que a censura automática dos cen­tros da consciên­cia se negava revelar com toda a força de sua realidade. (Cap. 7, págs. 61 a 63)
4. Causa da auto-obsessão - O problema da auto-obsessão decorre da ne­cessidade que o Espírito se impõe, no processo reencarnatório, de expun­gir crimes perpe­trados e que não foram denunciados, nem justiçados a seu tempo. A culpa insculpida nos mecanismos do ser consciente, nos recessos da alma, é brasa viva a requeimar, até que se dilua pelo soerguimento do defrauda­dor da justiça, quando se sinta recuperado e quite, desapare­cendo, en­tão, os agentes causadores do desequilíbrio. Após identificar os erros, quando na erraticidade, o Espírito reencarna com a consciência do desa­cato às Leis Divinas, sabendo-se carente de reeducação. Permane­cem-lhe semi-apagadas as reminiscências que procura esquecer no mergulho carnal. No entanto, o arrependimento como o remorso ressuscitam-nos, dando-lhes mais vigor e infundindo receios profundos, graças à lucidez adquirida quanto à responsabilidade dos mesmos delitos que devem resga­tar. Durante a reencarnação, em que as lembranças transatas normalmente se apagam, as de natureza criminosa desatrelam-se de permeio com as construções men­tais do cotidiano, gerando perturbações, receios aparen­temente infunda­dos para o observador comum, aumentando a pouco e pouco sua liberação quase total e reincorporando-se à personalidade, em forma de pensamentos atuais, tumultuados e desconexos. O paciente incurso em tal processo con­centra-se no obscuro poço das recordações que se acen­tuam e tomba em alucinações e delírios, porque são invadidos os centros da consciência pe­las fortes impressões desagradáveis e trágicas, de que se desejava li­bertar. Desaparecem os contornos das aquisições do mo­mento, enquanto ressumam as experiências arquivadas, que passam a gover­nar em desalinho as reações da emotividade do "eu" consciente, produ­zindo a alienação. Sua reativação, mesmo por processos indiretos, faz que o enfermo se auto-apiéde do que lhe ocorre no mundo íntimo, criando as auto-ob­sessões, geratrizes de psicoses várias, quais a maníaco-de­pressiva -- que se expressa, dentre outra forma, pelas tentativas de suicídio com que o Espírito reencarnado supõe evadir-se novamente à jus­tiça de que necessita -- e as perturbações mentais da epilepsia, em que as cenas hor­rendas conduzem-no às "ausências", às convulsões, em face dos desequi­líbrios e das conseqüências daqueles mesmos delitos, impres­sos como dis­túrbios na engrenagem encefálica, pela presença das in­fecções e das dis­ritmias, que são parte expressiva das psicoses endóge­nas, estudadas pela Psiquiatria moderna. (Cap. 7, págs. 63 e 64)
5. Terapêutica da obsessão - Vê-se, assim, por ponderáveis razões, que o esquecimento das vidas anteriores é misericórdia e sabedoria divina para com os ho­mens. As síndromes das enfermidades mentais têm raízes no espí­rito endi­vidado e são recursos punitivos e reeducadores de que se uti­liza a vida, em nome da Divindade, para lecionar justiça e administrar evolução aos que se negam à vivência dentro das linhas do amor, conforme o ensinaram todos os construtores éticos da Humanidade, especialmente Jesus, o amor por excelência de todas as criaturas. Em Lisandra, a crise epiléptica resultava do pavor que lhe inspiravam as reminiscências cul­posas, fa­zendo-a fugir da organização somática. Embora reencarnada, des­ligava-se parcialmente do corpo, induzida pelo medo, quando, então, de­frontava os cúmplices e as vítimas do passado que a haviam reencontrado, nela produ­zindo os justos horrores que a vingança infeliz propicia. Sa­cudido pelas altas cargas energéticas que procedem do espírito e atuam no encéfalo, este produzia as convulsões, levando Lisandra a automatis­mos psicológi­cos, nos quais se exteriorizava verbalmente, com palavras que retratavam retalhos das experiências pretéritas que se negava acei­tar. Artêmis in­sistia com a filha, tentando arrancá-la à prostração, e emulava-a às prendas domésticas, cujo labor lhe seria proveitoso, com mínimos resul­tados. O espírito viciado e indolente instava por cultivar infelicidade, pessimismo, deixando-se sofrer parasitariamente e ense­jando o intercâm­bio com os inimigos desencarnados que lhe aumentavam as dores e receios, dando curso à obsessão. Em problemas dessa natureza, a terapêutica deve iniciar-se sempre pela conscientização do paciente, re­educando-se-lhe a vontade, disciplinando-o e motivando-o à aquisição de idéias nobres, me­diante o exercício de leituras salutares, diálogos oti­mistas e positi­vos, oração e reflexões nobres, passando-se à fluidotera­pia ou reali­zando-a simultaneamente, pelo processo dos passes, da  água fluidificada, utilizando-se a laborterapia e, em casos mais graves, os específicos da técnica psiquiátrica. (Cap. 7, págs. 64 e 65)
6. O maior inimigo do auto-obsidiado - No tratamento da obsessão, não há dúvidas quanto aos promissores e relevantes resultados que se obtêm através da renovação íntima do en­fermo, da radical mudança dos velhos hábitos para as realizações edifi­cantes, e os exercícios da caridade ao próximo, que, em última análise, representam caridade para consigo pró­prio. O conhecimento da reencarna­ção, fora dos núcleos espíritas, vai lentamente propondo mudanças auspi­ciosas na forma de encarar-se um sem-número de ocorrências, sugerindo práticas não ortodoxas diante de enfer­mos e perante enfermidades tidas como verdadeiros flagelos sociais que, ainda, prosseguem como tais. Não está  longe o dia em que as "ciências da mente" recorrerão ao Espiri­tismo, verdadeira "ciência da alma e da vida", para beberem na sua fonte os informes que lhes faltam, de cujos resultados se felicitará  a Humani­dade, colocando-se definitivamente a luminosa ponte que ligará  a Ciência à Religião, originando-se uma nobre filosofia de vida para o ser humano, que, então, se sentirá  mais feliz e mais irmão do seu próximo, conforme a previsão estatuída nos ensinos evangélicos. Lisandra, auto-obsidiada pelas evocações inconscientes, anulava os esforços do médico e dos fami­liares, por enjaular-se na obs­tinação cega de ser e permanecer inditosa. Todo problema deve constituir um repto ao valor moral do homem, a fim de ser solucionado. Submeter-se passivamente a qualquer conjuntura de dor, ignorância e sombra resulta de tácita covardia moral ante a luta, na qual todos devem investir es­forços para superar as dificuldades e ins­taurar triunfos que produzem seres ditosos. O maior inimigo do paciente auto-obsidiado é a sua cons­ciência de culpa, de que não se esforça, re­almente, por libertar-se, conseguindo merecimentos pelo uso bem dirigido da força que empreende para a regularização de erros pungentes. No capí­tulo das auto-obsessões aparece vasta gama de alienados, egoístas, nar­cisistas, hipocondríacos, exibicionistas etc., em cuja gênese da enfer­midade se fixam complexas matrizes para a fascinação e a subjugação, que procedem dos Espíritos infelizes que lhes são afins ou se lhes vinculam por processos cármicos redentores. A psicoterapia do Evangelho é, porém, em toda e qualquer in­junção, o mais eficaz medicamento para a alma e, consequentemente, para a vida. (Cap. 7, págs. 66 e 67)
7. Progressos no tratamento dos hansenianos - No Hospital, Rafael fez-se mais arredio e completa­mente anti-social, mesmo entre os que lhe compar­tiam a enfermidade, pelo impositivo coletivo dos resgates imperiosos. Apesar da gentileza e da assistência fraternal recebida do enfermeiro Cândido, ele entregou-se a crua melancolia e a funda revolta. Tudo quanto se encontrava em poten­cial nos recessos do ser -- que trazia em germe as pesadas cargas da animosidade e da acrimônia -- contribuiu para que se consumisse na com­bustão da prova, por ele recebida com rebeldia superlativa. Rafael es­tava longe do espírito de resignação e humildade. animo exacerbado, quase violento, fez-se elemento pernicioso no Hospi­tal, implicando com médicos, enfermeiros e funcionários. Como não conse­guisse ocultar a má­goa da vida, gerou um clima de hostilidade contra ele próprio. Nem Cân­dido, que era amado pelos demais enfermos e o atendia com devotamento de irmão leal, não logrou modificar-lhe as disposições íntimas. Alegre, sem cultivar a balbúrdia, o enfermeiro era bondoso sem alarde e trabal­hava por todos por espontâneo interesse, sem receber quaisquer estipên­dios, além dos parcos vencimentos com que provia, com nobreza, a subsis­tência própria e a de seus familiares. Pai extremoso, era conhecida a sua compostura moral, tornando-se homem de conduta pa­drão no lar e na rua, exemplo de discreto e humilde cultor dos caracte­res do verdadeiro homem de bem. Naquele tempo fora descoberta e ini­ciava-se uma nova te­rapêutica à base das sulfonas, que se apresentavam como um filão de es­peranças para os hansenianos. Rafael, contudo, rece­beu tais notícias com sarcasmo e mordacidade infelizes, no seu habitual estado de rancor pela vida. Ao mesmo tempo, a técnica, a serviço da saúde, transformava os velhos Hospitais em Colônias alegres, onde se po­diam formar grupos e co­munidades equilibrados, seguindo-se no Brasil ex­periências realizadas com êxito em outros países. Assim, os pacientes do Lazareto foram trans­feridos de local, desfrutando todos de uma ampla  área verde e urbani­zada, onde recomeçariam o ciclo da vida ao ritmo da esperança nova, com possibilidades de egressão. Já  se assinalavam, as­sim, as primeiras li­cenças e as liberações dos pacientes que se tornaram "não contagiantes", permitindo-se seu retorno ao convívio social. Claro que muitos eram re­chaçados e volviam à Colônia, deprimidos, enquanto ou­tros, menos mutila­dos, que podiam ocultar o mal, se reintegravam à so­ciedade. (Cap. 8, págs. 69 a 71)
8. A doença segue o seu curso - Agrilhoado pela lepra mista, isto é, a nervosa e a tuberosa, Rafael não fruía a ventura de pelo menos amainar a morféia, já  que se lhe afigurava impossível debelá-la. Ignorava e tei­mava por ignorar o valor da contribuição pessoal, através do cultivo das forças superiores pelo pensamento edificado no bem, suscetíveis de rea­tivar as energias físicas e mentais, como se adquirem créditos, graças à submis­são resignada com que se minoram os gravames sofridos e se reorga­nizam os mapeamentos do determinismo espiritual, modificando-se, não raro, os quadros patológicos, as linhas do destino, as diretrizes da vida... As­pirando as vibrações inferiores e mefíticas que dele mesmo emanavam, mais sucumbia com o corpo em deformação e a alma mutilada, en­carcerada na concha do orgulho ferido. Suas alegrias eram a correspon­dência do lar, na qual a esposa e os familiares ocultavam as agonias so­fridas, apresentando-lhe um quadro irreal de ventura que, em verdade, não exis­tia. Era esta uma forma de animá-lo, fortalecendo-o para a espe­rança que ele se negava. Suas missivas eram, por outro lado, sombreadas por pers­pectivas negras, carregadas de fel. Desde o princípio proibira, termi­nantemente, a família de visitá-lo, o que seria uma terrível ofensa para ele. Desejava ser recordado conforme vivera em casa, não como um pária, um réprobo assinalado pelas deformações que lhe afeavam a aparên­cia e o corpo. A vaidade fútil e vã permanecia nele mais terrível e odienta do que a doença em si. As doenças morais são mais nefastas, por­que de­compõem o homem de dentro para fora, ao inverso das outras, de or­dem fí­sica. Foi nessa época que Cândido lhe confidenciou ser espírita, escla­recendo-o, em contínuas conversações, quanto aos postulados cen­trais da Doutrina codificada por Kardec e insistindo no tema e ensino das leis de causa e efeito, fatores centrais e causais para as reencar­nações, por cujo meca­nismo se podem explicar todos os problemas humanos e sociais vigentes na Terra. Rafael o ouvia com respeito e admiração, mas, fixando-se nas idéias negativistas de sempre, acabou tornando-se fácil joguete de seus inimigos desencarnados que o espreitavam e perse­guiam, estabelecendo-se nele dolorosa parasitose obsessiva que o apo­quentava, induzindo-o a uma posição odienta entre todos, a um passo da loucura total. (Cap. 8, págs. 71 a 73)
9. Objetivo das vicissitudes da vida - Sofrendo a compulsão expiatória a que se submetiam, a família e Rafael reconquistavam pela dor os recursos que a insânia os fizera malbaratar, com as decorrentes complexidades que se expressaram na perversidade e exploração que impuseram aos que lhes de­veriam compartir os bens... A carga de culpas agora os alcançava como medida salvadora com que se enriqueceriam de bens morais para as provas futuras. Era natural, pois, que transitassem entre desassossegos, na ex­pectativa de novas e desesperadoras surpresas. Kardec tece os seguintes comentários à questão no 399 d' O Livro dos Espíritos: "As vicissitudes da vida corpórea constituem expiação das faltas do passado e, simultane­amente, provas com relação ao futuro. Depuram-nos e elevam-nos, se as suportamos resignados e sem murmurar". Muitas vezes o Espírito conserva a intuição das expiações a que deve submeter-se, vivendo à espera da ocorrência saneadora, o que já constitui um sofrimento. Quando em estado de sono, parcialmente lúcido, inteira-se do que lhe cabe ressarcir e anela mesmo pelos meios com que se pode liberar da constrição do re­morso, ante a percepção dos gozos e venturas que o aguardam, cessada a pena. Noutros casos, roga que lhe antecipem a regulari­zação das dívidas e a chegada dos sofrimentos, prometendo-se coragem e valor ante os su­cessos dolorosos. Nesses momentos de maior sintonia com a responsabili­dade, seu anjo guardião lhe transmite altas dosagens de emulação e vita­lidade para não deperecer, sustentando pelos poderosos fios do pensa­mento um vigoroso intercâmbio com as nascentes superiores da vida. Era o caso de Artêmis e Hermelinda, que, por procederem de es­tirpe espiritual elevada, dispunham de mais amplas possibilidades e fruíam, assim, de maior dosagem de forças morais para sustentar-se nas aspérrimas conjun­turas que as alcançavam. (Cap. 9, págs. 75 e 76)
10. Lisandra é também hanseniana - D. Adelaide, mãe de Artêmis, reinte­grara, ao desen­carnar, as hostes a que se vinculava antes da reencarna­ção, podendo auxiliar, assim, as sofridas mulheres. Era ela uma espécie de anjo tute­lar, instando pela ascensão dos entes queridos ainda imanta­dos à reta­guarda. Em sua última existência carnal, vivendo entre a gente simples do interior, descobrira excelente campo de trabalho em que materiali­zara, pela vivência, as virtudes da fé e da caridade, tornando-se verda­deira mãe espiritual de homens, mulheres, crianças e velhinhos desvali­dos, para os quais as arcas do seu amor estavam sempre abertas de par em par. Sob sua inspiração, a fraternidade, na Fazenda, substituíra a arro­gância e o preconceito decorrentes das diferenças econômicas; a fé reli­giosa, espontânea e simples aquecera os corações; o trabalho enflores­cera as almas. Conseguira, assim, imprimir na família o respeito ao próximo, fosse qual fosse a sua posição, transmitindo aos filhos, além do exemplo vivo, as virtudes do coração de que Artêmis se fizera ates­tado inequívoco. Hermelinda se lhe vinculava afetivamente por vida pre­cedente, havendo nela os "plugs" da emotividade e da sintonia per­feita com que lhe recebia a inspiração. Diferentes eram os casos de Li­sandra, Gilberto e Rafael, que, emaranhados entre si pela trama dos su­cessivos amores e desventuras que perpetraram e em que se mancomunaram, possuíam menos resistências morais, enovelados na expiação educadora, que a pouco e pouco os adestrava para cometimentos mais relevantes. Oito longos anos se haviam passado, quando Lisandra -- cujo quadro psíquico apresentava sensível e contínuo agravamento -- apareceu com os alarman­tes sinais da hanseníase. Contava então 22 anos. A jovem não era porta­dora de beleza física ou de magnetismo pessoal expressivo; ao contrário, dela emanavam -- como resultado de seus deslizes espirituais do passado -- vibrações desconcertantes que desagradavam quantos lhe privassem da convivência. Arredia, pouco loquaz, tornara-se tímida e não fruíra das alegrias da mocidade, recolhida aos muros da desolação em que refundia a vida... Não poderia, pois, ser maior o drama que a notícia produziu em Artêmis, que não se esquecera da ameaça de suicídio feita por Rafael, se um dia viesse a descobrir o infortúnio da filha ou de outro da casa por sua su­posta culpa. (Cap. 9, págs. 77 a 79)
11. Lisandra é tratada em casa - O médico, Dr. Armando Passos, agora mais envelhecido, que acompanhava a dolorosa via crucis da família, sa­bendo da ameaça de Rafael, disse a Artêmis que o enfermo, que ele conhe­cia de perto, era capaz de cumprir, de fato, a ameaça. Era preciso ter, portanto, muito cuidado. "Transferir Lisandra para outra cidade" -- considerou Artêmis -- "será  condenar-me à morte. Só a divina providência nos sustenta neste demorado transe, e não sei quanto agüentarei". "E ela, cuja saúde mental não é das melhores, como suportar  sem sucumbir na loucura total, longe da nossa vigília e paciência?" O médico ficou sinceramente condoído ante as vicissitudes da família. Superados os dias das ambições e vencidos os trâmites das humanas vaidades, ele refundira os conceitos sobre a vida e tornara-se, verdadeiramente, um sacerdote da saúde, não mais um profis­sional mecânico junto aos pacientes. A vida lhe trouxera regular cópia de decepções e sobrecarregaram-no com necessários e ingentes infortú­nios, como são chamadas as provações pelos homens, quando um dos filhos fora vítima de terrível acidente automobilístico do qual saíra paralí­tico, por seccionamento medular, na região da coluna cervical. Decorri­dos alguns minutos de silêncio, ele informou à genitora de Lisandra: "Há , na atualidade, e já  de algum tempo, uma forte corrente científica que luta por não isolar o hanseniano, mantendo-o na convivên­cia familiar. Sabemos que o contágio normalmente se dá  no período da in­fância, ficando o bacilo inoculado por muito tempo. Como não há  criança em casa, poderemos examinar a possibilidade de utilizar a terapêutica de ambula­tório, desde que a doente seja necessariamente mantida em compar­timento à parte..." Tudo foi feito como sugeriu o médico, que, dias de­pois, foi pessoalmente à residência da família informar que Lisandra fi­caria aos seus cuidados, em casa mesmo, obedecendo a um rigoroso pro­grama. Rafael não seria notificado, senão quando o quadro pudesse suge­rir um prognóstico menos sombrio ou liberativo. A enferma foi instalada no amplo cômodo arejado, com janelas abertas para o quintal, o que não se diferenciava muito de sua situação anterior à nova doença, visto que ela já vivia, de certo modo, semi-encarcerada há muitos anos em seu pró­prio lar. (Cap. 9, págs. 79 a 81)
12. O médico fala energicamente a Rafael - O tratamento de Lisandra cor­reu como previsto, e o Dr. Armando, que a assistia em casa, surpreendeu-se com a sua boa disposição orgânica, em contraste com o problema psí­quico. O quadro parecia marchar para a loucura irremediável. Sem nada informar à esposa, ele resolveu manter uma entrevista com Rafael, a fim de prepará-lo para o que espe­rava ser, em futuro próximo, um desfecho fatídico. Nada falaria, porém, acerca da hanseníase de Lisandra. Na pri­meira oportunidade, o médico mandou chamar Rafael e, sem maior delonga, foi direto ao assunto: "Não estou autorizado pela família -- informou, conciso -- para o que lhe vou narrar. Faço-o com a minha responsabili­dade e consciência médica. Possi­velmente, os seus aguardam que se modi­fiquem os estados atuais, pou­pando-o de dissabores... Talvez não se dêem conta da gravidade da ques­tão..." Rafael perguntou de que ele falava e o médico esclareceu que fa­lava de Lisandra: "Está enferma mentalmente, a caminho de séria aliena­ção. Desejo, porém, esclarecer-lhe que qualquer atitude violenta, irres­ponsável, de sua parte, poderá  acarretar seu desenlace, em lamentável estado, num Manicômio. Procure refletir de forma edificante e benéfica, e contribua sem o egoísmo que o carcome". Dr. Ar­mando falou, então, com toda a franqueza, a Rafael sobre a maneira com que ele próprio agia com a filha e seus familiares em face de sua enfer­midade: "Tem-lhe escrito? Que lhe fala? Quais as esperanças que lhe transmite e as consolações que a ela e aos demais lhes dá ?" O médico lhe disse, nesse ensejo, verdades irretorquíveis que ele, até então, se re­cusara aceitar, esquecido de que o isolamento não é somente de quem se recolhe ao tratamento no Hospital, e que sua família, não somente ele, também sofria em face de seu drama pessoal. (Cap. 10, págs. 83 e 84)

13. O "enxugador de lágrimas" - "Ninguém nunca me falou assim", revidou Rafael, colérico. Dr. Armando, sem qualquer receio, respondeu: "Pois é tempo de que alguém o faça. Aliás, isto é coisa que eu deveria ter feito antes, como responsável por esta Instituição e pelo bem-estar de todos, e não apenas do senhor..." A imagem da filha num Manicômio fez Rafael estremecer. Deu-se, então, conta da leviandade e da falta de amor real para com os seus. Viu, mentalmente, a esposa debilitada pela sucessão dos infortú­nios, a irmã, o filho, e chorou muito, sem poder estancar as lágrimas, pois se recordou de que suas cartas eram sempre portadoras de fel e veneno, jamais de consolo... Mais humilde ante a dor, inquiriu se a situação de Lisandra era grave. O médico respondeu afirmativamente. Rafael fez-lhe um resumo das distonias de que a filha fora vítima ante­riormente à sua internação no Hospital, ante o olhar atento do Dr. Ar­mando. A narração, repassada de sentimento, funcionou como proveitosa catarse, como um dreno psí­quico. Aquele homem de caráter difícil jamais expusera seus problemas a quem quer que fosse, e, por isso, emparedava-se nas opiniões infelizes, decorrentes das auto-análises tormentosas a que se impunha, sem uma vi­são clara. O médico, finda a narrativa, convo­cou-o a uma salutar mudança de atitude e prometeu-lhe ajuda e amizade. O pai de Lisandra saiu dali cambaleante, com a alma em frangalhos, quando alguém o chamou, de longe, com insistência. Era Cândido, o enfermeiro espírita, que notou a palidez de Rafael. Logo o amigo inteirou-se dos motivos da tristeza do interno. Lisandra estava enferma da mente! "Ora, meu amigo, onde está  sua con­fiança em Deus? Já  orou, rogando ajuda?", indagou-lhe Cândido, que em seguida convidou-o a ir com ele até à enfer­maria, na sala de curativos. Fechada a porta, ele retirou de uma gaveta um exemplar d' O Evangelho segundo o Espiritismo, de Kardec. "Eis aqui o meu enxugador de lágri­mas", informou o enfermeiro, com grave acento na voz. Rafael abriu o livro ao chamado acaso e Cândido leu, com ênfase e unção, a página de luz que respigava bálsamo e conforto moral sobre o ouvinte sucumbido. (Cap. 10, págs. 85 e 86)

14. Como o plano espiritual nos ajuda - Cessada a leitura edificante, que carreou para o am­biente forças sutis do Mundo Invisível, Cândido orou, pedindo a Rafael que o acompanhasse em silêncio. A prece, partida das nascentes do cora­ção a fluir na direção do Pai, caldeava as energias puras das Divinas Concessões e retornava como poderoso agente restaura­dor. Ato contínuo, impelido pelo desejo de ajudar, aplicou-lhe passes refazentes, após o que, gentil, interrogou: "Então, como se sente?" Ra­fael declarou-lhe que se sentia melhor, como jamais havia ocorrido an­tes. "Algo inexplicável infunde-me paz e fé, conforto, quase alegria, pela primeira vez, nestes tristes, demorados anos de minha existência", acrescentou o hanseniano. Era o efeito da prece, que refrigera, acalma e encoraja, disse-lhe Cân­dido. "A prece nem sempre modifica as coisas, to­davia, sempre nos modi­fica, ajudando-nos a ver e entender os aconteci­mentos pelo ângulo cor­reto, através do qual deve ser examinado. E isto é o que importa. Não é válido que Deus nos afaste os obstáculos, quanto é sábio que nos dê meios para os afastar..." Depois de ligeiro momento de silêncio, Rafael pediu a Cândido lhe emprestasse aquele livro. "Talvez ele seja a solução para o que se passa comigo e com os meus", acrescen­tou. Cândido foi pe­remptório: "Será  a solução, sim. Recorde-se, entre­tanto, de que tudo continuará  como antes, ou, talvez, piore... Você, po­rém, verá  tudo me­lhor, saberá  os porquês das coisas, conhecerá  as fórmu­las da resignação e da coragem, que solucionarão as dificuldades que o maceram e lhe aumen­tam o fardo das atuais provações". Rafael tornou a dizer: "Espero poder recomeçar a vida, diminuir as conseqüências dos meus erros, modificar-me, ajudar. Nesse momento experimento o desanuviar da minha mente. Pa­rece-me que estou emergindo das sombras, atraído por poderosa e bela claridade..." Era D. Adelaide, mercê de Deus, a real autora daqueles acontecimentos oportunos. Fora ela quem inspirara o Dr. Armando e o con­duzira no diálogo com o genro, e foi também ela quem in­duzira Cândido a acercar-se do local, no momento certo, guiando a mão do enfermo ao abrir o livro e ajudando o enfermeiro na aplicação do passe. Foi preciso que a dor voltasse a fustigar-lhe o espírito, em dimensão imprevisível, para que Rafael sacudisse dos ombros a carga revel que o dominava no reino das paixões inferiores. Não se operou nele uma trans­formação miraculosa, nem seria justo que isso acontecesse. Havia, isto sim, uma disposição nova, e quando o homem se resolve mudar interior­mente, deixando que lhe caiam dos olhos as escamas da cegueira moral, tem início a sua liberta­ção. Não foi por outra razão que Jesus, quando socorria os enfermos que o buscavam, os incitava à mudança de comporta­mento, fixando cada qual no amor, para poupar-lhes ocorrências piores do que aquelas de que se vin­ham libertar. O homem somente se libera dos erros quando os resgate, na redenção pela dor ou na ascensão pelo amor, mediante o bem que faça. (Cap. 10, págs. 87 a 89)
15. A influência obsessiva - O abalo moral que a notícia da alienação de Lisandra pro­duziu em Rafael levou-o ao leito. O sistema nervoso, desgo­vernado por muito tempo, não suportou a carga do desespero, causando-lhe transtornos psíquicos e físicos. A hanseníase, cujos fatores predispo­nentes se con­centram nos recônditos do espírito culpado, ao desconcerto da emotivi­dade que depauperou o organismo, fez-se mais danosa, aumen­tando o pro­cesso degenerativo das células, com resultados dolorosos. Sem forças para a recomposição interior, ele deixou-se sucumbir pelo desa­lento. A irascibilidade, por muitos anos não disciplinada, cedia lugar ao pessi­mismo, fruto da revolta incontida. Ele jamais, na Colônia, saíra de si mesmo, para distender a solidariedade da afeição junto aos compa­nheiros de infortúnio. Fechara-se na concha de aço do egoísmo, como se fosse um inocente inditoso, colhido pela artimanha das leis da impie­dade. O egoísmo, sem dúvida, é a sórdida masmorra dos orgulhosos, que a preferem até quando a alucinação os vence. Num reduto de sofrimentos co­letivos há sempre alguém mais vencido que necessita de auxílio frater­nal, em cujo cometimento o benfeitor se transforma numa fímbria de luz, esparzindo esperança. E enquanto conforta, consola-se; ao iluminar, cla­rifica-se. Cândido instou com o enfermo no sentido da auto-renovação. Passados, po­rém, os primeiros momentos da cariciosa aragem espiritual, experimentada após a prece e o passe, Rafael não mais se animara a vol­tar a ler o "Livro da Vida". Ele tombara nas ganas de ardilosa vingança que lhe im­punham vítimas do passado, especialmente uma delas, ora em hospedagem psíquica de caráter obsessivo. A entidade perniciosa compra­zia-se em inspirar-lhe ódio contra si mesmo, produzindo-lhe evocações mentais per­turbantes e interferindo em seu psiquismo. (Cap. 11, págs. 91 e 92)
16. O esforço do enfermo é essencial - O adversário oculto de Rafael era cúmplice do inimigo de Lisandra, com quem concertava planos de animosi­dade e acendrada vindita. Vítimas no passado, eram agora os cobradores que engrossavam as fileiras de outros prejudicados que exigiam, então, pura e simplesmente, uma jus­tiça rápida, fulminante. Mais bem armados intelectualmente, os chefes da malta odienta estabeleceram um desforço lento, com o qual pretendiam sa­ciar-se na sede de vingança premeditada. Em suas crises, agora amiuda­das, Lisandra estrugia de horror quando "ouvia" o chamado da sua vítima, a clamar por justiça, em face da cle­mência que lhe fora negada. "Via-o" e "ouvia-o" em situação terrifica­dora, não suportando a irrupção da sua presença mental, fugindo, em des­vario, pela crise epiléptica, conforme o quadro clássico produzido pelos focos do lóbulo temporal da delicada máquina encefálica. Com Rafael, o quadro assumia outro aspecto. A mente invasora insinuara-se sutilmente no hospedeiro, provocando uma quase perfeita identificação, mediante a qual o cérebro do enfermo tanto re­gistrava a voz de comando do encar­nado, como a do desencarnado, que ven­cia então as últimas resistências daquele. Em tais casos, a contribuição do enfermo é imprescindível e re­levante. Sem que este produza, a esforço hercúleo que seja, uma mudança de atitude mental com a execução de um programa edificante, no qual granjeie simpatia e solidariedade, creden­ciando-se a ser auxiliado, qualquer ajuda de outrem redunda quase sempre nula. Não havendo forte predisposição interior do enfermo, os estímulos de fora produzem efeito positivo, porém transitório, porque não logram romper as vibrações den­sas do desculpismo e da autopiedade, da revolta muda e da ira, em cujas armadilhas se refugia. Providencial como terapêutica inicial, é através da leitura evangélica que o espírito se irriga de esperança e se renova, abrindo clareiras e brechas na psi­cosfera densa que elabora e de que se nutre, a fim de que penetrem outras energias benéficas que o predisporão para o bem, de intervalo a inter­valo, até que logrem modificar a paisa­gem interior, animando-se a inves­timentos maiores. E' preciso entender que, em alguns casos, o amolenta­mento, a falta de discernimento e a não fixação do conteúdo da leitura procedem da falta do hábito salutar e da convivência com os bons livros. A mente viciosa, indisciplinada, acostu­mada ao trivial, ao burlesco e ao insensato, se recusa atenção e inte­resse no esforço novo. Conveniente, pois, insistência e perseverança. Leiam-se pequenos textos e façam-se acompanhar as leituras de subse­quente reflexão da parte examinada; tente-se a memorização, a anotação como exercício gráfico, para que não se conceda à mente a ociosidade ou a desculpa de nada conseguir nesse capítulo. (Cap. 11, págs. 93 e 94)

17. Porque a leitura elevada faz bem - No Evangelho de Marcos (9:23), Jesus asseverou ao pai do epiléptico que lhe rogou ajuda: "Tudo é possí­vel àquele que crê", mas o crer não pode ser tomado como uma atitude es­tanque, em que se aguardam resultados, parasitariamente. Tiago anotou em sua epístola (2:17) que "a fé, se não tiver obras, por si só está morta". Não basta, pois, crer; é preciso fazer. O mal-estar que provém da leitura evangélica, em certos casos, é produzido, ora pela exsudação das altas cargas pestilenciais, aspiradas pelo longo processo obsessivo, enquanto se modificam e depuram os centros da razão viciada, mudando-se os clichês mentais perniciosos, ora em face da hábil técnica da hipnose de que se utilizam os perturba­dores desencarnados, porque sabem que irão encontrar na renovação psíquica da sua vítima os antídotos à sua perti­nácia infeliz, alienadora. Inter­ferindo na vontade doentia do paciente, induzem-no ao desinteresse, dis­traem-no, interpondo-se no plano do ra­ciocínio, inspirando receios in­justificáveis ou adormecendo-os. E, quando logram vencê-los pelo sono desagradável, auxiliam no desbordar das lembranças em que se acumplicia­ram nos erros, produzindo pesadelos apavorantes, ou aparecem na tela da recordação, defrontando-os no par­cial desprendimento, com que mais os atemorizam. Quase sempre conseguem o triunfo, por ser mais fácil ao ob­sidiado recuar, ceder no esforço da própria edificação, do que perseve­rar no empreendimento libertador. Em ocorrências dessa natureza, a leitura edificante, evangélica e espírita, é o medicamento eficaz, imprescindível a uma pronta conquista de resul­tados salutares, visto que, da mesma forma que o pensamento obsidente atua sobre o médium em processos obsessivos, as construções mentais, as idéias deste são as­similadas pelo hóspede indesejável, resultando, mui­tas vezes, na evange­lização do perseguidor, que também se modifica à força dos preciosos en­sinos que lhe chegam. Fato análogo ocorre na evan­gelização por meio da psicofonia atormentada. (Cap. 11, págs. 95 e 96)

18. Nossas vidas se entrelaçam - Além da leitura, a oração revigorante ‚ o tônico de que se devem utilizar os pacientes de todo jaez, daí par­tindo para as reali­zações superiores da vida. O mesmo se diz do esforço pessoal do enfermo, que, ainda mesmo nos casos de subjugação obsessio­nal, é recurso sempre valioso. Embora tenha os comandos da mente domina­dos, a doutrinação que recebe desperta-o para o trabalho que deve reali­zar a benefício de si mesmo, irrigando a mente com a esperança da liber­tação que iniciar  de dentro para fora. Nesses casos, o auxílio de ou­trem, oferecendo palavras de reconforto, lições de otimismo, lene o co­ração e suaviza o atendi­mento espiritual, conclamando-o ao controle e governo das peças e imple­mentos do precioso corpo com que a Divindade o enriquece para a bênção da evolução. A psicoterapia espírita, evangé­lica, é fator essencial para o reequilíbrio de qualquer alienação, mesmo nos casos específicos estu­dados pela Patologia médica e que constituem os notáveis capítulos das modernas "ciências da alma". O verdugo de Ra­fael sabia disso e, por esse motivo, o fez desinteressar-se pela leitura d' O Evangelho segundo o Espi­ritismo, inspirando-o a reagir contra a bondade e a paciência de Cân­dido. Este, que conhecia a técnica dos ob­sessores, não descoroçoou. Sem a insistência que irrita, mas com a per­severança que conforta, continuou prestando o auxílio espiritual ao en­fermo da alma, instando para que re­agisse e emulando-o ao dever de aju­dar os familiares, que, mais do que nunca, precisavam de sua palavra e do seu conforto moral. O verbo sin­cero e generoso de Cândido terminou por encontrar ressonância no pa­ciente rebelde, que, num diálogo franco, revelou ao enfermeiro a razão de um conflito que o macerava: "Amava a filha -- afirmou comovido -- e, apesar disso, experimentava estranha sensação de prazer por sabê-la quase louca, ao mesmo tempo martirizando-se em face da notícia do seu desequilíbrio. O sentimento desencontrado não lhe era novo. Sufocava-o, no entanto, sempre volvia-lhe perturbador, inquietante. Como entendê-lo?" Cândido informou-o de que nossas vidas se entrelaçam umas com as outras, num mecanismo demorado e complexo, oferecendo-nos ensanchas múl­tiplas, em experiências físicas muito varia­das. Mais tarde ele, Rafael, compreenderia as razões daqueles sentimen­tos estranhos, que tinham sem dúvida ligação com o passado de ambos. Cândido aludia, assim, à reencar­nação e referiu-se ao ensinamento dado por Jesus a Nicodemos, narrado por João (3:1 a 15): "Em verdade, em ver­dade vos digo, que se alguém não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus". (Cap. 11, págs. 96 e 97)

19. Jesus e a reencarnação - "Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porven­tura, entrar novamente no ventre de sua mãe e nascer?" A essa pergunta, feita pelo senador judeu, Jesus respondeu: "Em verdade, em verdade vos digo, que se alguém não nascer da  água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus". E concluiu: "O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é Espírito. Não vos maravilheis de eu vos dizer: E'-vos necessário nascer de novo". Cândido comentou a pas­sagem evangélica, assinalando que o ensino do Mestre não comporta equí­vocos. Jesus refe­riu-se à reencarnação, às diversas vidas por que passa o Espírito, a fim de moldar a própria perfeição. Aproveitando o ensejo, Cândido afirmou que a reencarnação, doutrina conhecida desde a mais re­mota antigüidade, identificada pelos gregos sob o nome de Palingenesia, é a mais coerente e lógica resposta aos múltiplos problemas humanos: mo­rais, sociais, eco­nômicos, físicos, raciais... Considerada a justiça di­vina na sua legí­tima posição, a reencarnação a expressa, ensejando a cada qual sua dita ou desgraça e impelindo sempre ao avanço e à ascen­são. Rafael estava interessado na conversa e na argumentação, e o enfer­meiro prosseguiu: "As religiões derivadas do Cristianismo, que ensinam a unicidade das existências ou das vidas, tais o Catolicismo e o Protes­tantismo nas suas várias ramificações, interpretam a lição, elucidando que o nascer de novo se dá através do batismo, o que não corresponde à legitimidade do texto, que surpreende Nicodemos, o fariseu, que era se­nador dos judeus, homem culto e versado nas leis e conhecimentos do seu tempo. Inicial­mente, comentemos que os povos antigos acreditavam que a Terra houvera saído das  águas, conforme se lê em a Gênese. Supunham, portanto, que to­das as coisas físicas tiveram sua origem nas  águas, pas­sando estas a ser o símbolo dos corpos. Desse ponto de vista, o ensino refere que o corpo gera outro corpo, mas só o Espírito produz outro Es­pírito, independendo, portanto, do corpo". Cândido referiu-se depois ao avanço das ciências modernas que vieram demonstrar, ainda mais, a força da lógica, na argu­mentação apresentada por Jesus. "Através da Embrioge­nia -- aduziu o en­fermeiro --, sabemos que a partícula fecundante, o ga­meta masculino, é uma gotícula d’água -- o espermatozóide -- e o gameta que se deixa fecun­dar -- o óvulo -- é outra gotícula d’água. A ambiência, a princípio, no ovo, é aquosa e, à medida que o feto se desenvolve, se nutre e se man­tém, resguardando-se graças ao líquido amniótico, estru­tura a carne... Será  necessário examinar mais o assunto?" (Cap. 11, págs. 98 e 99)
20. A oração nos liga a Deus - Cândido reportou-se, na seqüência, às disparidades so­ciais, aos desajustes familiares, aos graves problemas morais, às ex­pressões teratológicas, às diferenças entre os gênios e os primários, à penúria econômica, às simpatias e antipatias, às animosida­des incompre­ensíveis, aos ódios entre pais e filhos, às enfermidades de longo curso, para concluir que todas essas ocorrências representam a colheita dos frutos decorrentes da sementeira pretérita de cada um. O enfermeiro si­lenciou e D. Adelaide, que participava em espírito da con­versação, recor­reu ao instante precioso para levantar o ânimo de Rafael e despertá-lo para as experiências novas da vida, aplicando-lhe recursos magnéticos e fluídicos refazentes. Cândido lhe disse, então, que toda aquela referên­cia em torno da reencarnação tinha o objetivo de elucidá-lo na questão proposta. Não havia dúvida de que ele e a filha não faziam nesta vida uma experiência pela primeira vez. Nas suas enfermidades es­tavam presen­tes as raízes de erros graves e danos igualmente severos com que se es­quivaram do valor e da honradez. Mas, como nossa destinação é a felici­dade, disse-lhe Cândido, sempre é tempo de ressarcir dívidas e produzir títulos de merecimento. De início, era preciso mergulhar o pen­samento na prece e no estudo d' O Evangelho, passando depois a outras Obras que lhe dariam a dimensão das responsabilidades. "Comece pela re­novação íntima exercitando a humildade", propôs-lhe Cândido. "Não es­queça que Deus é o Pai Magnânimo e Misericordioso. Tudo que nos ocorre obedece a leis sábias que, embora nos escapem nas suas causas, se encar­regam de lapidar nossas imperfeições." Ambos então oraram, e a prece di­tada pela mente inspirada do enfermeiro vertia bênçãos, no momento em que rogava pelos demais enfermos, por todos os sofredores da Terra. A oração é sempre o fio invisível e sublime pelo qual a alma ascende a Deus e o Pai penetra o homem. (Cap. 11, págs. 99 a 101)

3a. REUNIÃO
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