Grupo de estudo das obras de andré luiz e




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(Fonte: capítulos 17 a 20.)
1. O talento da mediunidade - A reencarnação constitui em si mesma um ato de misericórdia do Senhor, que não deseja a morte do pecador, mas a sua redenção. Em vista disso, todas as faculdades de que o homem dispõe são talentos que lhe cabe multiplicar e valorizar pelo bom uso que lhes dá . A mediunidade, que é uma faculdade parafísica, inclui-se entre esses talentos. Com efeito, graças às suas sutis teceduras nos mecanismos do espírito, através do perispírito que a exterioriza pelo corpo somático e mediante o qual recebe as respostas vibratórias, a faculdade mediúnica mais severas responsabilidades confere ao usuário, impondo-lhe maior soma de vigilância. Padecendo gravames e sujeita a escolhos sutis, que se transformam em penosos obstáculos, a mediunidade é ponte preciosa de serviço entre os dois mundos. Incompreendida pela maioria dos usufrutuários, padece ela um sem-número de conjunturas e experimenta aguerrido combate de um como do outro lado da vida. Para exercê-la com nobreza é necessário escolher o caminho da abnegação, a vida redentora, abraçado à caridade e ao amor, iluminado por dentro pela paciência e pela tranqüilidade, a fim de não se deter na ascese do ministério ou confundi-la nas sombras com que se perturba e infelicita. Sua condução correta propicia inefáveis alegrias. Relegada ao abandono, favorece a parasitose psí­quica, que dá  margem a processos obsessivos de grande porte. Utilizada com leviandade, converte-se em instrumento dúplice, de que se utilizam Espíritos bons ou maus, conforme a direção que lhe dê o médium e segundo as suas inclinações, desejos e paixões interiormente acalentados. Kardec assevera que entre os escolhos que apresenta a prática do Espiritismo deve se colocar na primeira linha a obsessão. O Codificador alude, as­sim, à aplicação da mediunidade, porquanto, decorrendo seu ministério em clima de sintonia, ela sempre se vincula aos Espíritos com os quais o homem se compraz conviver psiquicamente. Como os inferiores são mais co­muns no intercâmbio com os homens, por invigilância destes, eles lhes compartilham a vida, produzindo constrangimentos obsessivos por ignorân­cia, inveja, vaidade ou vingança. (Cap. 17, págs. 153 a 155)
2. Os escolhos da mediunidade - Os antídotos contra tal escolho, como de quaisquer outros, são o conhecimento, o estudo correto e a salutar vi­vência do Espiritismo. Existem, contudo, além da obsessão, outros esco­lhos inspirados por Espíritos imperfeitos: o açodar das paixões inferio­res, açulando desejos desenfreados de qualquer nomenclatura, o arrojar pessoas inescrupulosas contra ou sobre o médium, as facilidades de toda natureza, desde a bajulação mentirosa às incursões mais atrozes, no que diz respeito aos deveres assumidos, o mesmo acontecendo em relação aos indivíduos que se esforçam por preservar suas faculdades morais, que ex­perimentam então o cerco nefasto que lhes é imposto pelas mentes ator­mentadas da erraticidade. Noutro sentido, os escolhos residem no próprio médium, invariavelmente um Espírito conduzindo pesados ônus do preté­rito, que lhe cumpre resgatar a sacrifício e a extenuante esforço libe­rativo. Aquinhoado com tais faculdades, mesmo assim ele se deixa embair pela presunção e derrapar na vaidade, atribuindo-se dons excepcionais e valores que sabe não possuir, mas finge deter, como os Espíritos se lhe dependessem... Logo, porém, sucumbe e fracassa, passando a experimentar o insucesso nos empreendimentos espirituais, quando não recorre à fraude indesculpável, a fim de manter uma posição de relevo enganoso. A vaidade é sempre reprochável, mas no ministério mediúnico, além de condenável, transforma-se em tóxico letal que destrói, inicialmente, quem lhe dedica culto de subserviência. Jesus deu-nos o exemplo da humildade típica. Da­vid, no seu Canto 119, v. 165, assevera: "Muita paz têm os que amam a tua lei e para eles não há tropeços". Ora, a lei de Deus é a do serviço ao próximo com humildade pura e simples. Outro difícil escolho no ser­viço da mediunidade é a ambição argentária, porque os médiuns, com raras exceções, são situados -- como medida preventiva a seu próprio benefício -- em grupos familiares que lutam pela própria sobrevivência, a fim de se exercitarem desde cedo nas austeras disciplinas da escassez e da ne­cessidade, superando futuras conjunturas em que se deverão movimentar com facilidade e honradez. Na convivência com uma família difícil, com irmãos-problemas, com a pobreza, acostumam-se desde logo ao silêncio e à renúncia, aprendendo paciência e adaptando-se ao clima das reclamações e das dificuldades com que defrontarão na grande família humana, quando convocados ao labor da caridade cristã. (Cap. 17, págs. 155 e 156)
3. Cuidados na mediunidade - O dinheiro facilmente perturba quantos não se armam de simplicidade e fé para o desempenho de seus mandatos morais, sociais, profissionais e espirituais... Podendo acelerar o progresso e produzir felicidade, o dinheiro, infelizmente, em muitos casos, tem con­tribuído para a desdita humana. Devem os médiuns precatar-se também con­tra "a indústria dos presentes", isto é, do artifício da doação de mimos e regalos com que são brindados, a fim de que não sejam convidados à re­tribuição, mediante os recursos cuja finalidade é bem outra e dos quais se fazem mordomos, posteriormente obrigados a contas... O Senhor provê dos indispensáveis valores aqueles que O servem. Se o clima em que o trabalhador irá respirar deve ser o do problema e da dificuldade, evi­dentemente este lhe constituirá  a mais salutar oficina para a auto-edi­ficação a que não se deverá  furtar. Conta-se que abnegado médium espí­rita, após atender um consulente aflito, notou que este deixara delica­damente uma cédula de dinheiro presa a um livro posto na modesta mesa de trabalhos. Notando o fato, o médium foi atrás do outro e devolveu a cé­dula, dizendo-lhe que ele a havia esquecido sobre a mesa. O consulente insistiu: "Aceite-a, por favor. Eu sei que o senhor tem muitos proble­mas... Pelo menos utilize-a junto à família..." O médium agradeceu, mas não aceitou o donativo e, como a pessoa insistisse, foi categórico, di­zendo: "Não, homem. Por Deus, não derrube num minuto o que venho cons­truindo há quase trinta anos..." E' que, após o primeiro deslize, o chamado momento de fraqueza, surgem outros e cria-se um hábito infeliz: a prática da simonia, dando-se então natural preferência aos que podem pagar melhor, em detrimento dos "filhos do Calvário". (N.R.: Simonia é tráfico de coisas sagradas, em alusão ao mago Simão, que tentou corrom­per a Pedro, para obter deste o segredo da evocação do Espírito Santo). O exercício incorreto das funções genésicas, sua prática indevida e quaisquer deslizes da sexualidade transformam-se em martírio futuro, de que ninguém se eximirá  no cômputo das conseqüências. Todo abuso moral e físico produz desgaste correspondente; qualquer desgaste conduz ao exau­rimento; além disso, o mau uso e a exorbitância impõem viciações dano­sas, que geram vinculações infelizes entre os consórcios encarnados, a expensas também de comensais desencarnados, que se instalam em processos de sórdida vampirização. O matrimônio nobre, revestido dos sentimentos de respeito e dignidade, é santuário de transfusão de hormônios, de for­ças restauradoras em que se harmonizam os que amam, restabelecendo e mantendo compromissos superiores, mediante os quais se alam em júbilo rumo às províncias da felicidade. (Cap. 17, págs. 156 a 158)
4. Anticorpos valiosos - O deslumbramento que a mediunidade enseja aos incautos e desconhecedores da Doutrina leva-os a desequilíbrios da emo­tividade, em relação aos seus portadores. Aparecem então, nesse período, as justificativas sem razão quanto a reencontros espirituais, a esperas afetivas que se tornam realidade, a afinidades poderosas, produzindo acumpliciamento de difícil e demorada reparação dos danos morais. E' im­prescindível, pois, vigiar "as nascentes do coração", conforme a lingua­gem evangélica, a fim de não se iludir. O verdadeiro amor, o que não se frui, permanece intocado, superior, ascendendo em grandeza e crescendo em profundidade. O médium não pode esquecer que amar, sim, mas comprome­ter-se moralmente pelo ditame do sexo, não, nunca! A abstinência sexual dentro dos padrões éticos do Evangelho constrói harmonia no espírito e no corpo. Outros escolhos que atentam contra o apostolado encontram-se e podem ser facilmente identificados por quem deseja ascensão moral e rea­lização superior. Há , ainda, os chamados vícios sociais, como o taba­gismo, o alcoolismo, a toxicomania; os excessos da mesa, mediante a in­gestão abusiva de animais ceifados, condimentados e acepipes extravagan­tes; as negligências mentais e morais, como as conversações doentias, deprimentes e obscenas, o cultivo dos pensamentos vulgares, o acalento de tendências negativas e a inveja, o ciúme, a queixa, o azedume, a ma­ledicência e o reproche... A ira, o ódio, a cólera, pela sua perigosa perturbação, não necessitam sequer ser citados, porque todos conhecem a sua gravidade e o médium especialmente não os pode ignorar, dando margem à inclinação dessa natureza. O concurso da prece e da leitura salutar, que inspiram idéias e pensamentos ditosos, são anticorpos valiosos con­tra a virulência desses escolhos na santificação da mediunidade, en­quanto a vigilância, através do trabalho paulatino e sistemático, or­deiro e constante, a ação caridosa e os contributos da solidariedade e da tolerância armam-no para a feliz execução dos serviços espirituais. (Cap. 17, págs. 159 e 160)
5. Lisandra fica curada da hanseníase - Nos dias sucessivos ao primeiro contacto com o Centro Espírita, os Ferguson passaram a frequentá-lo com assiduidade, duas vezes por semana, revezando-se na assistência a Lisan­dra, cujo estado físico melhorava consideravelmente, em detrimento do equilíbrio psíquico, pois se acentuavam o mutismo perturbador e a tris­teza que se lhe espraiava na face. Não foram poucas as vezes em que Ar­têmis surpreendeu a filha falando a sós, agitada, com o semblante con­gestionado. Inquirida pela mãe, quando não reagia com impropérios ines­perados, deixava-se vencer pelo choro convulsivo, esclarecendo depois ser uma angústia de que se sentia acometida por estar deixando morrer asfixiado um homem amado... Artêmis tentava tranquilizá-la, concitando-a à oração, sem conseguir grandes resultados, ante o tresvariar da filha querida... Nas cartas ao esposo, sem o alarmar, enquanto narrava os aus­piciosos resultados dos estudos espíritas e sua prática no Centro, dava conta do acentuado desequilíbrio psíquico da filha. O pai mortificava-se; no entanto, com a visão espírita da vida, confiava em Deus e no fu­turo, precatando-se contra augúrios menos lisonjeiros. Já  haviam trans­corrido três anos desde que se declarou a hanseníase na jovem. Graças à ajuda divina, aos cuidados do Dr. Armando Passos e à fluidoterapia do passe aplicado por Cândido, Lisandra recebeu alta: estava clinicamente controlada sua enfermidade, sem perigo de contágio, podendo, assim, ser considerada curada. Os cuidados, agora periódicos, liberavam-na dos li­mites da casa a que se submetera durante todo o período do tratamento. Todos na casa ficaram felizes; somente Lisandra, apática, já  com sinais de demência, não demonstrou qualquer emoção ante a notícia. "Que dife­rença faz deixar de ser leprosa para continuar louca?", disse ela, certo dia, à sua mãe, que lhe respondeu: "Muita, minha filha, já  que, agora, você poderá  libertar-se dos limites destas paredes e recuperar-se emo­cionalmente. Além disso, você não está  louca, apenas cansada e atur­dida..." (Cap. 18, págs. 161 e 162)
6. A revolta da jovem - Lisandra replicou: "Não nos enganemos, mamãe. Eu compreendo as coisas. O que se passa comigo não ocorre com pessoas nor­mais. Eu sofro muito, interiormente. Minha mente vive inquieta e vejo-me perseguida, atrozmente perseguida... Sinto asco de mim própria... Odeio-me... Desejo morrer, matar-me. Só não o fiz ainda..." A mãe lhe disse que a vida é o maior dom que Deus nos oferece e não temos o direito, se­quer, de pensar assim... Lisandra disse que compreendia isso, mas que não agüentava mais: "Eu sou uma desgraçada! Toda a minha existência há  transcorrido numa fuga, sob um medo íntimo, cruel, entre doenças vergo­nhosas e agora..." Dito isso, Lisandra atirou-se aos braços maternos, debulhada em lágrimas, e pediu à sua mãe que orasse a Deus por ela. Her­melinda, que acompanhava a cena, pôs-se a orar afervorada. Gilberto, que estava no lar, muito pálido, não ocultava o receio e surda cólera que se lhe imiscuía na alma, também atormentada. Esforçava-se por amar a irmã, mas não conseguia por ela mais que piedade, a grande esforço. No imo, talvez durante a doença que lhe modificou a aparência, chegou mesmo a detestá-la, passando do asco ao receio e daí a um sentimento de vin­gança. O rapaz não sabia explicar o que lhe sucedia, mesmo ante as pri­meiras luzes da fé nascente com que buscava harmonizar-se. Aliás, ele incorporou-se ao grupo espírita e granjeou, desde logo, legítimas amiza­des na Casa Espírita, onde conseguia desatar a timidez e ajudava nos serviços mais humildes, ganhando os aplausos gerais e adquirindo assim naturais alegrias. Apesar disso, os dramas do lar perturbavam-no signi­ficativamente e, não fossem a mãe e a tia Hermelinda, já teria sucumbido ou saído de casa. Diante da filha que chorava muito, Artêmis perguntou-lhe se ela acreditava em Deus. "Não sei, para ser sincera", respondeu Lisandra, angustiada. "Eu tenho medo d'Ele, isto sim..." "Mas Ele é nosso Pai...", considerou a mãe. "Tem sido meu Juiz. Não estou, não vivo condenada?! Não é Ele o responsável?!", replicou Lisandra. "De forma al­guma, querida", asseverou Artêmis. "Nós somos os responsáveis por tudo quanto nos sucede. Se você se esforçasse por ler as obras que lhe tenho apresentado, ou se interessasse em ouvir para entender, enquanto as leio para você, compreenderia que esta é uma imputação falsa e até blas­fema que você faz ao Supremo Pai... O nosso livre-arbítrio semeia e a vida nos obriga à colheita. Tudo muito simples". Ouvindo isto, a enferma ironizou: "Para a senhora é simples. Não é a senhora quem carrega a le­pra ou a loucura..." Em seguida, desculpou-se: "Perdoe-me, mamãe, não é isto que eu quero dizer, não a desejo magoar..." (Cap. 18, págs. 162 a 164)
7. Lisandra tenta matar-se - Artêmis afagou a filha doente da alma, en­quanto lágrimas eram discretamente extravasadas pelos olhos, nascidas diretamente no coração. As emoções tinham sido muito fortes. Seguiu-se então nova crise convulsiva, que a mãe e Hermelinda procuravam atender, firmadas na rocha sublime da fé em Deus. No Centro Espírita, a médium Epifania informara que os tormentos da jovem procediam do pretérito, mas disse que os Benfeitores Espirituais, logo que o ensejo se fizesse pro­pício, tomariam providências socorristas. Lisandra, assim que tivesse alta da hanseníase, deveria freqüentar as reuniões espíritas, o que lhe faria muito bem, e era o que Artêmis e Hermelinda aguardavam, ansiosa­mente. Ocorre que, embora se recuperasse de mais uma crise, Lisandra não mais volveu à normalidade total. Evitava qualquer conversação, tornou-se agressiva, investiu contra Cândido, fez-se, assim, fácil presa do ini­migo invisível que a subjugava ferozmente, utilizando-se da sua debili­dade de caráter. A preocupação voltou mais forte ao lar dos Ferguson... Lisandra poderia ter-se beneficiado enormemente do resgate pela dor, ad­quirindo expressivas conquistas, mas não reagira como era de se esperar, ao ser informada do mal, que, na verdade, não lhe deixou marcas visí­veis. A jovem silenciou, sim, mas reuniu todas as forças na revolta ín­tima e se submeteu à terapêutica da redenção, ressumando surda desespe­ração e injusta mágoa. Com a alma em guerra, rebelada contra tudo, pas­sou a odiar a própria existência, tornando-se fácil presa de si mesma e dos seus adversários espirituais, que estavam à espreita. O sofrimento é via expurgatória de que se deve beneficiar o infrator com júbilo íntimo e resignação humilde, a fim de expungir, também da alma, os fluidos me­fíticos que a intoxicam em longo processo... Não era, porém, o que ocor­ria com Lisandra, que no domingo seguinte, quando todos se preparavam para o culto evangélico no lar, foi encontrada deitada, agitando-se, após atentar contra a própria vida, seccionando as artérias dos pulsos. Cândido, que ali chegara de táxi, providenciou de imediato o transporte da jovem até o Pronto-Socorro mais próximo. (Cap. 18, págs. 165 a 167)
8. A hora do testemunho - Gilberto, em lamentável estado de desespero, acompanhou a irmã e Cândido, enquanto a esposa do enfermeiro ficara no lar com as duas senhoras. Como outra coisa não pudessem fazer senão es­perar, Clarice sugeriu que se procedesse ao estudo evangélico e às orações, mais do que nunca imprescindíveis em momentos como aquele. O bálsamo da prece e o socorro do Alto lentamente apaziguaram os espíritos colhidos pela dura provação. As horas transcorreram, longas, até que Gilberto e Cândido voltaram com notícias alvissareiras. "Graças a Deus", informou o enfermeiro, "sua vida está  salva". Embora debilitada com a hemorragia, Lisandra fora submetida à cirurgia e repousava agora, en­quanto recebia transfusão de sangue e tratamento médico adequado. Cân­dido acrescentou que o Dr. Armando Passos, cientificado do fato, acor­rera imediatamente ao Hospital, assumindo junto aos colegas de plantão a responsabilidade do caso. Artêmis estava desolada, mas Cândido disse-lhe que confiasse. O perigo havia passado. Lisandra voltaria bem melhor, porquanto a saída do ambiente doméstico far-lhe-ia bem. Depois, ele orou e todos acompanharam sua prece inspirada. Seguiu-se um ligeiro lanche, preparado previamente por Hermelinda, e as palavras de reconforto e de esperança, que então foram ouvidas, coloriram o ambiente triste, mu­dando-lhe a psicosfera carregada e diminuindo a tristeza geral. "Aos que confiam em Deus -- lembrou Cândido -- muitos testemunhos são solicita­dos. Recordam-se de quanto sofreu o Apóstolo Paulo? Perguntar-se-á: onde o auxílio divino, que não interditou o sucesso lamentável desta tarde? Não se preparavam para orar? Por que os Espíritos não impediram o lance infeliz?" O próprio Cândido respondeu: "A função da fé religiosa não é retirar o fardo das provações que cada um elege para refazer-se perante a própria e a Divina Consciência, porém, oferecer resistências para que se possa conduzi-lo com nobreza. Senão, onde a justiça? Seria lícito re­tirar os débitos do crente e esquecer os incréus? A Paternidade Celeste agiria acertadamente, beneficiando apenas os que crêem, em detrimento daqueles que não querem ou não conseguem, por enquanto, modificar as ín­timas paisagens da fé? Como julgar-se, posteriormente, capacidades e mé­ritos, se os métodos de liberação foram diferentes?" (Cap. 18, págs. 167 e 168)
9. Reflexões sobre o ocorrido - Cândido aproveitou o ensejo para reite­rar lições que todos conhecemos muito bem, como a que o Mestre propôs dizendo ser "leve o seu fardo e suave o seu jugo", porquanto o homem re­signado e confiante carrega melhor os seus problemas e suporta mais fa­cilmente suas dores. "O cristão, particularmente o espírita, que conhece a procedência dos sofrimentos, que se conscientiza das responsabilidades que lhe dizem respeito em relação à dor" -- aduziu o enfermeiro --, "certamente sofre melhor e tem diminuídos os lances de agonia, porque não os aumenta com o desespero, a rebeldia, o desequilíbrio, que consti­tuem sobrecarga por demais pesada". "A presença psíquica de Jesus entre aqueles que O buscam pela oração dá  resistência contra o mal e paz, a fim de se agir no bem." O enfermeiro considerou então que Lisandra pode­ria ter tentado o autocídio no silêncio da noite, em horas avançadas, quando o socorro seria mais difícil de ser ministrado... Por outro lado, o corte no pulso direito não fora profundo, não havendo decepado a arté­ria, talvez pelo desequilíbrio nervoso, ou graças à ajuda que não lhes era permitido distinguir. Outro ponto importante fora a coincidência de Cândido chegar no momento exato da necessidade e o automóvel haver sido detido, evitando-se, com isso, maior perda de tempo, que dificultaria os socorros de urgência... Tudo aquilo, então, mostrava que tinham sido to­madas providências benéficas, por parte dos Benfeitores Espirituais, evitando-se a consumação de um mal irreparável, instilado e conduzido pela mente odienta do perseguidor ou perseguidores desencarnados. Con­victos de que a ajuda divina se fizera naquele lar, aragens de paz per­passaram entre todos, que ouviam, atentos, a explanação inspirada de Cândido, e foi nesse clima que os visitantes se despediram, enquanto os Ferguson resgatavam com elevação parte dos pesados débitos que os onera­vam, liberando-se para cometimentos felizes no futuro com Jesus. (Cap. 18, págs. 168 a 170)
10. Arrependimento e pranto - No dia seguinte, Artêmis e Hermelinda fo­ram ao Pronto- Socorro, a fim de visitar Lisandra. Dr. Armando, que por uma feliz coincidência ali se encontrava, introduziu-as no quarto enso­larado em que ele havia determinado fosse Lisandra colocada. O delito não fora consumado graças à intercessão superior do Espírito de Ade­laide, que logrou atenuar as conseqüências da insânia. A moça estava muito abatida, porém lúcida, e recebeu as visitas com compreensível emo­ção. O reencontro foi comovedor. Sem os dramas ou artifícios que as pes­soas preferem apresentar, havia nobreza e resignação nas recém-chegadas e sincero arrependimento na enferma... A mãe acercou-se do leito e segu­rou a mão da filha, que prorrompeu, então, em pranto de dor e vergonha. "Perdoe-me, mamãe querida, perdoe-me" -- explodiu, debilitada --, "não sei o que me aconteceu... Eu enlouqueci por dentro... Sabia o que estava fazendo... e não sabia... Desejava livrar-me de todos e de tudo... do homem, que eu continuava a matar com papai sem o destruir, de quem já  lhe falei... Não consegui deter-me... Oh! Senhor Deus, perdoai-me". Ar­têmis não conseguiu falar, mas Dr. Armando, que se encontrava próximo, disse-lhe: "Ora, filha, sua mãe perdoa e compreende. Não se atormente, porquanto o arrependimento não resolve o que já  foi feito. Restabeleça-se por dentro e, revigorada, jamais volte a repetir o grave engano". Ar­têmis refez-se logo e acrescentou que não seria ela quem a perdoaria, mas, sim, o Pai Celeste, que nos perdoa as fraquezas e a desconsideração ao Seu amor. Em seguida, perguntou-lhe se ela agora pensava em Deus, e Lisandra respondeu afirmativamente, após o que, dirigindo-se à tia, cum­primentou-a afavelmente, indagando por seu irmão Gilberto. (Cap. 19, págs. 171 e 172)
11. Um raro momento de lucidez mental - A tia informou que Gilberto es­tava no trabalho, mas lhe enviara abraços e recomendações. "Claro que ninguém está  magoado com você. O amor que se magoa é puro interesse e não verdadeira afeição. Tranqüilize-se, portanto", concluiu Hermelinda, com acento conciliador. A jovem pediu, depois, que a mãe agradecesse ao Sr. Cândido por tudo o que ele fizera e pedisse desculpas pelo cansaço que lhe havia proporcionado. Artêmis, que conhecia a antipatia da filha pelo enfermeiro, disse que ela mesma poderia agradecer-lhe, quando ele viesse vê-la no hospital, ou em casa. O diálogo mostrava que Lisandra se encontrava num feliz momento de equilíbrio e lucidez mental. Com o des­maio que se seguiu ao atentado, a jovem, ao ser expulsa parcialmente do corpo, deparou o antigo adversário a aguardá-la, feroz e vitorioso, certo de que a arrastaria às regiões ingratas, como resultado do suicí­dio que supunha irreversível. Ele receava que o Espiritismo lhe abrisse as portas da libertação e, por isso, resolveu vitimá-la e conduzi-la após o trânsito do túmulo, como se o equilíbrio das vidas pudesse perma­necer nas mãos da odiosidade e nas rédeas da alucinação. Na verdade, os lances exitosos colimados por esses Espíritos infelizes decorrem da sin­tonia que conseguem manter com as suas teimosas vítimas, que os prefe­rem, pela acomodação às suas sugestões, ao acatamento da inspiração su­perior, expressa nos mil convites da vida... Assim, logo que se afrouxa­ram os laços do corpo, em exaurimento pela hemorragia, Lisandra defron­tou a vítima-algoz, que, transfigurada pelo ódio, agrediu-a moral e vi­gorosamente. "Por que, infeliz, me abandonaste?", inquiriu com voz metá­lica. "Já  te esqueceste de mim? Sou Ermínio, o teu mancebo espanhol, mi­seravelmente assassinado pela tua desonra e pela selvageria do teu in­fame companheiro... Olha-me bem, vê em que me transformei". Lisandra pôde ver, então, a transformação que se operava no ser que a acusava acremente. Viu-o decair a pouco e pouco, num sombrio espaço muito exí­guo, asfixiado, inquieto, agitando-se roufenho e, logo depois, decompor-se num fardo de matéria pútrida, vencida pela vérmina... Simultanea­mente, recordou-se. Estava sentada... Nesse ponto, porém, não pôde mais concatenar lembranças, porque sentiu irresistível atração, uma força in­coercível que a arrastava, e perdeu a consciência espiritual. (Cap. 19, págs. 173 e 174)
12. O problema da infelicidade - Fora a providencial interferência de sua avó Adelaide que afastou o terrível perseguidor, cuja sanha nefasta não fora aplacada com o insucesso da operação-suicídio. Claro que uma tentativa facilitaria outras, caso não houvesse radical mudança no com­portamento mental da enferma. Os títulos meritórios dos familiares en­gendraram recurso moratório para a endividada, cujo tributo a pagar se tornara mais oneroso em decorrência da agressão à vida. Na verdade, ape­sar da ação nefasta conduzida por Ermínio, Lisandra acalentava, pelo pessimismo e pela rebeldia, o falso propósito de fugir à vida, que mais se agravava ante a sua obstinação e refratariedade em recuperar-se dos desmandos de outrora. Ela recusara sistematicamente a mensagem do Cristo, por preguiça mental e pelo hábito insano de fomentar e cultivar idéias e pensamentos negativos. Muitos pensam evadir-se da responsabili­dade quanto ao suicídio, dizendo não saber o que estavam fazendo, como se alguém, em sã consciência, pudesse ignorar o gravame do suicídio, particularmente no Ocidente, onde o Cristianismo o proscreve e condena. Aliás, salvo os imbecis e outros dementes, todos possuímos na consciên­cia a noção do que é certo ou errado, moral ou imoral. Agora, Lisandra discernia e compreendia o que é ser responsável pelos próprios atos e, pela vez primeira, deu-se conta dos desatinos da sua insensatez e do quanto a genitora -- que de nada se queixava -- devia amargar, asfixiada no silêncio do martírio. Lembrou-se, então, de cenas que presenciara no lar, com o pai agressivo e a resignação materna, o posterior interna­mento de Rafael na Colônia de Hansenianos e a indescritível angústia que lhe sombreara os olhos claros, que perderam o fulgor primitivo... Pensou na tia Hermelinda, que sacrificara a própria vida para ajudá-los, sem qualquer azedume ou reclamação, e que, ainda, como a própria mãe, se sentia agradecida a Deus!... Perguntou-se, então, por que se sentia tão infeliz, e todos ouviram sua débil voz indagar: "Por que sou tão infe­liz?!" Artêmis, que retinha na sua a mão da filha, respondeu: "Porque a felicidade se encontra onde cada qual coloca o coração, conforme ensinou Jesus. Se você situa as aspirações no prazer fugidiço, no ouro mentiroso e nas paixões que ardem e se apagam breve, a sua ausência produz a des­dita. No entanto, se pensa em paz de consciência, retidão moral e dever corretamente cumprido, como metas de dignidade e honradez, a ventura se estabelecer  no coração tranqüilo..." (Cap. 19, págs. 175 a 177)
13. O que é felicidade - A mãe explicou-lhe, então, que a Terra não é fim, destino, mas é meio, escola, recurso de que nos utilizamos para as­cender a planos realmente ditosos. "Quem deseja usufruir sem merecer, receber sem dar, colher sem haver semeado, é obrigado a furtar e con­verte-se em indigno beneficiário da vida, que lhe impõe recomeços difí­ceis", acrescentou Artêmis. "Todos podemos conseguir a felicidade, se soubermos e quisermos bem conduzir nossas aspirações. Muitos desejariam um pomar referto, um jardim de messes... Por não consegui-los, desalen­tam-se, esquecidos de que também poderiam tornar-se um arbusto verde no caminho pedregoso, adornando a estrada adusta, ou uma  árvore sobran­ceira, mesmo solitária, quebrando a inclemência e aridez da terra..." Dito isto, Artêmis concluiu: "Felicidade, minha filha, é o bem que faze­mos, não o gozo que fruímos. Não vemos os mesmos desaires entre opulen­tos e miseráveis, as mesmas tragédias nos palcos da glória e do fra­casso, os mesmos desassossegos nos palácios e nas taperas? A felicidade não resulta do que se tem e do que se frui, mas do que se é e do que se faz. Jesus, podendo permanecer no sólio do Altíssimo, conviveu com as sombras hórridas dos vales humanos, a fim de clarear com insuperável luz as baixadas em que chafurdam as criaturas, fazendo-as anelar pelas cla­ridades estelares do infinito". A genitora de Lisandra ainda disse ou­tras palavras animadoras, lembrando à filha a necessidade de sair do egoísmo vexatório, insatisfeito, fator da sua inquietação, para descor­tinar belezas e esperanças. Era indispensável, enfim, abrir-se à luz, arrebentando as lentes enfumaçadas através das quais ela olhara a vida até aquele momento... O Dr. Armando, que a ouvia fascinado, aplaudiu as palavras da mãe de Lisandra, que na verdade falara sob a inspiração de Adelaide. Lisandra disse-lhe então que sua mãe era espírita, o que foi recebido com alegria pelo médico, que também disse militar nas fileiras do Consolador, onde encontrara o consolo para as feridas da alma, após o acidente com seu filho Wander. (Cap. 19, págs. 177 e 178)
14. O bem acaba vencendo o mal - Dr. Armando contou então que vinha in­jetando no filho o óleo canforado da alegria de viver, apesar do aci­dente que o tornara paralítico. "Só a reencarnação me explicou suficien­temente o transe por que passamos. Minha mulher, após alguma relutância, tornou-se espírita, igualmente", informou o médico, que esclareceu haver desejado muitas vezes falar a Artêmis sobre a Doutrina, mas não se atre­veu a isso. Ela explicou então que foi Cândido quem a iniciara no Espi­ritismo, tal como ele fizera ao médico, mantendo contudo reserva sobre ambas as conversões, como verdadeiro espírita que era: sincero, humilde e nobre. Dr. Armando perguntou se Rafael sabia que a família aderira ao Espiritismo. Artêmis contou então que ele também se fizera espírita, graças ao trabalho de Cândido, um indivíduo que tornou a vida uma verda­deira pregação e que discretamente ia semeando, despertando vidas para Jesus. O médico percebera as transformações por que passara Rafael, mas não atinava com os motivos... A conversação no quarto de Lisandra continuou auspiciosa por mais alguns minutos, findos os quais o Dr. Armando disse que seria dada alta a Lisandra dentro de dois dias, quando ele próprio a levaria à sua casa. "Não há  por que se preocuparem mais", as­severou o médico. "Entreguemos os resultados a Jesus e deixemo-la, agora, repousar." As despedidas foram afetuosas e amenas, retornando as duas almas irmãs, reanimadas, para o labor do futuro. O bem e a fé ven­ciam a astúcia do mal, a agressão da incredulidade. (Cap. 19, págs. 179 e 180)
15. Os tormentos de Rafael - No dia seguinte ao incidente ocorrido com Lisandra, quando Cândido chegou à Colônia, Rafael o procurou, apreen­sivo. Ele tivera uma noite de torpes pesadelos e estava sentindo-se muito indisposto. Cândido nada revelou sobre o incidente, e Rafael pros­seguiu dizendo que pressentimentos vinagrosos o assaltavam, fazendo-o experimentar incontida agonia interior. Ele dizia, então, poder atinar, enfim, com os males que com certeza praticara, em face das inquietações que o consumiam. "Sinto na alma e no corpo", declarou Rafael, "a violên­cia dos danos que me dilaceram, respondendo aos apelos das minhas desdi­tosas vítimas. Embora o infinito consolo que encontro no Espiritismo, percebo-me enlouquecer, à semelhança da minha desventurada filha, lenta, porém seguramente". O hanseniano disse deparar-se com as vítimas de suas delinqüência transatas, ressumando ódio e aguardando vertê-lo sobre ele próprio... O enfermeiro, que o ouvia e observava, em prece verificou nele, estampadas, as garras da enfermidade rigorosa. As mutilações fa­ziam-se visíveis... O rosto, demasiadamente deformado, volumoso, retinha os lepromas em degenerescência; a expressão leonina, os olhos avermelha­dos e as pálpebras feridas, as abas das narinas carcomidas produziam compaixão... (N.R.: Leproma ‚ nódulo granulomatoso superficial que cons­titui a lesão característica da lepra.) As mãos padeciam os reflexos das amputações de alguns dedos, o mesmo ocorrendo com os pés que completavam o quadro externo, numa visão constrangedora do sofrido senhor. Um senti­mento de funda piedade e insopitável manifestação de amor assaltou Cân­dido que, intuitivamente, compreendia serem aqueles, apenas, os princí­pios das dores... Ele conhecia por experiência pessoal a agudeza das co­branças morais promovidas pelos desafetos, quando se sentem defraudados e se resolvem, enlouquecidos, justiçar os seus verdugos, fazendo-se, a seu turno, arbitrários sicários. Empedernidos nos sentimentos, baldos de emoções enobrecedoras, insaciáveis na fúria da punição, chegado o mo­mento do ajuste de contas, convertem-se em chacais, cuja sanha não cessa, mesmo quando os despojos das presas nada mais podem oferecer... Contemplando, então, o enfermo, disse: "Não se desalente, nem se arre­ceie. Seus pressentimentos tormentosos são justos, seus pesadelos proce­dem. Quem de nós pode olhar para trás sem defrontar a horda de infelizes que se asselvajaram por nossas inconseqüência?" (Cap. 20, págs. 181 e 182)
16. Lisandra volta ao mutismo de antes - Cândido exortou-o, assim, a manter a coragem e a inalterável confiança em Deus, com o que poderia combater de espírito forte e resoluto, rumando para os objetivos de sua liberação definitiva. Era primordial ter o ânimo inquebrantável nos pro­pósitos de reparar todo mal e recuperar o bem perdido, sabendo que cada um recolhe conforme espalha, porque Deus é o Pai Amantíssimo de todos nós. O enfermeiro deu, depois, ante as perguntas de Rafael, notícias de sua casa. Lisandra estava internada no Pronto-Socorro, mas fora de pe­rigo, em franco refazimento. E minudenciou a ocorrência, buscando dar-lhe um tom natural, de modo a diminuir o impacto da notícia, acalmando o genitor perplexo. O acabrunhamento de Rafael foi, porém, evidente e di­zia da profunda mágoa que se apossava do enfermo. Contudo, a palavra amiga do enfermeiro encarregou-se de erguer-lhe o ânimo e de incitá-lo ao aproveitamento das horas, com o conseqüente lucro da aflição bem re­cebida. A dor tem essa função sublime: submete a rebeldia e alça o espí­rito, dignificando-o e fazendo-o ressarcir as misérias impostas ante­riormente a outros. Nos dias subsequentes, como o Dr. Armando Passos também mantivesse com ele salutares e eficientes conversações, desve­lando sua própria condição de espírita militante, Rafael recuperou-se moralmente do abalo, embora dificilmente lhe desaparecessem o constran­gimento e a decepção defluentes da malograda agressão da Treva... Retor­nando ao lar, Lisandra voltou ao mutismo e à infelicidade que lhe apete­cia entreter, sendo inúteis todos os chamamentos do carinho materno e as advertências dos novos amigos. Ela recusava-se a sair do quarto e encer­rava-se, cativa, nas sombras das janelas e porta fechadas. Negou-se tam­bém a participar das reuniões espíritas no Centro, e só a custo assentia em assistir às orações conjuntas no lar. A família Ferguson já  havia sido admitida nos trabalhos mediúnicos da Sociedade Espírita, após a fase de preparação, e, atendendo às sugestões da médium Epifania, Li­sandra não fora forçada a ir, contra sua vontade, ao Centro. Em ocasião oportuna, Natércio, mentor da dedicada médium, informou que os problemas espirituais relativos à família de Artêmis seriam atendidos por etapas. Esta exultou em silêncio, porque soubera confiar em Deus e esperar, sem importunar, com insistências inconvenientes, os diretores daquela insti­tuição. A sofrida mulher aprendera, no Espiritismo, que os acontecimen­tos de qualquer natureza obedecem a uma programação bem urdida, pois que nem mesmo uma única folha de  árvore cai que não seja pela Vontade do Pai. (Cap. 20, págs. 183 e 184)
17. O verdugo de Rafael comunica-se - Comunicou-se na sessão inditosa personagem, agressiva e agitada, por intermédio de Epifania. O doutrina­dor conclamou-a à paz, que somente o perdão proporciona a quem se consi­dera vítima, mas o indignado Espírito, em explosão de ódio, desabafou: "Perdão?! Nunca! Cobrarei até o exaurimento os males e as desditas que o bandido me impôs. Bandido, ladrão e homicida, quem o diria? As roupas caras que lhe guarneciam o corpo lascivo não lhe ocultavam o espírito de vândalo e criminoso..." Depois de breve pausa, continuou: "Tirou-me o corpo, mas não me venceu a vida. Destruiu-me a carcaça, porém não me consumiu a existência. Perdi-o de vista por anos e anos a fio, até reen­contrá-lo, numa caçada obsessiva, que se converteu na minha única razão de ser. Tudo mais esqueci para não o esquecer. Desarticulei-me num ódio destrutivo, que me fixou apenas nele. Nada mais me interessa". Deixando que a Entidade drenasse o excesso de desequilíbrio por algum tempo, o Diretor dos trabalhos indagou: "A quem te referes? Ignoramos o que ocor­re contigo, exceto que te encontras enfermo e careces da ajuda de Jesus, o Médico Divino, que te estende mãos gentis e misericordiosas". O comu­nicante respondeu: "Agradeço-as e recuso a ajuda. Ninguém me socorreu quando o abutre voraz me triturou entre as garras de ferro e me penetrou o bico adunco de aço nas carnes da minha alma e dos meus sentimentos de homem pobre, todavia honrado, que lhe padecia o jugo infeliz... Ora, re­firo-me ao Sr. Georges-Henri de... hoje Rafael Ferguson, o leproso, único epíteto que lhe cai bem, por ostentar no corpo venal, em apodreci­mento paulatino, as flores do lodo que fecundou na alma odienta... A ele refiro-me". O Diretor da reunião perguntou-lhe se não o comovia defron­tar o antigo perturbador duplamente encarcerado, isolado da família e da sociedade. "Condoer-me? Apenas acompanho o que lhe ocorre, com indife­rença, porquanto ainda não lhe cravei os punhais certeiros do meu des­forço, que planejo, demorado. A morféia que o deforma somente lhe retira a máscara externa, fazendo assumir a expressão exterior da sua persona­lidade interna, real... Há  quase cem anos que o busco... Alguém daí, da Terra, pode imaginar o que são cem anos de procura, açulado por uma im­placável sede de vingança? Tive dificuldades em identificá-lo, ignorava o mecanismo da volta ao corpo... Quando me deparei sobrevivendo à morte, atinei que o encontraria... E' certo que muita coisa ‚ diferente cá, neste estranho e imenso mundo em que me encontro. Pouca luz e muita des­graça entre espessas sombras. A preço exorbitante, saí do dédalo em que chafurdei, até aprender a identificar a dimensão do tempo, as ocorrên­cias fora dos nossos sítios... Não faltam, aqui, porém, aqueles que mi­nistram justiça, os que negociam informações, os que vendem identifi­cações, os que ensinam cobrança... Somos uma Sociedade de exterior caó­tico, porém de organização poderosa, muito bem planejada..." Dito isto, a entidade indagou: "Afinal, por que o diálogo? Que tem você com isso, com a minha e a vida dele?" (Cap. 20, págs. 185 e 186)
18. O melhor meio de nos libertarmos - O Diretor da reunião respondeu-lhe: "O diálogo se explica por sermos criaturas de Deus, que sabemos conversar. Aqui ‚ um Hospital-Escola de amor onde cicatrizamos feridas mediante o ungüento da fraternidade e a injeção da esperança na Augusta bondade de Deus. E, em conseqüência, todos sempre temos algo a ver, uns com os outros, porque somos irmãos, procedentes do mesmo e único Pai". O comunicante replicou: "Não eu. Não tenho irmãos e sou órfão... Desco­nheço qualquer paternidade, em razão de sempre haver lutado contra a cor­renteza e ser esmagado pelos rápidos em fúria... Não converso mais. Não o vejo aqui e não há  razão para essa perda de tempo desnecessária. Planejo, hoje, levá-lo à loucura... Amigos diligentes, que também lhe sofreram o azorrague da impiedade, aguardam-me e ajudam-me. Não ficarei mais". O Diretor disse-lhe então que ele se enganava, pois que se encon­travam numa reunião organizada e não numa casa de recreação, onde se en­tra e sai a bel-prazer. A morte, como ele bem sabia, liberta a vida, mas não libera o homem, vez que a consciência prossegue escrava daquilo a que se agarra. Se o amor cintila no imo d'alma, ela desvencilha-se dos grilhões; do contrário, o ódio a acorrenta às contingências de penosa retenção, impondo-lhe cruel regime carcerário na Terra e no Espaço. Se é possível ser feliz, por que preferir o martírio à felicidade. Georges-Henri (ou Rafael) não devia a ele, mas a si próprio; por isso, expiava num Leprosário. Seria justo afligi-lo ainda mais, expulsá-lo da vida? Era isso que ele queria? O Espírito disse que não: o seu interesse era supliciá-lo até à exaustão. O Diretor pediu-lhe então que refletisse, considerando que, se no passado Rafael fora o seu algoz, hoje ele é que assumira esse papel, mostrando que no futuro as posições poderiam nova­mente inverter-se, voltando o leproso a ser-lhe novamente o verdugo. Por que não deixá-lo, então, entregue nas mãos de Deus? A Entidade justifi­cou-se dizendo que Deus não o socorrera, quando, nas garras do desal­mado, ele exauriu-se até à morte dolorosa... O Diretor mostrou-lhe que ninguém destrói ninguém, que a morte não é o fim. Se ele padecera a im­piedade do verdugo é porque já  devia, e a Lei o alcançou naquela oportu­nidade, visto que a sua vida não começou no século passado. Além disso, a melhor e mais eficiente técnica de nos libertarmos de alguém é benefi­ciar essa criatura, porque o benfeitor cresce e ascende, enquanto o be­neficiário apenas necessita... "Enquanto mantemos as lutas de revides contínuos -- acentuou o esclarecedor --, o processo de desgraças recí­procas prossegue, até o momento em que a intervenção divina se faz, be­neficiando aquele que melhor tem sofrido, embora a trama em que se de­bate..." (Cap. 20, págs. 187 e 188)
19. A Entidade recorda o passado - Diretor dos trabalhos falava à En­tidade sustentado por Natércio, que ministrava socorros providenciais ao comunicante, assistido por lúcida e bela Entidade feminil. Esta tocou a fronte do Espírito, que nada percebeu, mas, depois, penetrado por ener­gias vigorosas, informou: "Recordo-me... Volvem-me ao pensamento, à lem­brança, as cenas e os lances que culminaram com a minha desgraça. Vivía­mos minha mulher e eu, nos arredores da inesquecível Dax, uma das mais antigas cidades balneárias do Departamento de Landes, na França... Nossa casa pertencia ao hediondo Sr. Georges-Henri, descendente dos antigos viscondes que dominaram a região desde a Idade Média, os desumanos B... Embora a tradição de nobreza, era ele um abutre. Falava-se que era arbi­trário e dominador, criminoso e insano... A época era má  e, como lhe houvesse mais de uma vez recorrido a empréstimos que não pude resgatar, após intimar-me, mandou-me prender, única forma de impedir-me, em defi­nitivo, de regularizar o débito. Poderoso, fez-me condenar a injusta pena... A razão do meu encarceramento obedecia a outros interesses mais escusos... O maldito desejava minha esposa, que lhe desprezara a corte. Licencioso e infame, procurou persegui-la quanto pôde. Após meu impedi­mento, já  que os desonestos não confiam na integridade dos outros, tra­mou destruir-me para apossar-se facilmente da presa, logrando êxito, em parte, no plano astuto... Retido no cárcere imundo e vindo a descobrir qual o seu objetivo, de horror e ódio alimentei-me, negando-me morrer, a fim de um dia destruí-lo, apesar de criminosamente esquecido, para que a vida me fosse roubada pela inanição ou pelos maus tratos..." A Entidade disse, ainda, que o Sr. Georges-Henri fez-se passar por benfeitor de sua companheira, a jovem Louise-Caroline, relegada então a uma quase viuvez, e por pouco não a seduziu para explorá-la miseravelmente. Revoltado, po­rém, com o insucesso de seu plano, Georges internou-a num convento da Espanha, por vingança à sua fidelidade, enquanto ele apodrecia, abjeto, na prisão. Somente dois anos depois de seu encarceramento é que fora in­formado de tudo o que havia ocorrido, através de outro prisioneiro que chegara dos campos e sabia de seu infortúnio. A Entidade fez, então, uma pausa no seu relato de dor e explodiu em pranto, porque, além de não su­portar a carga do desgosto, informou que jamais pôde reencontrar Louise, a querida esposa a quem amava ainda mais, depois de todos os sofrimentos que ambos padeceram. (Cap. 20, págs. 189 e 190)
20. O caso caminha para um desfecho feliz - O Diretor da reunião pergun­tou-lhe, então: "E se a reencontrasses agora?" A Entidade respondeu: "Seria o paraíso no meu inferno, porém não perdoaria, ainda, o desditoso bandido que me roubou por tantos anos a luz dos meus olhos e é culpado pela nossa demorada aflição. Além do mais, somos vários os que se contam como suas vítimas, por ele desgraçadas. O pobre Jules, que sou eu, re­presenta uma pequena parte da sua imensa dívida..." O Diretor dos tra­balhos insistiu, porém, no ponto já  destacado antes: "Conforme te falei, cada um deve a si próprio e ao equilíbrio divino o crime perpetrado que ninguém defrauda sem lhe sofrer os resultados... A vida é um patrimônio sagrado que ninguém desarticula, explora ou interrompe impunemente. Por isso, deixa Georges-Henri entregue a si próprio e pensa em ti. Já  consi­deraste que ainda não encontraste Louise, porque, talvez, estejas foci­lando no charco, enquanto ela fulge, vítima redimida, como estrela, no alto, e se esforça por ajudar-te, ao tempo em que lhe negas a oportuni­dade da ascensão? A ela constitui um martírio tua distância -- punição que não merece -- como se ainda não lhe bastassem os pensamentos de fogo na jaula da clausura, não obstante havendo perdoado o seu perseguidor e responsável pelos desaires de ambos". E, inspirado por Natércio, infor­mou que o momento do reencontro estava próximo, porque o Senhor não pla­neja a extinção dos maus, porém a dos males. Assim, se ele o quisesse, poderia reencontrar Louise naquele momento, bastando para isso esquecer o ódio e alçar-se no amor. Quanto ao infeliz que destruiu a sua vida, ele não ficaria, como não estava, impune. A Entidade disse, então, que daria tudo para revê-la e ouvi-la... O Diretor recomendou-lhe, então, que pensasse em Jesus e suplicasse ao Mestre a concessão de poder reen­contrar Louise. "Ainda sabes orar?", indagou. Como o Espírito dissesse de sua dificuldade, ele propôs que orassem juntos. (Cap. 20, págs. 190 a 192)
21. A mais eficiente terapia para qualquer doença - A prece inspirada por Natércio, e dita pelo dirigente, foi repetida por Jules, em lágrimas de verdadeira renovação, enquanto Louise, como noiva devotada, agrade­cida a Jesus, o envolvia em fluidos entorpecentes com que o acalmava, a fim de conduzi-lo a uma estância de refazimento feliz, onde se recompo­ria para o futuro, após tão longo desajuste e tão demorada fuga ao dever da reabilitação interior. A presença da dor decorre do tempo em que per­manece ausente o amor. Quando o Espírito se envilece pelo ódio, fe­chando-se na concha forte da idéia infeliz, não tem por onde permitir que penetre o socorro que nunca falta, mas que a si mesmo recusa. O amor acalmava, assim, o ódio, ensejando o luzir da esperança de paz para to­dos. Louise-Caroline, transformada em enfermeira amorosa, cuidaria de Jules doente a requisitar-lhe socorro por largo tempo, enquanto Georges-Henri, aliás, Rafael Ferguson, sem a presença de seu verdugo, libertava-se da constrição do desafeto, não porém da necessidade imperiosa de re­paração dos males praticados contra aquele e suas demais vítimas. Reno­vando-se pela fé e modificando-se pela dor, solveria os gravames com amorosa atitude de resignação perante a vida, em criteriosos pagamentos enobrecidos. O amor é, como se vê, a mais eficiente terapia para todas as doenças, e o perdão ao mal o melhor contributo para a vitória do bem... (Cap. 20, págs. 192 e 193)
5a. REUNIÃO
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