Revelar ou não revelar: Uma abordagem fenomenológica do abuso sexual em meninos




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Revelar ou não revelar:
Uma abordagem fenomenológica do abuso sexual em meninos




Christian Haag Kristensen*, Renato Zamora Flores** William Barbosa Gomes***



*Núcleo de Neurociências, Universidade do Vale do Rio dos Sinos
**Departamento de Genética, Universidade Federal do Rio Grande do Sul
*** Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Kristensen, C. H.; Flores, R. Z.; & Gomes, W. B. (2001). Revelar ou não revelar: Uma abordagem fenomenológica do abuso sexual com crianças. Em M. A. T. Bruns & A. Furtado (orgs.). Psicologia e Pesquisa Fenomenológica: Reflexões e perspectivas. São Paulo, SP: Ômega.


A aplicação do método fenomenológico para o estudo de entrevistas é, por excelência, uma prática comunicativa. Ao estudar a experiência consciente, coloca-se diante de uma realidade que se constitui e se modifica através da comunicação. Lanigan (1988) sugeriu quatro premissas básicas que servem de fundamentação filosófica para uma fenomenologia da comunicação, designada por ele como tratando-se de teoremas. O primeiro teorema indica que a experiência consciente é a unidade de sentido mínima na comunicação. Esse teorema, segundo o autor, deriva da proposição de Edmund Husserl de que subjetividade é intersubjetividade. Em outras palavras, o sentido da existência de uma pessoa ou outra experiência qualquer emerge tanto para si como para os outros (Valle, King & Halling, 1989). Essa idéia está presente no pensamento de Heidegger, principalmente na concepção de ser-no-mundo, onde não é possível falar de um mundo sem homem (Kruger, 1981).O segundo teorema define que a reversibilidade é o sistema de código mínimo para a comunicação. Por reversibilidade entende-se o traço inerente da comunicação que é o câmbio entre expressão e percepção. Esse teorema incorpora as contribuições de autores identificados como a semiótica em suas frentes européia, inaugurada pelo linguístia suiço Ferdinand de Saussure, e norte-americana, pelo escritos do filósofo Charles Sanders Peirce (Nöth, 1995). O terceiro aponta para a transação como o comportamento mínimo governado por regras exigido para a comunicação. O teorema incorpora as contribuições de Austin (1962), Grice (1967) e Searle (1969), autores identificados com o movimento da linguagem ordinária, sobre os elementos lógicos do discurso e ressalta a natureza analógica do desempenho comunicativo como elemento importante para análise. Por analógica entenda-se as diferentes compressões que pode ser oferecida a uma dada sentença. O quarto e último teorema refere-se à competência da fala interpessoal como norma social mínima para a comunicação. Esse teorema baseia-se nos trabalhos dos filósofos Apel (1967) e Habermas (1987) concernentes às relações que servem de parâmetro para uma ação comunicativa: fato e valor; individual e coletivo.
Este estudo recorre ao método fenomenológico e a entrevista como subsídios teóricos e metodológicos para a compreensão e encaminhamento de um problema social, psicológico e de saúde pública: abuso sexual. Em particular, o estudo focaliza um impasse comunicativo em meninos que foram abusados sexualmente: revelar ou não revelar o ocorrido. A organização do capítulo é a seguinte: primeiro apresenta-se e discute-se o problema do abuso sexual, segundo descreve-se os critérios metodológicos que orientam a pesquisa e, por fim, apresenta-se e discute-se os resultados na tradição das pesquisas fenomenológicas, isto é, descrição, redução e interpretação.

Abuso Sexual
O abuso sexual vem sendo reconhecido nas últimas décadas como problema social, como problema de saúde pública e como problema psicológico. (Browne & Finkelhor, 1986; Ellis, Piersma & Grayson, 1990; Kristensen & Gomes, 1997; Malchiodi, 1990). As definições de abuso sexual variam de acordo com os comportamentos, situações e circunstâncias que possam ser considerados ou não abusivos (Kalichman, 1993). Abuso sexual pode ser operacionalmente definido como o envolvimento de crianças e adolescentes dependentes e evolutivamente imaturos em atividades sexuais que eles não compreendem verdadeiramente, para as quais não são capazes de dar seu consentimento informado, e que violam os tabus sexuais dos papéis familiares (Schechter & Roberge, citado em Watkins & Bentovim, 1992a, pp. 197-198). Fundamentalmente, estabelece-se uma relação de poder ou controle entre a vítima e o agressor que, não necessariamente, é uma pessoa adulta (Malchiodi, 1990), podendo haver - ou não - uma diferença significativa de idade. Usualmente estabelecida como cinco anos (Watkins & Bentovim, 1992b), a questão da diferença significativa de idade entre o abusador e a vítima é um aspecto discutível, como demonstram Cantwell (1988) e Johnson (1988) ao estudarem crianças e adolescentes abusadores. É importante que o objetivo da interação seja identificado, mas a busca de gratificação sexual não seria a única finalidade do comportamento do abusador.
Para dimensionar o fenômeno com maior precisão, é necessário verificar sua ocorrência, tanto em termos de prevalência (percentagem de pessoas em alguma população que experienciaram abuso sexual) como de incidência (números de casos novos de abuso sexual ocorridos ou registrados a cada ano). Um problema inicial é que os dados relativos à prevalência de abuso sexual apresentam grande variabilidade de acordo com a definição utilizada, de forma que uma definição limitada tende a subestimar a ocorrência da vitimação (Kalichman, 1993). Por exemplo, em diversos países o termo estupro - uma freqüente modalidade de abuso sexual - não pode ser utilizado para caracterizar meninos sexualmente vitimados com a utilização de força física (King, 1992). Outro aspecto que altera a estatística é a amostra escolhida, pois amostras provenientes de populações especiais, como crianças de instituições ou pacientes psiquiátricos apresentam taxas de abuso diferenciadas do resto da população (Watkins & Bentovim, 1992a). Ainda outro fator influencia criticamente os dados de prevalência: a metodologia utilizada (Flores, Kristensen, & Salzano, 1998).
Em um estudo analisando dados epidemiológicos de 21 países, Finkelhor (1994) identificou que mulheres sofreram abuso sexual na infância numa variação de freqüência entre 7% a 36%, enquanto que para os homens, oscilava entre 3% a 29%. Entretanto, as medidas mais representativas vêm sendo obtidas pela comparação dos dados entre as três versões do National Incidence Study of Child Abuse and Neglect, conduzidas nos Estados Unidos em 1979, 1986 e 1993 (Sedlak & Broadhurst, 1996). Resumidamente, estes estudos demonstraram que o número estimado de crianças que sofreram abuso sexual aumentou de 133.600 para 300.200, representando um aumento de 125% entre 1986 e 1993. Em um estudo envolvendo 1.754 registros de casos de maus-tratos em crianças e adolescentes (0-14 anos) no período de um ano (maio/1997 a maio/1998) em 75 instituições da região metropolitana de Porto Alegre, Kristensen, Oliveira e Flores (2000) identificaram que 26,2% da amostra haviam sofrido abuso sexual.
Em relação ao incesto, já foi descrito em Henderson (1975, citado em Goodwin, 1990) como um raro distúrbio com incidência de 1:1.000.000 na população em geral. Goodwin prossegue comentando que este era o mesmo quadro identificado por Sigmund Freud a quase um século atrás, de forma que Freud concluiu que era estatisticamente impossível que todos seus pacientes histéricos fossem realmente vítimas de incesto. Por conseguinte, alguns pacientes deveriam estar descrevendo fantasias relacionadas com o incesto e não propriamente o fato em si. Entretanto, Kirschner, Kirschner e Rappaport (1993) identificaram dados relativos ao incesto apontando um número substancial de mulheres na população (1:5) relatando experiências incestuosas em alguma etapa da sua infância. Finkelhor (1994) observou nos diversos estudos que o abuso intrafamiliar configurava-se entre um terço a metade das experiências de vitimação das meninas.
Apesar da maioria dos casos envolverem meninas, a incidência de abuso em meninos também é expressiva (American Academy of Pediatrics, 1988). The Child Abuse Program Annual Report (1987, citado em Johnson, 1992) indica que de 464 casos de abuso sexual investigados em 1 ano em um hospital infantil, 22% das vítimas eram do sexo masculino. Schetky (1990) observou em revisão de literatura, que a ocorrência do abuso sexual em meninos correspondia a uma freqüência de 10%; enquanto que Finkelhor, em estudos anteriores (1979, 1981, 1984, citado em Vander Mey, 1988) estimou um índice para meninos entre 3% a 9% da população. A relação entre abuso em meninos e meninas varia de acordo com a amostra utilizada nos estudos. Watkins e Bentovin (1992a) identificaram nos estudos com amostras colhidas na comunidade que 1 menino é abusado para cada 2 a 4 meninas abusadas, enquanto estudos baseados em amostras clínicas encontraram 1 menino para cada 4 meninas sexualmente abusadas. Os dados de prevalência comparativos de 21 países demonstraram que as meninas, em relação aos meninos, são abusadas em uma razão de 1,5 a 3 vezes (Finkelhor, 1994). Estes resultados são consistentes com o National Incidence Study of Child Abuse and Neglect, que apontou a vitimação sexual ocorrendo numa distribuição de um menino para três meninas abusadas; além disso, este estudo demonstrou que essa proporção manteve-se estável entre 1986 e 1993 (Sedlak & Broadhurst, 1996). Na amostra pesquisada em Porto Alegre e municípios vizinhos (Kristensen, Oliveira & Flores, 2000), as meninas apresentaram um risco relativo (odds ratio) em torno de 3,61 para serem sexualmente vitimadas, quando comparadas com os meninos.
Conforme argumentado anteriormente, os dados são profundamente afetados por um grande conjunto de fatores. Considerando especialmente a questão do abuso sexual em meninos, Watkins e Bentovim (1992a) identificaram diversas condições que poderiam levar a uma diminuição na comunicação ou denúncia do abuso. Entre as condições identificadas estão o medo da homossexualidade, respostas emocionais diferenciadas, atribuição da culpa ao menino, dificuldade em perceber indicadores de abuso pertinentes a meninos e negação do abuso, seja ele cometido por mulheres, pelo pai ou por outras crianças. Gonsiorek (1994) salientou a influência do contexto social em dois aspectos: quanto aos papéis sexuais estereotipados - onde a expressão da sexualidade passa a ser uma prerrogativa masculina e quanto à homofobia. O termo homofobia é aqui utilizado como referência a um intenso e irracional medo da homossexualidade, comumente manifesto como preconceito ou mesmo, em situações extremas, como uma reação patológica desproporcional de violência (West, 1992). Outros fatores - ainda que não relacionados especificamente a meninos - poderiam ser acrescentados, tais como a perda da proteção maternal, evitação do grupo de iguais e o conluio com a dinâmica familiar (Schultz, 1990). Este último, também referido por Furniss (1993) como uma síndrome conectadora de segredo e adição, na qual estão inseridos tanto a vítima como o abusador. Ampliando o foco de análise, Fontes (1993a) propôs um modelo ecológico que envolveria diversos níveis de pressões para a criança não revelar o abuso, incluindo características da cultura étnica e da sociedade. A utilização do modelo ecológico identificou que o suporte social é um fator moderador na denúncia de abuso sexual (Kotch e cols., 1995).

Abusadores sexuais
É importante referir-se, também, ao abusador, especialmente quando este é do mesmo sexo que o menino. Quanto ao abuso sexual do tipo incestuoso, duas situações são relevantes: quando o abusador é o pai ou padrasto, e quando é o irmão. No abuso extrafamiliar, deve-se distinguir quando o abusador é adulto, adolescente ou criança.
Watkins e Bentovim (1992a) identificaram diversas pesquisas sustentando que o abuso intrafamiliar em meninos é mais freqüentemente cometido por pais do que por padrastos. Em uma amostra com 189 meninos abusados (abuso extra e intrafamiliar), Reinhart (1987) verificou que 25% dos meninos foram abusados pelo pai, enquanto que em 13% dos casos, o perpetrador era o padrasto ou o companheiro da mãe.
Num estudo realizado em Porto Alegre por Flores e cols. (1992), identificou-se que o abusador é o pai da vítima em 50% dos casos de abuso intrafamiliar, enquanto que o padrasto seria responsável por 25% dos abusos. Estes dados encontram-se próximos aos achados de uma pesquisa realizada em São Paulo sobre o incesto (Cohen, 1993b), onde o abusador era o pai em 41,6% dos casos, seguido pelo padrasto (20,6%), tio (13,8%), primo (10,9%) e irmão (3,7%). Estes dados não se referem especificamente à vitimação de meninos, mas confirmam a tendência de outras pesquisas citadas acima. Ao revisarem nove estudos empíricos, Kendall-Tackett, Williams e Finkelhor (1993) identificaram sete pesquisas que sustentam um aumento na sintomatologia da criança quando esta possui uma relação próxima com o abusador, como na situação do abuso intrafamiliar (o que também foi confirmado por Sedlak e Broadhurst, 1996).
Alguns autores concordam que a freqüência deste tipo de abuso tem sido subestimada. Kirschner e cols. (1993) referem-se também ao fato desses casos serem tão pouco relatados e denunciados, como a conseqüência de rotular o abusado como homossexual e a falha do clínico ao não considerar a possibilidade deste tipo de abuso. Também Watkins e Bentovim (1992b) encontraram evidências em alguns estudos que procuram explicar esta negação em termos de dois códigos morais: um contra o incesto e outro contra a homossexualidade.
Uma outra modalidade de abuso sexual intrafamiliar, ainda mais delicada quanto à avaliação, é o abuso entre irmãos. Além das dificuldades levantadas anteriormente, as fronteiras entre o que seja uma brincadeira ou um jogo exploratório sexual normal entre crianças e o que seja uma atividade abusiva são imprecisas (Cantwell, 1988; Johnson, 1988; Kirschner e cols., 1993). Atividades como despir-se mutuamente e olhar a genitália de outra criança, de acordo com Cantwell (1988), estariam dentro de um limite de normalidade, enquanto o contato oral-genital ou a penetração anal ou vaginal com dedos e objetos seriam comportamentos inadequados. Quanto à masturbação, Kirschner e cols. (1993) sugerem uma diferenciação entre a masturbação em pares e grupos ou com um irmão da mesma faixa etária da masturbação entre irmãos com idades significativamente diferentes. Neste último caso, a participação do mais jovem nem sempre é voluntária, podendo haver o uso de ameaças ou mesmo violência física, caracterizando uma situação de abuso sexual incestuoso.
Num estudo de Finkelhor (1979, citado em Kirschner e cols., 1993), 13% da amostra relatava experiências sexuais envolvendo irmãos, sendo que 74% destas experiências eram entre irmãos de sexo oposto e 26% entre irmãos do mesmo sexo. Os resultados de um outro estudo, realizado com 47 meninos com idades entre 4 a 13 anos que abusaram sexualmente de outras crianças, mostram uma incidência maior de abuso entre irmãos. Neste estudo, Johnson (1988) constata que a incidência de abuso envolvendo irmãos é de 46%, sendo que em 11 casos o abuso se dava entre um irmão e uma irmã, e 12 casos eram de abuso entre dois irmãos do sexo masculino. A média de diferença de idade entre o abusador e a vítima variava entre os grupos: no caso de irmão-irmã a diferença média era de 4,5 anos; no caso de irmão-irmão, 3 anos.
A questão da diferença de idade entre irmãos é um aspecto importante na compreensão de duas dinâmicas distintas. De acordo com Furniss (1993), quando há uma diferença etária significativa entre os irmãos, é possível supor que o mais velho esteja numa posição de autoridade quase parental enquanto a vítima encontra-se numa situação de imaturidade e dependência. Ao contrário, o abuso sexual por irmãos com idades próximas é uma expressão da "síndrome de João e Maria". Nestas situações pode ser inadequado utilizar a denominação de abusador e vítima, já que não existe dependência estrutural ou relação de autoridade. O que ocorre portanto é uma equiparação entre relacionamento emocional e relacionamento sexual, no qual as crianças tentam suprir-se mutuamente através da excitação sexual como substituta ao carinho.
Um outro aspecto pouco relatado na dinâmica do abuso intrafamiliar refere-se à situação na qual o abusador é a mãe ou a mãe adotiva. Russel (1986, citada por Schetky, 1990) encontrou que mulheres abusadoras eram responsáveis apenas por 5% dos casos de incesto e por 4% dos casos de abuso extrafamiliar. Especificamente ao abuso de meninos, valores semelhantes foram encontrados, visto que as mulheres eram responsáveis por 4% das situações de vitimação (Reinhart, 1987). Entretanto, outras pesquisas levam a concluir que grande parte dos abusos cometidos por mães ou mulheres não é, em geral, denunciada, portanto tende a ser subestimada em sua ocorrência (King, 1992). Watkins e Bentovim (1992a) identificaram, em alguns estudos, dados referentes ao abuso cometido por mulheres. Num desses estudos, 28% dos homens foram abusados por mulheres. Em outro estudo realizado com mães abusadoras, identificou-se que em 43% dos casos o incesto dava-se entre a mãe e o filho do sexo masculino.
O National Incidence Study of Child Abuse and Neglect identificou que a categoria de abuso sexual é aquela que apresenta uma maior prevalência de abusadores masculinos entre todas as outras formas de abuso: enquanto 89% das crianças foram abusadas por homens, 12% foram sexualmente abusadas por mulheres (Sedlak & Broadhurst, 1996). Estes dados são válidos tanto para abuso sexual extrafamiliar como para abuso intrafamiliar. Considerando-se a ampla categoria de maus-tratos perpetrados por pais naturais, este mesmo estudo demonstrou que 75% das crianças foram maltratadas por suas mães, enquanto que em 46% dos casos foram os pais os perpetradores (algumas crianças foram maltratadas por ambos).
Finkelhor (1984, citado em Vander Mey, 1988), ao comparar mães abusadoras com pais abusadores, relatou que as mães são em geral mais pobres e combinam mais freqüentemente o abuso físico e sexual do que os pais. Estudos mais recentes (Rudin, Zalewski & Bodmer-Turner, 1995) compararam características das vítimas de acordo com o gênero do abusador, demonstrando que não há diferença quanto à severidade, embora mulheres (comparadas com homens) abusem de crianças mais jovens e estejam em uma relação de maior proximidade das vítimas. Na amostra de mulheres abusadoras, as mães (19,5%) corresponderam à categoria mais expressiva.
Em sistemas familiares nos quais ocorre o incesto, é possível identificar, brevemente, características dinâmicas que dificultam a revelação do abuso e por conseguinte, diminuem o registro dos casos. Uma dessas características refere-se à inversão na hierarquia familiar entre pais e filhos (Furniss, 1993), criando situações de extrema confusão para as crianças (Sattler, 1992). Um outro dado é o segredo familiar, que se une à confusão sistêmica de hierarquias (Furniss, 1993). As ameaças que a criança sofre contribuem para a manutenção do segredo, mas este envolve todos os membros da família numa espécie de conluio. Os segredos mais cuidadosamente escondidos são justamente estes relacionados com o incesto (Pincus & Dare, 1981).
Ao abordar a situação de abuso sexual fora do sistema familiar é necessário fazer uma distinção quanto à idade do abusador. Como já foram discutidos anteriormente aspectos referentes à incidência na população, abordam-se a seguir alguns dados de especial interesse em situações nas quais o abusador é uma criança ou adolescente.
Quando o abuso sexual é cometido por adolescentes, há uma forte tendência a considerá-lo como um ato insignificante de experimentação sexual (Davis & Leitenberg, 1987). Entretanto, quando observa-se que, nos Estados Unidos, 20% dos estupros e 56% dos casos relatados de abuso de crianças são cometidos por pessoas com menos de 18 anos (Brown, Flanagan & Mc Leod, citado em Katz, 1990), faz-se necessário redimensionar a idéia do que seja experimentação sexual. Em aproximadamente dois terços dos abusos cometidos por adolescentes as vítimas são crianças mais jovens e na maioria dos casos são parentes ou pessoas conhecidas dos abusadores (Davis & Leitenberg, 1987). Outro dado interessante refere-se à proporção entre meninos e meninas abusados por adolescentes. Reinhart (1987) identificou em sua amostra que os meninos são duas vezes mais abusados por adolescentes do que as meninas. Além disso, à medida que diminui a idade das vítimas, a proporção de meninos abusadores tende a crescer (Watkins & Bentovin, 1992a; Davis & Leitenberg, 1987).
Browne e Finkelhor (1986) identificaram que a diferença de idade entre o abusador e a vítima é uma variável que influencia o impacto do abuso. Concluíram que as vítimas sentiam-se mais traumatizadas à medida que a diferença de idade aumentava. Furniss (1993) chamou atenção para o dado de que freqüentemente adolescentes abusadores sofreram, eles próprios, abuso sexual, entretanto este processo de vítima a abusador será discutido com maiores detalhes posteriormente. Quando comparados adolescentes abusadores com dois outros grupos - adolescentes normais e adolescentes delinqüentes com problemas de conduta mas que não eram abusadores sexuais, alguns dados interessantes foram observados. Por exemplo, adolescentes abusadores apresentaram maior probabilidade do que adolescentes delinqüentes em perceberem a si mesmos como socialmente inadequados e sentirem-se ameaçados nas interações heterossexuais (Katz, 1990). Este estudo sugeriu que habilidades sociais comprometidas e isolamento social são fatores predisponentes na adolescência para o abuso sexual de crianças.
Outro aspecto relevante refere-se ao interesse sexual por crianças, investigado em uma amostra de estudantes universitários. Briere e Runtz (1989) encontraram, em uma amostra com 193 estudantes do sexo masculino, um índice de 21% que admitiram alguma atração sexual em relação a crianças, 9% que relataram fantasias envolvendo sexo com crianças e 7% que indicaram ao menos alguma probabilidade de fazer sexo com uma criança se isto não resultasse em prisão ou punição.
Mais recentemente, outra situação que tem sido foco de atenção é o abuso sexual cometido por crianças (Johnson, 1988). Crianças abusadoras apresentaram grande probabilidade de terem sido elas mesmas sexualmente vitimadas (Cantwell, 1988; Ellis, Piersma & Grayson, 1990; Johnson, 1988; Kirschner e cols., 1993; Schetky, 1990; Vander Mey, 1988). Entretanto, uma vez que comumente os pais do menino negam o comportamento do seu filho, colocando a culpa na vítima (Cantwell, 1988), a identificação desses casos torna-se difícil. Muitas vezes é a própria criança que não assume o seu comportamento. Johnson (1988) identificou no seu estudo que o grupo de pré-adolescentes apresentou maior probabilidade de negar o abuso do que os grupos de meninos mais jovens. Meninos abusadores tenderam a abusar mais freqüentemente de irmãos de ambos os sexos (46%) e membros da família (18%) do que de outras crianças (Johnson, 1988).

Objetivo da pesquisa
Como já foi mencionado, o abuso sexual na infância é um relevante problema de saúde pública, atingindo um grande número de crianças e afetando o desenvolvimento psicológico das vítimas. Embora menos estudado do que a vitimação de meninas, o impacto dessa experiência em meninos é bastante significativo, tanto no abuso extrafamiliar, quanto nas situações de incesto. Estudos recentes indicam que a teoria e o tratamento na área do abuso sexual permanecem desintegrados e formulados em conceitualizações simplistas (Gonsiorek, 1994). A proposição deste autor é de que esforços deveriam ser empreendidos para compreender como a experiência afeta as vítimas que caminhos resultam para que certos indivíduos abusem e como todos envolvidos podem experienciar soluções significativas para seus problemas e sofrimentos (Gonsiorek, 1994, p. 4). Ademais, frente à homogeneidade de pesquisas quantitativas, a utilização de metodologias qualitativas foi recomendada como uma alternativa, devido à sua possibilidade de descrição de um fenômeno pouco compreendido como o abuso sexual (Gilgun, 1991). Assim, o objetivo deste estudo é estabelecer um diálogo com menino que foram abusados sexualmente e abrir canais comunicativos para que eles expressem a percepção da experiência. A expectativa dos autores é que ao falar sobre a experiência os meninos abusados falem de sua reflexividade (consciência da experiência) sobre a situação, o corpo, o presente e as perspectivas futuras. Do mesmo modo, os autores esperam que a fala sobre o abuso seja também uma reflexividade assistida, e portanto menos dolorosa, proporcionando possibilidades de uma reavaliação e um reposicionamento sobre a experiência em questão.

Considerações Metodológicas

A perspectiva utilizada neste estudo é a conjunção entre a fenomenologia existencial de Merleau-Ponty (1945/1994) e os recursos semióticos de teóricos como Saussure (1916/1969) e Barthes (1971). Em termos operacionais, orienta-se nos trabalhos de Amedeo Giorgi (1975, 1985) e Richard L. Lanigan (1988, 1992, 1994). O delineamento proposto objetiva, através de uma descrição de experiências, comportamentos ou interações, alcançar o sentido vivenciado. Busca na fenomenologia tanto o conceito de suspensão de preconceitos apriorísticos - colocar entre parênteses as crenças do pesquisador - quanto o conceito de sistemática dialógica que está presente em cada etapa da investigação (Gomes, 1987). Utiliza-se ainda das três reflexões fenomenológicas propostas por Merleau-Ponty (descrição, redução e interpretação) ao longo do processo de análise dos dados (Gomes, 1984). Busca, na semiótica, recursos para identificar unidades de significado através de recortes no relato ou narrativa da experiência vivenciada (Gomes, 1987). Utiliza-se então dos recursos da fenomenologia e da semiótica (comunicologia) para fundamentar seu conjunto de técnicas analíticas. Estes procedimentos de análise, conforme proposto por Lanigan (1994), organizam-se então como: a) considerações existenciais entre capta e data (focaliza-se na descrição o fenômeno como um sistema de signos); b) considerações semióticas entre capta e data (focalizam-se na redução os significantes no sistema de signos); c) considerações hermenêuticas entre capta e data (focalizam-se na interpretação os significados no sistema de signos).

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